Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > BAIXARIA E VIOLÊNCIA

  Pedro Doria

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136

BAIXARIA E VIOLÊNCIA
Sônia Apolinário

"Apelo sexual de ?Anita? garante ibope", copyright O Estado de S. Paulo, 21/8/01

"A minissérie Presença de Anita melhorou o desempenho de audiência que a Globo costuma ter no horário das 22h30. A média da primeira semana de exibição ficou em 29 pontos. O resultado, comparado às quatro mais recentes minisséries da emissora, põe Anita como vice-campeã, atrás apenas de A Muralha, exibida no início de 2000, que obteve média inicial de 34 pontos.

O desempenho da polêmica Anita traduziu em ibope o apelo ao tema sexual.

Embora boa parcela de telespectadores esteja contestando os conceitos morais da história e a exposição de nus, há resistência em desligar a TV ou mudar de canal.

Em seu primeiro capítulo, Anita conseguiu média de 30 pontos. No dia seguinte, caiu para 25. Depois, recuperou-se com 32, voltou a cair para 29 pontos e retomou a média de 32 na quinta-feira, quando foram ao ar algumas das cenas mais calientes exibidas até agora.

Os programas exibidos no segundo horário da linha de shows da emissora, que foram momentaneamente substituídos pela minissérie, oscilavam entre 19 e 23 pontos de audiência. A exceção é o futebol das quartas-feiras, que costuma conseguir 33 pontos.

Entre as minisséries mais recentes, a pior média de audiência de primeira semana fica com Aquarela do Brasil, que teve 22 pontos. Os Maias teve saldo de 23, enquanto Chiquinha Gonzaga alcançou 28. Na Grande São Paulo, cada ponto no Ibope equivale a 44 mil domicílios.

Por falar em audiência, após sucessivas derrotas para o SBT, Fausto Silva retomou a liderança no domingo. Enquanto Ronaldinho esteve no ar, a Globo alcançou 26 pontos, ante 19 do SBT. No final do embate, os programas de Faustão e Gugu terminaram empatados em 23 pontos."

"Lolita quer vingança", copyright no. (www.no.com.br), 21/8/01

"Há uma semana, a revista eletrônica ?Salon? apareceu com uma reportagem bombástica. Envolvia todos os elementos necessários para agradar o leitor: lolitas, sexo e Internet. Repercutiu a olhos vistos, mas logo apareceu uma pedra no meio do caminho – nos tempos da grande rede, a revista eletrônica está a tantos cliques de distância quanto o site pessoal e as jovens citadas no texto não gostaram nem um pouco do que leram. Puseram em suas páginas, pois, respostas. Acusaram a ?Salon? de jornalismo marrom, de tirar do contexto frases, de forçar a barra e sujar reputações adolescentes. O episódio bem serve de lição a jornalistas e leitores. Senão, vejamos:

Sob o título ?Doces de estranhos?, a repórter Katharine Mieszkowski apontou para um novo fenômeno da Internet. Jovens adolescentes com sites pessoais e webcams (aquelas câmeras que mostram online o dia-a-dia de uma cidade, escritório ou pessoa) estão colocando no ar listas de presentes. Tais listas são ofertas de quaisquer empresas de comércio eletrônico como a Amazon.com. Você pode dizer o que quer dali, um estranho pode entrar, digitar um cartão de crédito e ordenar a entrega. Nem o estranho tem acesso ao seu endereço, nem você ao cartão dele. Em troca dos presentes, as meninas mostram uns centímetros a mais de pele.

Aproveitando os termos aplicados por outras jovens com cams mas sem listas de presentes, Katharine chamou o fenômeno de prostituição virtual.

Uma das personagens mais revoltadas foi Katneko, 19, dona do site LinuxKitty. ?A mídia faz esse tipo de troço, o que entendo. Mas uma coisa me deixou com raiva, algo que não devia aparecer na reportagem desde o início. O assunto? Minha irmã mais nova. A razão de minha raiva? Faze-la parecer uma prostituta.? Brandi, a irmã em questão, tem 15 anos de idade. Outra que não gostou tampouco da história foi Charisma, 17. Ela postou em seu site todos os emails que trocou com Mieszkowski, suas respostas completas e como deixou claro à repórter que não gostava da idéia de destacar sua lista.

Ken Layne, editor do ?Los Angeles Examiner? e colunista do ?Online Journalism Review?, aproveitou o gancho. ?Esta é uma nova era, a boa e nova Era da Web, então as reclamações não desaparecem no éter de uma organização jornalística.? Trata-se de um dos mais respeitados críticos do jornalismo digital e sua opinião conta. Resultado? Pau na ?Salon?.

É quase impossível não se condoer com a dor pela injúria das moças e, não fosse a releitura pelo desencargo de consciência da reportagem da ?Salon?, seus protestos pareceriam mais que justificados. Mas não são – está claro, lá, quem tira a roupa e quem não o faz. Quem ganha presentes e quem não ganha. É cruel muito do texto jornalístico, e espelho é coisa que passa ao largo de ser agradável. Mieszkowski não fecha a questão de se as moças são ou não prostitutas, mas observa que o hábito de jovens adolescentes insinuarem-se em troca de presentes – doces de estranhos – pode muito bem sugerir, sim, a possibilidade. Estão na rede todos os pontos de vista. Que ao leitor desta coluna não se imponha uma opinião.

Até porque a questão vai mais além. Como diz o velho Shakespeare pela boca de Romeu, só quem ri das chagas é quem jamais foi ferido.

Cá do outro lado da tela, neste site e noutras tantas revistas eletrônicas, jornalistas de todo mundo estão aprendendo que Ken Layne está certo. As reclamações não mais se perdem ?no éter de uma organização jornalística?. O personagem traído está a um Geocities de distância de publicar gratuitamente sua reclamação. Seu espaço, na tela do Explorer ou Netscape, detalhes no design à parte, é igual ao do jornalista.

É pressão que a imprensa nunca teve e, cá entre nós, apavora. (Não espalhem – se alguém perguntar, nego.) Mas também é a única forma de pressão à imprensa livre que não só é tolerável como desejável. O questionamento constante dos critérios de uma reportagem ou artigo, com bons ou maus argumentos, só pode ser saudável. O jornalista sai um profissional melhor quando tem consciência de que a sua não é mais a palavra final, no máximo o início do diálogo.

E a Internet não forma apenas melhores jornalistas. Principalmente, forma melhores leitores, gente com acesso a mais fontes de informação e que sabe muito bem qual o peso real de uma reportagem. Afinal, o mundo é bem mais complicado que um artigo possa explicá-lo e sabemos todos disso."

    
    
                     

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