Sexta-feira, 17 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > ***

Pequenas descobertas para um grande enredo

Por lgarcia em 06/01/2004 na edição 258

ENTREVISTA / FERNANDO MOLICA

Paulo Lima (*)


O homem que morreu três vezes, uma reportagem sobre o "Chacal brasileiro", de Fernando Molica, 368 pp., Editora Record, Rio de Janeiro, 2003; R$ 38


Em 1998, o repórter Fernando Molica preparava matéria para o Fantástico, da TV Globo, sobre um filme que registrava o embarque, para o Chile, de 70 banidos pelo regime militar, em janeiro de 1971. Ao ver o filme, um dos convidados, Jaime Cardoso, personagem daquele período, identificou um dos banidos, exclamando "olha lá o Expedito". Molica quis saber quem era o tal Expedito. A partir dessa descoberta inicial, Fernando Molica passou a apurar a história de Antonio Expedito Carvalho Perera, advogado gaúcho que acabaria por se envolver com a luta armada no período da ditadura e, em seguida, com o terrorismo internacional.

Molica foi atraído pela informação de que Perera estivera envolvido em atentados internacionais que estimularam o sensacionalismo da imprensa da época, a ponto de ser rotulado de "Chacal brasileiro", alusão ao famoso terrorista venezuelano Carlos, o Chacal, notabilizado no romance O dia do Chacal (1973), de Frederick Forsyth, e em duas versões cinematográficas (O dia do chacal, de Fred Zinnemann, 1963, e O chacal, de Michael Caton-Jones, 1997).

Uma sucessão de pequenas descobertas e acasos impulsionou Molica na direção de um enredo maior, que acabou por revelar não um personagem, mas três, todos vividos por Perera em diferentes momentos da vida. O resultado dessa aventura é agora contado no livro recém-lançado O homem que morreu três vezes (Ed. Record), uma reportagem que envolve o leitor em suspense da primeira à última página, tamanha a carga de emoção e mistério dessa história fascinante.

"A decisão de escrever o livro surgiu ainda na Itália, no primeiro semestre de 2002, quando viajei para fazer a segunda reportagem para a TV", conta Fernando Molica. "Lá, vi que seria uma maldade não detalhar a saga do Perera." Em terras italianas, Perera entrara na pele do psicólogo Paulo Parra, naquela que seria a última persona da saga, apurada com obsessão e persistência digna dos grandes repórteres.

Repórter especial da TV Globo, Fernando Molica é diretor da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). Em 2002, lançou o seu primeiro livro, o romance Notícias do Mirandão, também pela Record. Jornalista formado pela UFRJ, já trabalhou no Globo e nas sucursais cariocas da Folha de S.Paulo e do Estado de S. Paulo. Nesta entrevista, concedida por e-mail, Molica fala entre outros assuntos do processo de elaboração da reportagem sobre Antonio Expedito Carvalho Perera e do seu fascínio pelo personagem.

***

Antes de O homem que morreu três vezes, você já havia escrito o livro Notícias do Mirandão. Em que sentido aquele primeiro livro o preparou para escrever a história de Antonio Expedito Carvalho Perera?

Fernando Molica ? Acho que apesar de Notícias do Mirandão ser um romance, o fato de ter escrito um primeiro livro ajudou na estruturação do segundo, na definição de uma linha narrativa, na busca de uma maneira supostamente interessante para contar a história. Espero que tenha ajudado.

Como você delineou a estrutura desse novo trabalho? Você escrevia à medida que ia se inteirando das informações, ou sentou para elaborá-lo ao se dar conta de que já tinha a história nas mãos?

F.M. ? O método foi meio esquisito. Inicialmente, no segundo semestre de 2002, escrevi um esboço do livro com base nas informações que havia apurado para fazer as duas reportagens para o Fantástico. Havia, claro, muitas informações inéditas, que não consegui, por questão de tempo, incluir nas matérias. Por sorte, eu havia guardado as fitas brutas da primeira matéria. Depois de escrever esta primeira versão, fiz uma nova rodada de entrevistas e uma nova busca de documentos. Inicialmente, achei que o trabalho desta segunda fase seria pequeno, mas acabou se tornando imenso, as informações que foram sendo coletadas me obrigaram a, praticamente, reescrever o texto. A decisão de escrever o livro surgiu ainda na Itália, no primeiro semestre de 2002, quando viajei para fazer a segunda reportagem para a TV. Lá, vi que seria uma maldade não detalhar a saga do Perera.

Embora se trate de uma grande reportagem, o livro pode ser lido como um bom romance cujo thrilling prende a atenção do leitor da primeira à última página. Sabemos que o flerte do jornalismo com a literatura foi exercitado à exaustão pelo chamado new journalism. Em sua opinião, até que ponto o jornalismo pode se valer das técnicas literárias, e vice-versa?

F.M. ? Acho muito difícil fazer uma separação estilística, do tipo isto aqui é jornalismo, aquilo é literatura. O intercâmbio de técnicas, de recursos, é inevitável ? no livro, chego até a levantar uma comparação entre a estrutura de uma reportagem para a TV com a normalmente usada na ficção. Creio que o mais importante é a definição do que se quer ? e, a partir daí, trabalhar com os recursos e os limites de cada projeto. Quando escrevi um romance procurei, claro, dar verossimilhança à história. O tempo todo me perguntava se aquela história poderia ser publicada em jornal caso tivesse acontecido. No romance, a vantagem é que podemos usar recursos descritivos para se criar esta sensação de verossimilhança. No caso de O homem que morreu três vezes, minha preocupação era provar que a história do Perera, apesar de ser quase inacreditável, tinha ocorrido, era tudo verdade. Neste caso, o texto jornalístico se transforma em documento, em referência, não dá para falsear dados, inventar situações e climas. Tenho que ser absolutamente fiel ao que apurei ? eventuais erros e deslizes não são, portanto, propositais. Fiz questão de não romancear nada. Não inventei nenhum diálogo, procurei citar as fontes de todas as informações. Claro que procurei dar um ritmo agradável à narrativa, gerar algum tipo de expectativa no leitor, mas, em momento algum abri mão do compromisso jornalístico e documental do trabalho.

Na apuração para escrever o romance não-ficção A sangue frio, Truman Capote acabou por se envolver emocionalmente com os criminosos da história. Até que ponto você se deixou impressionar pelo personagem Antonio Perera?

F.M. ? A relação emocional com o personagem é inevitável. Independentemente de um julgamento político e moral do personagem ? do qual procurei fugir, cada um que tome sua decisão ?, sou obrigado a admitir que fiquei fascinado pelo sujeito. O cara é um personagem maravilhoso, por suas contradições, por sua ousadia, e mesmo por sua cara-de-pau. Isto fica explícito no último capítulo do livro.

O livro se encerra com a constatação da morte do advogado Perera em sua terceira vida na pele do psicólogo Paulo Parra. O que você sentiu ao chegar a essa conclusão? Acreditou de fato que ele estava morto? Gostaria de ter continuado com a história?

F.M. ? Claro que, como jornalista, preferiria que ele estivesse vivo. Adoraria entrevistá-lo. Mas a morte dele está explícita em documentos e em depoimentos. Está, portanto, comprovada. Mas admito que a trajetória do personagem, sua chamada vida pregressa, permita especulações sobre o fato de ele ter morrido ou não. Mas são especulações, não há nada que, documentalmente, permita essa possibilidade. Se há, não descobri. Quanto a continuar com o caso: acho que nunca vou me livrar do Perera, espero ainda apurar mais histórias sobre ele. Talvez o livro ajude nessa tarefa.

Aqueles momentos dos anos de chumbo no Brasil foram pródigos em personagens (muitos inclusive ainda estão aí para contar a história) que viveram com toda paixão a causa revolucionária de uma forma, digamos, ortodoxa. Você acredita que Perera foi único em sua trajetória, ou o período ainda poderia revelar tipos tão interessantes quanto ele?

F.M. ? Até prova em contrário, o Perera foi o único brasileiro a se envolver de forma direta e contínua com o terrorismo internacional dos anos 60 e 70. Já ouvi falar de outros casos mais ou menos semelhantes, ainda que menos rocambolescos, mas não obtive qualquer pista mais razoável. O período foi muito radical, de muitas paixões. Muitas loucuras foram feitas, mas muitas feridas ? principalmente na Europa ? continuam abertas, o que dificulta a pesquisa histórica.

Você teve algum tipo de feedback por parte das pessoas entrevistadas no livro após a publicação, dos parentes de Perera, por exemplo, em especial a filha Cristina e a ex-mulher Nazareth?

F.M. ? Até agora, o retorno foi muito positivo, tanto de ex-amigos (e mesmo adversários) do Perera, quanto de pessoas como a Nazareth e a Cristina. Não sei se elas conseguiram terminar a leitura ? ambas me disseram, há mais de um mês, que estavam com um certo medo de ler o livro que, afinal, mexe com questões pessoais muito delicadas.

Uma das críticas feitas ao livro refere-se ao seu, digamos, making of, ao fato de você ter entremeado a narrativa com as etapas do processo de apuração. Como você observa essas críticas?

F.M. ? Esta característica do livro foi vista com reservas em algumas resenhas e elogiada em outras. Achei que seria interessante contar bastidores da apuração, não vi como separar uma história da outra. Mas, claro, o que sustenta o livro é a história do Perera, ele é o objeto de todo o trabalho. A análise de um livro tem muito de subjetividade, é inevitável. Cada um lê o livro de um jeito. Acho a discussão muito estimulante, é fundamental para o autor.

Você migrou, por assim dizer, do jornalismo escrito para a linguagem da TV. Como se deu essa adaptação?

F.M. ? Foi difícil em alguns aspectos, interessantíssima em outros. A TV obriga a um trabalho mais relacionado com as imagens e com personagens. Creio ter aprendido muito ? e espero não ter desaprendido nada… Acho que mesmo no livro há algumas passagens em que uso recursos tipicamente televisivos, como uma espécie de colagem de pequenos depoimentos, de "sonoras", no jargão da TV.

Como você analisa a perda de fôlego da grande reportagem no jornalismo praticado hoje no Brasil, o encolhimento dos espaços e, por conseqüência, do próprio texto jornalístico?

F.M. ? Há poucas semanas saiu na Folha de S.Paulo uma resenha muito interessante sobre o novo livro [Queda Livre, Companhia das Letras] do diretor de redação do jornal, o Otavio Frias Filho. O livro é composto de grandes reportagens ou ensaios, narrados na primeira pessoa. Pelo menos duas das reportagens haviam sido publicadas antes numa revista mensal. Mas o resenhista ? se não me engano, citando o próprio Otavio ? admite que este tipo de reportagem/ensaio não teria espaço no jornal dirigido pelo autor dos textos. Não tem muito jeito: o papel é caro, o tempo do leitor de jornal é curto, o mercado atravessa uma bruta crise.

No Brasil, verificou-se um boom do livro-reportagem nos últimos anos. Você acredita que essa pode ser a saída para o aprofundamento da informação e para o desenvolvimento de um trabalho com menos amarras, por parte daqueles jornalistas mais talentosos?

F.M. ? Talvez seja uma das saídas. Como foi dito anteriormente, os espaços são cada vez menores e a obsessão por uma informação mais exata e detalhada é, cada vez, maior. O problema é que reportagens de maior fôlego necessitam de mais tempo e de mais dinheiro. E existe aí a dificuldade para conciliar estas necessidades com os orçamentos limitados do mercado editorial brasileiro.

Você já tem planos para um novo livro?

F.M. ? Tenho algumas idéias e correspondentes angústias, mas nada ainda definitivo. Confesso que estou com muita vontade de voltar à ficção.

(*) Estudante de Jornalismo da Universidade Tiradentes (SE) e editor do Balaio de Notícias <http://www.sergipe.com/balaiodenoticias>

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