Sábado, 22 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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Pepe Escobar

Por lgarcia em 03/10/2001 na edição 141

GUERRA NA MÍDIA

"Imprensa escolhe hotel de luxo para quartel-general", copyright Diário de S. Paulo, 30/09/01

"O lobby do Hotel Marriott na capital paquistanesa já foi definido para este correspondente, por uma nova-iorquina ávida por emoções fortes, como ?the only game in town?. É mesmo o único jogo da cidade – onde se atravanca toda a mídia global à espera da guerra entre o Ocidente e os talibãs. O Marriott é a versão Islã-soft do Rex e do Caravelle, onde os correspondentes americanos no Vietnã enchiam a lata de dry martini, contemplando ao longe a fumaça provocada pelos bombardeios de napalm.

O circo não é privilégio do Marriott. De acordo com o carrossel de rumores, há entre 200 e 400 jornalistas ilhados em Dushanbe, a capital do Tadjiquistão, já que a Aliança do Norte, inimiga da milícia Talibã, não tem helicópteros suficientes para transportá-los ao Norte do Afeganistão ou ao vale do Panjshir. É absolutamente impossível atravessar por terra, porque 20 mil russos patrulham a fronteira tadjique-afegã – e não estão aceitando rublos ou vodca de estranhos.

As fronteiras paquistanesas com o Afeganistão estão fechadas, o que não quer dizer muita coisa para quem é pashtun: os passaportes, em seu caso, são a barba e a ?burqa?. Dezenas de milhares continuam atravessando e atravancando ainda mais os campos de refugiados. Para quem é alto, loiro e de olhos claros, a bandeira é absolutamente vermelha: John Simpson da BBC pagou um punhado de dólares para atravessar além do passo de Khyber. Foi preso pelos talibãs a 150 metros da fronteira, quando já sacava o telefone-satélite.

Desastre humanitário

Há, ainda, pelo menos 300 jornalistas em Peshawar, no Paquistão, circulando pelos mesmos esquálidos campos de refugiados e alertando em vão a comunidade internacional para o iminente desastre humanitário. E outros 300 repórteres apinhando o lobby do Marriott, cobrindo a guerra com ar-condicionado.

Entre o circo, há quem consiga ficar totalmente desinformado até mesmo no business center do Marriott – como um repórter de rádio francês que não conseguia entender como os talibãs queimaram a deserta embaixada americana em Cabul. Turcos são muito bem informados, especialmente sobre as ligações perigosas de seu governo com gângsteres na linha do comandante uzbeque Dostum. Cinco chineses inescrutáveis só andam em grupo. Jack, um americano do jornal USA Today, lembra com saudades da dolce vita no Rio de Janeiro.

Mas todos estão aqui para uma guerra. Não dá para alugar um helicóptero em Peshawar: seria abatido por um dos 80 Stingers talibãs. Não dá para fretar um charter da ONU: a máquina burocrática de Kofi Annan não deixa. Não dá para atravessar de ?burqa? pelas montanhas do Hindu Kush: há rumores de aumento da bandidagem. Não dá nem mesmo para ligar para Dushanbe: não tem linha.

Os comandos americanos e britânicos avançam rapidamente com a Aliança do Norte. Uma fonte da inteligência paquistanesa confirma que a cidade de Cabul pode cair em uma semana. Ninguém estará lá para ver o que for: só o pessoal da rede árabe Al-Jazeera. A guerra nem começou, mas já existe um vencedor: o business center do Hotel Marriott."

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"Correspondente da CNN usa sapatos de US$ 400 e brincos de ouro", copyright Diário de S. Paulo, 30/09/01

"Christiane Amanpour está fumegando em frente a seu produtor no lobby do Marriott. A mais bem paga repórter do planeta – US$ 1 milhão anuais, além de imensuráveis bônus – veio ao Paquistão atrás de uma guerra, fazendo jus à sua reputação de renomado abutre entre o aviário da mídia global. Mas a correspondente-chefe da emissora americana CNN, por enquanto, só encontrou um teto solar: o roof do Marriot, onde miríades de cadeias de tevê montaram seus estúdios. A guerra está muito mais perto dos anônimos correspondentes da BBC e CNN que conseguiram, a peso de ouro, entrar no Norte do vizinho Afeganistão: uma inglesinha assustada e um americano.

Se Christiane for à guerra – mesmo de limusine -, correrá o risco de desmanchar o look de jaqueta safári impecavelmente passada a ferro, maquiagem Lancôme, brincos de ouro, calça Gucci preta e mocassins Todds, que custam US$ 400. Não, Christiane não verá o suor e as lágrimas dos pavorosos campos de refugiados de Jalozai e Nasir Bagh, perto de Peshawar. Tampouco terá de encarar os barbudos de pés sujos empunhando fuzis e metralhadoras da grife russa Kalashnikov nas áreas tribais.

O que vai acontecer dentro das montanhas e desertos do Afeganistão já é conhecido desde já como A Guerra do Golfo, O Retorno: ou seja, tudo será virtual. Com uma diferença: sai a CNN, entra em cena a Al-Jazeera, cadeia de satélite baseada em Catar. É o único veículo de mídia autorizado a atuar nos 90% do Afeganistão controlado pelos talibãs. Detém o monopólio da cobertura, e ainda por cima do ponto de vista árabe, islâmico e terceiro-mundista. Um jornalista paquistanês já sugeriu: além de árabe, passem a transmitir em inglês. O sucesso deixará Ted Turner roxo de inveja."

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"O circo da mídia à espera da guerra", copyright O Globo, 30/09/01

"Christiane Amanpour está fumegando em frente a seu produtor no lobby do Marriott. A mais bem paga mulher-tronco do planeta – US$ 1 milhão anuais mais imensuráveis bônus – veio aqui atrás de uma guerra, mas a correspondente-chefe da CNN por enquanto só achou um teto solar: o telhado do Marriott, onde miríades de cadeias de TV montaram seus estúdios paquistaneses. A guerra está muito mais perto dos anônimos correspondentes da BBC da e CNN que conseguiram entrar a peso de ouro no norte do Afeganistão: uma inglesinha assustada e um americano Terra de Marlboro.

O lobby do Marriott já foi definido por uma nova-iorquina ávida de emoções fortes como the only game in town . É mesmo o único jogo da cidade, onde se atravanca toda a mídia global à espera da guerra. O Marriott é a versão Islã-soft do Rex e do Caravelle durante a Guerra do Vietnã, onde os correspondentes americanos enchiam a lata de dry Martini contemplando ao longe as nuvens de napalm.

Sai a CNN, entra a Al-Jazeera, com base em Qatar

O que vai acontecer nas montanhas e nos desertos do Afeganistão já é conhecido como ?A Guerra do Golfo, O Retorno?: ou seja, tudo será virtual. Com uma diferença: sai a CNN, entra a Al-Jazeera, cadeia de satélite baseada em Qatar. A Al-Jazeera é o único veículo de mídia autorizado dentro dos 90% do Afeganistão controlados pelos talibãs. Detém o monopólio da cobertura, e ainda por cima do ponto de vista árabe, islâmico e terceiro-mundista. Um jornalista paquistanês já sugeriu: além de árabe, passem a transmitir em inglês. O sucesso deixará a CNN roxa de inveja.

O circo não é privilégio do Marriott. De acordo com o carrossel de rumores, há entre 200 e 400 jornalistas ilhados em Dushanbe, capital do Tadjiquistão: a Aliança do Norte não tem helicópteros suficientes para transportá-los ao norte do Afeganistão ou ao Vale do Panjshir. É impossível atravessar por terra porque 20 mil russos patrulham a fronteira tadjique-afegã, e não estão aceitando rublos ou vodca de estranhos.

As fronteiras paquistanesas com o Afeganistão estão fechadas, o que não quer dizer muita coisa para quem é pushtu: os passaportes, em seu caso, são a barba e a burka (roupa das afegãs). Dezenas de milhares continuam atravessando e atravancando ainda mais os campos de refugiados. Para quem é alto, louro e de olhos claros, a bandeira é absolutamente vermelha: John Simpson, da BBC, pagou um punhado de dólares para atravessar além do Passo Khyber. Foi preso pelos talibãs a 150 metros da fronteira, quando já sacava excitado seu telefone-satélite.

Cobrindo a guerra com ar-condicionado e perplexos

Há pelo menos 300 jornalistas em Peshawar, circulando pelos mesmos esquálidos campos de refugiados e alertando em vão a comunidade internacional para o iminente desastre humanitário. E há outros 300 jornalistas apinhando o lobby do Marriott, cobrindo a guerra com ar-condicionado e, em essência, perplexos.

Não é fácil aprender em dois dias quem é pushtu e quem é tadjique, quem é deobandi e quem é árabe-afegão. Jornalistas paquistaneses rolam de rir com histórias como a do repórter de uma TV européia que um minuto antes de entrar no ar perguntou: ?Mas quem é mesmo o presidente do Paquistão??

Quem acompanha ou supõe acompanhar o fio de Ariadne que se desenrola entre Islamabad, as áreas tribais, Cabul, Kandahar e o norte do Afeganistão é a comunidade de inteligência. Mas esta é, por natureza, invisível."

    
    
                     
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