Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > ENTREVISTA / MATINAS SUZUKI JR.

Pela valorização do texto jornalístico

Por lgarcia em 16/12/2003 na edição 255

ENTREVISTA / MATINAS SUZUKI JR.

Leticia Nunes

Jornalismo literário, antes que alguém confunda com jornalismo sobre literatura, é uma prática jornalística que une a objetividade da descrição dos fatos com elementos e técnicas da literatura de ficção.

A coleção "Jornalismo Literário", da editora Companhia das Letras, surgiu para reeditar algumas das maiores reportagens do século 20. O primeiro volume ? Hiroshima, de John Hersey ? foi publicado há pouco mais de um ano. Desde então, já foram para as livrarias reportagens de jornalistas como Joseph Mitchell, Truman Capote, Joel Silveira e ? o último lançamento ? Zuenir Ventura.

Primeiro título da série, Hiroshima é uma reportagem publicada na revista The New Yorker um ano após o lançamento da bomba atômica na cidade de Hiroshima, em 1945. Hersey passou 17 dias no Japão e baseou-se no relato de seis sobreviventes da tragédia para escrever sua matéria. Quarenta anos depois, o jornalista retornou à cidade e reencontrou seus personagens, somando mais um capítulo à história.

O Segredo de Joe Gould é o resultado de uma reportagem também publicada originalmente na New Yorker, na década de 1960. Escrita por Joseph Mitchell, conta a história do intrigante mendigo Joe Gould, que o jornalista conheceu no Greenwich Village, reduto boêmio de Nova York. Gould dizia escrever o maior livro do mundo, a História Oral do Nosso Tempo, mas morreu em 1957 sem publicar nenhum livro.

A Sangue Frio, de Truman Capote, é o relato do brutal assassinato da família Clutter, em uma pequena cidade do Kansas, e da condenação dos criminosos. A reportagem exigiu mais de um ano de apuração de Capote, e foi uma das responsáveis pela criação do conceito de jornalismo literário, pois combinava de maneira magistral a objetividade na descrição dos fatos e os recursos utilizados nas narrativas de ficção. A história foi também publicada na New Yorker, em 1965, seis anos após a chacina.

O primeiro título brasileiro da coleção é A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, de Joel Silveira, que reúne diversos textos ? entre reportagens, entrevistas e crônicas ? publicados na revista Diretrizes, na década de 1940. Com muita ironia e humor, o texto traça um retrato do Brasil da época.

O mais novo filhote da coleção acaba de ser lançado: Chico Mendes ? Crime e Castigo, série de reportagens de Zuenir Ventura sobre a morte do seringueiro Chico Mendes. O livro traz as reportagens feitas para o Jornal do Brasil em 1989, quando Zuenir foi enviado ao Acre; traz também as reportagens sobre o julgamento dos assassinos de Chico Mendes, em 1990; e matérias escritas em outubro de 2003, quando o jornalista retornou à região e reencontrou os personagens envolvidos no crime.

Em outra frente pelo estímulo ao jornalismo literário, foi lançado um concurso que leva o mesmo nome da coleção, promovido pela Companhia das Letras em parceria com o portal iG e apoio do jornal Último Segundo <http://ultimosegundo.ig.com.br/useg/>. Foi proposto aos jovens estudantes do Brasil que escrevessem uma reportagem inédita sobre o tema "personagens urbanos". As inscrições ocorreram de setembro a novembro, e os vencedores ? cujos textos podem ser lidos em <www.igler.com.br> ? foram anunciados no dia 3 de dezembro.

Outras preciosidades estão no forno. A coleção "Jornalismo Literário" não tem um número limite de livros, mas o objetivo do jornalista Matinas Suzuki Jr., coordenador da série, é que sejam lançados de quatro a cinco títulos por ano. Em entrevista ao Observatório, Matinas falou sobre as inspirações da coleção, seu futuro e sua importância.

Como surgiu a idéia de fazer a coleção "Jornalismo Literário"?

Matinas Suzuki ? Era uma idéia antiga do Luiz Schwarcz [editor da Companhia das Letras] e minha, que vinha da constatação de que alguns textos clássicos do jornalismo estavam fora do mercado no Brasil. Veio amadurecendo ao longo dos anos e finalmente descobrimos uma oportunidade para fazer com o apoio cultural do jornal eletrônico Último Segundo.

Qual a importância da coleção?

M.S. ? Acho que só saberemos a real importância da coleção daqui a algum tempo. A nossa intenção é contribuir para a revalorização do texto na imprensa brasileira. Na minha visão pessoal, as duas últimas décadas foram décadas de desvalorização da qualidade da escrita na imprensa brasileira. Em um momento no qual o jornalismo repensa os seus caminhos, talvez seja apropriado tentar resgatar o texto como valor para o jornalismo.

Quais serão os próximos títulos?

M.S. ? Além do livro sobre o Chico Mendes, do Zuenir Ventura, que acaba de sair, o próximo volume será o livro Fame and Obscurity, do Gay Talese, que no Brasil ficou com o título de Aos Olhos da Multidão.

Como foram escolhidos os títulos?

M.S. ? Nós procuramos selecionar os textos que são considerados marcos do jornalismo e que tenham saído originalmente em jornais e revistas. A seleção é feita pelo Luiz, pela Maria Emília Bender, da Companhia das Letras, e por mim, após consultar bastante gente.

Com avalia a repercussão e a vendagem?

M.S. ? Têm sido muito boas, especialmente quando se considera um tipo de coleção como essa. No princípio, nós achamos que ela interessaria apenas a estudantes de jornalismo, mas ela acabou atingindo um público maior. Isso mostra que esses textos escritos 40 ou 50 anos atrás permanecem, sobretudo pela qualidade da escrita.

Como você definiria a prática do jornalismo literário?

M.S. ? A discussão sobre se existe ou não ou jornalismo literário é muito ampla e complexa, e não cabe em uma resposta muito curta. De qualquer maneira, mesmo correndo o risco de ser simplista, eu lembraria algumas regras que são mencionadas pela maioria dos estudiosos: o jornalismo literário precisa estar ancorado em fatos; precisa da apuração profunda, do chamado "mergulho no tema", uma das suas características mais importantes; e é narrado em perspectiva pessoal, que pode ou não usar recursos de ficção.

Qual a situação do jornalismo literário hoje? Há no Brasil quem se dedique a ele?

M.S. ? Com a crise da imprensa, o jornalismo literário, embora ainda ativo na tradição do jornalismo anglo-saxão, sofreu um refluxo de qualidade. No Brasil, ele acabou tendo uma espécie de "desvio" de veículo: é mais praticado em formato de livro no que nas páginas de jornal ou revista.

A Companhia das Letras e o iG também estão promovendo o concurso "Jornalismo Literário". Como surgiu a idéia e qual o objetivo do concurso?

M.S. ? A idéia veio da Companhia das Letras, que já havia feito um concurso com outro tema, mas com um formato parecido. Nos pareceu útil tentar revalorizar o texto jornalístico não só nos livros editados, mas também no estímulo à produção desse tipo de escrita fronteiriça.

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