Segunda-feira, 23 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > VIDA DE JORNALISTA

Pedras no caminho da posteridade

Por lgarcia em 07/10/2003 na edição 245

VIDA DE JORNALISTA

Celso de Campos Jr. (*)

Resenha de Musácea ? crônica
de uma morte acidental
, de João Paulo Soares, 152 pp., Carrenho
Editorial, São Paulo, 2003; <
www.carrenho.com.br>;
R$ 28,00


É bem provável que a maioria dos jornalistas, em uma ou outra passagem, identifique-se com Marlon, protagonista de Musácea. Sensações e angústias quase inerentes ao ofício aparecem em profusão no romance de João Paulo Soares. As emoções parecem seguir uma trajetória básica, tanto para Marlon quanto para outros milhares de profissionais esparramados pelo Brasil: os sonhos de início de carreira, a desilusão com o contato com o trabalho diário, a esperança renovada por um furo de reportagem, a decepção com a covardia da direção para publicá-lo, a resignação ao se perceber o trabalho de combater tudo isso.

Alguns não passam do segundo item, preferindo financiar uma Topic para vender cachorro-quente na porta de estádios de futebol ? oásis de racionalidade quando comparado a algumas redações. Marlon, não. É verdade que hesita um pouco, mas resolve seguir adiante para investigar aquela que lhe parece a matéria mais sensacional que poderia aparecer em meio ao marasmo da pequena Tribuna do Atlântico: o assassinato, em circunstâncias misteriosas, do prefeito de Musácea, fato devidamente abafado pelo dono do jornal e pela quase totalidade das demais autoridades locais. Quem sabe a reportagem não seria o primeiro passo rumo à posteridade que almejava?

Seguindo essa pista, João Paulo Soares, editor do caderno "Setecidades" do Diário do Grande ABC, constrói uma história envolvente, com um emaranhado de personalidades ? destaque para o complexo Augusto César Vanblum ? que se revelam surpreendentemente interligadas na trama. Mas é o estilo do autor a mais agradável surpresa. Nas 152 páginas da obra, o leitor passeará pelos mais diversos gêneros literários e jornalísticos, sendo conduzido por trechos de romance policial, reflexões existencialistas e crônica de costumes, com direito a pitadas de realismo fantástico ? o capítulo da maldição do Bom Jesus de Musácea narrado pelo próprio é um dos pontos altos do livro.

João Paulo Soares faz as transições entre tão díspares linguagens com tamanha sutileza que o leitor não sente os solavancos ao longo do caminho. Mais ou menos como uma reportagem bem amarradinha.

(*) Jornalista e co-autor do livro Nada Mais que a Verdade: a Extraordinária História do Jornal Notícias Populares (Carrenho Editorial)

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