Domingo, 16 de Dezembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1017
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Pega mal, meu caro Watson

Por lgarcia em 16/01/2002 na edição 155

ESTÁCIO DE SÁ

Antônio Brasil (*)

Meu caro professor Watson, já que a Estácio está tão preocupada em monitorar as matérias do Observatório e dar aulas sobre "bom jornalismo", então vamos um pouco mais fundo em busca da "verdade". Omitir o nome do idealizador, criador e responsável pela implantação do projeto do telejornal diário da Estácio também não parece ser boa prática jornalística. Pega mal e pode ficar parecendo, para um leitor desavisado, que o trabalho realizado antes da chegada do senhor à Estácio de Sá – por coincidência, assim como o missivista anterior, também trazido pelo sub-reitor, professor Felipe Pena – era de um "mero" telejornal de circuito interno. Ficou parecendo que não era muita coisa!

Em respeito a uma equipe de professores e alunos com muita garra, criatividade e espírito de pioneirismo, a qual tive o privilégio de liderar e a título da tão decantada "verdade" e do "bom jornalismo", creio que o senhor deveria ter citado os nomes dos verdadeiros responsáveis pelo Estácio no Ar ou seja lá o nome que puseram agora. Afinal, nós sabemos que ele foi simplesmente transposto do circuito interno para um canal comunitário sem qualquer alteração durante muito tempo e que, ainda hoje, se parece demais com o velho telejornal. O nome, as vinhetas, o formato do telejornal, a equipe de produção e apresentação formada por alunos previamente selecionados e treinados e principalmente os prêmios na Intercom já existiam antes dessa nova gestão. Essa nova gestão sequer sabia o que era a tal de "Intercom".

Já produzíamos telejornais inteiros "ao vivo" para o circuito interno e a própria negociação com o canal comunitário do Rio de Janeiro já estava em fase final. Parece que é uma prática costumeira das novas gestões da Estácio se apropriarem dos projetos de antigos coordenadores e dispensá-los sem justa causa. Depois é só sair por aí dizendo o que quiser. A maioria silenciosa se cala sempre!

Mais uma vez, creio que a Estácio perdeu uma boa oportunidade de se restringir a fabricar diplomas e cobrar caro dos muitos alunos que buscam desesperadamente um emprego em jornalismo. Nem todos os alunos dos cursos de Comunicação precisam pagar os "olhos da cara" para fazer um bom telejornal universitário diário, e sem ter que promover a própria instituição em seu projeto de marketing acadêmico a qualquer custo.

E já que está aberta a temporada de convites, também convido o meu caro professor Watson a ver como se faz o TJ Uerj online, o primeiro telejornal universitário diário ao vivo online do país e que, repito, não precisa cobrar nada dos alunos. Muito pelo contrário! Ainda oferece bolsas de extensão remunerada a diversos integrantes do projeto. Também teremos prazer em mostrar como ele é feito e veiculado.

Ah, e o mais importante, prometemos não cobrar nada por isso.

(*) Jornalista, coordenador do Laboratório de TV e professor de Telejornalismo da Uerj

Rodrigo Rodrigues (*)

Não resisti. Confesso que tentei ficar alheio à polêmica sobre o tal "primeiro, único, diário e intergalático telejornal universitário do Brasil", o Jornal da Estácio, ou Estácio no Ar, para os mais antigos e íntimos. Mas como leitor regular do Observatório e integrante da primeira geração do TJ, me achei no direito de meter a colher nessa sopa de notícias e desencontros.

Vou contar aqui como as coisas começaram. O Núcleo de Comunicação da Estácio, hoje Núcleo Prático de Comunicação, funcionava mais ou menos assim: éramos 5 ou 6 estagiários na TV Estácio, todos alunos do curso de Jornalismo da instituição, e cada um de nós produzia, apresentava e editava um programa semanal diferente. Um de clipes, outro sobre culinária, um que mostrava os bastidores de veículos de comunicação e até um tipo documentário. Detalhe: um ajudava na produção do outro. Esse esquema durou até março de 1999, quando o professor Antônio Brasil assumiu a coordenação da TV Estácio e logo propôs um desafio: seria a equipe capaz de produzir um telejornal diário para ser veiculado no circuito interno de TV da faculdade?

Eu, que não participei da tal reunião em que o professor Brasil fez a "proposta indecente", fiquei assustado quando soube e pensei: "Putz, esse cara tá maluco. Se mal temos tempo e equipamento para as produções semanais, como fazer um telejornal diário?" E pior: não deveríamos parar com as produções semanais porque o Canal Universitário do Rio de Janeiro, a UTV, estava para entrar no ar e, muito provavelmente, os programas seriam aproveitados para a grade da Estácio no canal. Mas essa é outra história.

Topamos o desafio do professor Brasil quase que por "livre e espontânea pressão"! Uma espécie de concurso com os alunos dos cursos foi feito para a escolha do nome, que acabou ficando Estácio no Ar. Ok, já tínhamos o nome, mas e agora? Faltava definir um formato para o TJ. Quantos blocos? Quantas notícias por bloco? E as matérias? Como seria possível fazer um telejornal diário de 15 minutos com apenas UMA equipe de externas disponível?

As primeiras edições do Estácio no Ar eram compostas por várias notas peladas, um ou outro povo-fala, um quadro que destacava as revistas semanais e uma ou duas matérias velhas (e frias), ou seja, era praticamente o rádio da TV! E o jornal ainda era pré-gravado, só iria "ao ar" no dia seguinte. Nada poderia ser mais antitelevisivo do que aquilo!

Com o tempo, a equipe foi se acertando e o TJ começou a ir ao ar no mesmo dia. Os trabalhos começavam às 13h, mas pelo menos um de nós chegava um hora antes para ler dois ou três jornais, separar as notícias mais significativas e montar um pré-espelho. Quando o resto da equipe chegava à redação, o pré-espelho virava espelho definitivo e começávamos a dividir as tarefas. Alguém escrevia as "cabeças" a serem lidas pelo âncora, um dos repórteres descia ao campus para a gravação do povo-fala (ou fala aí), outro invadia o arquivo atrás de matérias antigas e frias e sobravam as duas funções mais chatas: ficar trancado no estúdio gravando capas de revistas e digitar o texto das "cabeças" no teleprompter!

Por volta das 17h, entrávamos em estúdio para a gravação das cabeças. Enquanto isso, alguém ficava nas ilhas de edição montando os VTs que entrariam naquele dia. "Pontualmente" entre 19h e 21h, o Estácio no Ar invadia a "TV do Poste", apelido carinhoso dado pelo professor Brasil ao circuito interno de TV da Rua do Bispo. O áudio não ajudava, já que a maioria dos monitores ficava perto das lanchonetes, cujo burburinho tornava o telejornal muitas vezes inaudível. Mesmo assim, com áudio ou sem áudio, o Estácio no Ar estava lá.

Aos poucos, a engrenagem começou a funcionar automaticamente e resolvemos ceder, mais uma vez, aos apelos do professor Brasil. "Matéria boa é matéria que vai ao ar… não adianta caprichar muito e não chegar a tempo! Se não temos equipamento betacam, vamos gravar em VHS mesmo!" Depois dessa "chamada", as notas peladas começaram a ser substituídas pelas precárias porém jornalísticas reportagens em VHS, captadas pelos próprios alunos. Já que não podíamos operar os caríssimos equipamentos profissionais da instituição, começamos a usar e abusar das câmeras amadoras mesmo. Câmeras essas, diga-se de passagem, de propriedade dos próprios estagiários. Eu mesmo usei a minha por mais de três meses a serviço do TJ. Nossas principais matérias foram gravadas em VHS. E esse foi o começo do fim da era "o rádio na TV" do Estácio no Ar.

Próximo desafio: entrar com o TJ, que já era diário, ao vivo para o campus, aproveitando o circuito interno de TV. A edição ao vivo começou esporádica, virou semanal e, algum tempo depois, diária. Nessa época, as negociações com a TV Comunitária para a veiculação do Estácio no Ar no canal 14 da Net já estavam avançadas, era uma questão de marcar a data e ligar um cabo. Foi quando o Núcleo sofreu uma reviravolta política nas férias de julho e as coisas começaram a mudar. Subitamente, o professor Brasil foi afastado da coordenação da TV Estácio e, conseqüentemente, do telejornal. Como não me adaptei ao "novo clima" e também não concordei com a saída do nosso coordenador, comecei a trabalhar desgostoso e com o "freio de mão puxado", como dizem por aí, e pedi o meu boné. Aliás, me deram um boné e um tchau.

Quando a nova trupe encabeçada pelo Sr. Felipe Pena chegou ao Núcleo de Comunicação, o Estácio no Ar já existia por quase seis meses e, praticamente, andava sozinho. A equipe que produzia o TJ foi mantida e hoje, como disse o Sr. Fabio Watson, em artigo recente publicado neste mesmo site, os alunos que participaram do projeto estão estagiando ou trabalhando na TV Globo, nos canais Globosat, em afiliadas da TV Bandeirantes, no jornal Lance!, na Record do Rio, na TV Educativa e, já que acabei ficando de fora da lista, resolvi me incluir: estou na TV Cultura de São Paulo. E digo que aqueles meses de contato com uma produção diária de TV, mesmo que em VHS e em circuito interno, foram fundamentais para a minha formação, não só para a de repórter, mas para as principais funções que eu poderia vir a desempenhar em uma grande emissora. Me sentia vivendo um trailer, sabia que aquela rotina provavelmente se repetiria em alguma TV do mundo real. E a sensação que tenho hoje é exatamente essa, só que agora o filme já começou.

Pelo que fui me lembrando enquanto escrevia sobre o Estácio no Ar, acabo de me convencer que o ineditismo do projeto do telejornal "universitário diário e ao vivo" fica por conta do atual nome, Jornal da Estácio e, é claro, da ligação de um cabo, o da Net. Penso que nesses quase três anos de telejornal houve mudanças, tanto de equipe quanto de linguagem. Mas a semente plantada na época das "câmeras magras" consolidou o know-how dos alunos-repórteres. Nem mesmo os prêmios na Expocom chegam a ser novidade, eu mesmo tenho um aqui, conquistado em 1999, graças às matérias em VHS.

(*) Repórter do programa Vitrine, da TV Cultura, e ex-repórter e editor-chefe do Estácio no Ar. Ou Jornal da Estácio?


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