Terça-feira, 26 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº959

PRIMEIRAS EDIçõES > **

Pequeninas luzes no fim do túnel

Por lgarcia em 11/12/2002 na edição 202

CRIANÇA NA MÍDIA

Marinilda Carvalho


** "Gostaria
de assistir a mais programas informativos, que falassem dos jovens, que
falassem sobre drogas, violência. Assim, o adolescente não
precisaria entrar nesse mundo para saber como é." (Débora
Cristina Mateus dos Santos)

** "Você
liga a televisão, hoje, e só vê baixaria, quase não
vê algo que preste. Tem que mudar tudo. Gosto de ver programas educativos,
informativos, que falem a linguagem dos jovens de hoje." (Loruana Martins
Mendes)

** "Gostaria
de assistir a programas que influam na educação, em que as
crianças possam se interessar pelo esporte, que é uma coisa
muito boa, programas que passem informações sobre livros,
que incentivem a criança a ler." (Priscila de Sena Miranda)

** "Gostaria
de um programa voltado para os jovens, que aborde naturalmente assuntos
como as drogas, violência, prostituição, menstruação,
porque muitos pais não conversam com seus filhos sobre esses assuntos
e eles ficam meio desorientados. Programas com os caras falando palavras
obscenas, ou que ficam brigando, aquele show de baixaria, eu não
gosto muito, não." (Thatielly Gomes França)

** "Para
mim, programa de qualidade seria aquele que não exibe baixaria e
que mostre para o adolescente o que significa o consumo de drogas, mostre
para eles assim, como é que é, porque tem muita gente que
usa e não sabe o que está usando." (Salem Milena da Costa)

** "[A
televisão tem] obrigação de ensinar a gente a prestar
atenção nas coisas. Por exemplo, um canal de trânsito
ensinaria que a gente pode atravessar na faixa, que não se deve atravessar
fora da faixa, que tem que prestar atenção no semáforo
etc.." (Francisco Ivanildo de Oliveira)

** "Gostaria
de assistir a programas com mais informações para jovens e
também para os pais aprenderem a lidar melhor com os filhos."
(Thamara Lorena da Silva Amaral)

** "Queria
ver mais coisas sobre a natureza e sobre a escola também, um programa
que ajudasse quando a gente tivesse pesquisa, programas com menos violência,
programas com menos fofoca também." (Camilla da Costa Silva)

** "Eu
vejo [telejornal], porque o meu pai sempre vê jornal, não deixa
a gente ver outra coisa. Eu preferiria ver filme de ação (…)
porque eu fico muito concentrada e acho muito maneiro." (Ana Paula
Gonçalves dos Santos)

** "Em
vez de eles ficarem perdendo tempo com essas coisas [baixaria, violência],
deviam passar mais programas educativos, os desenhos animados também.
Programas que ensinem mais, para que as crianças de hoje em dia tenham
uma cabeça melhor." (Jaqueline da Silva Torres)

** "Gostaria
de ver programas educativos para os adolescentes e para as crianças,
que tenham jogos e esportes, incentivem os jovens a estudar, que expliquem
para os jovens como são as drogas. E expliquem para os pais também,
porque muitos pais não têm responsabilidade para criar seus
filhos, e um programa ajudaria." (Kelly Cristina Pontes Pinheiro)


Comparados a alguns e-mails que o Observatório da Imprensa recebe
de estudantes de Jornalismo de todo o país, os depoimentos acima renovam
as esperanças no futuro, como pequeninas luzes no fim do túnel.
São de alunos de ensino fundamental da Escola Municipal Silveira Sampaio,
em Curicica (Zona Oeste do Rio), ou da Escola Municipal Arthur da Costa e Silva,
em Botafogo (na Zona Sul), e mostram uma surpreendente visão crítica
da televisão. Essas vozes foram ouvidas ao longo da semana passada, como
parte da programação especial da MultiRio na TV pelo Dia Internacional
da Criança na Mídia, celebrado em 8 de dezembro.

A MultiRio é a empresa de recursos multimídia da prefeitura do
Rio ? recursos esses voltados prioritariamente para as escolas, em apoio aos
Pólos de Educação pelo Trabalho e da Divisão de
Mídia e Educação. Nesta programação especial
sobre a mídia os alunos foram roteiristas, repórteres, atores,
diretores e editores dos vídeos que realizaram, sobre temas escolhidos
por eles mesmos. Claro, com ajuda de professores e técnicos, mas as crianças
é que puseram a mão na massa. Um dos programas da semana passada
mostrou o making off desse projeto e trechos dos vídeos de cada escola.
Foi emocionante assistir: crianças fazendo filmes de quatro minutos ?
ótimos! ? como gostariam de ver na TV. Nos jornais do dia seguinte, nem
uma palavra. Por quê?

Interesse é quantitativo

"A grande imprensa se recusa a ver a escola fora do foco da marginalidade",
resume o escritor e diretor João Alegria, que dirige dois programas da
empresa, Abrindo o Verbo e Nós da Escola. "Já
fizemos matérias sobre os projetos, inscrevemos em prêmios, mas
nunca vencemos, porque falam bem da escola", diz a jornalista Ana Lagôa,
assessora da MultiRio. "Tudo que está em nosso sítio se refere
às escolas públicas, que são 1.030, mas a imprensa só
dá notícia da umazinha que deu problema."

As páginas do sítio na internet [ver endereço
abaixo
] estimulam o professor a criar projetos multimídia de todo
tipo ? os equipamentos estão à disposição dos educadores
?, mostrando a importância de se produzir mídia na sala de aula
como forma de desmistificar a própria mídia e sua enorme influência
na sociedade. Tudo o que já foi realizado pelas crianças está
lá: fotografias, vídeos, programas de rádio, jornais, animações.
"É ouro em pó", diz Ana Lagôa. Não é
notícia que crianças da escola pública tenham acesso a
equipamentos normalmente disponíveis na rica escola privada? Um comentário
cativante partiu do menino que editou as imagens: "Quando a gente senta
na frente da ilha de edição é que vê como é
tudo complicado."

O papel anônimo dos professores também emociona: na Costa e Silva,
é o professor Artur que bota a moçada para filmar. Quando ainda
não havia câmeras comprou uma com seu próprio dinheiro.
A professora Luciene fez um sítio todo em PowerPoint, porque não
tinha os programas de edição de websites. A professora Carmem,
da Silveira Sampaio, que ensina Língua Portuguesa, usa a câmera
de vídeo em suas aulas. O sino toca para o fim do turno, e a criançada
permanece em classe muito além da hora, deslumbrada, aprendendo. Graças
ao trabalho desses batalhadores, que tiram leite de pedra, para essas crianças
a inserção no mundo adulto será provavelmente mais fácil,
menos traumática. Isso não dá notícia boa de jornal?

Aparentemente, não. Esses e outros temas foram discutidos em novembro,
no Rio, em seminário paralelo à Pré-Conferência sobre
a Cúpula Mundial de Mídia para Crianças e Adolescentes,
que a cidade vai sediar em abril de 2004. A imprensa praticamente ignorou o
evento. Será que pais e mães não se interessariam em ler
nos jornais e ver na TV notícias sobre as atividades de seus filhos na
escola, ou debates sobre o uso/abuso da criança pela publicidade? ?A
visão da mídia não é qualitativa, e sim quantitativa,
o que vale é o tamanho da audiência?, diz João Alegria.

O jeito é crescer depressa

Pesquisa da Agência de Notícias dos Direitos da Infância
(Andi) revelou que em 1999 o número de matérias sobre crianças
e adolescentes cresceu 83,52% em relação a 1998 ? mas apenas 30,83%
do material produzido pela imprensa contribuiu de alguma forma para a busca
de soluções dos problemas. Ou seja, a massa de matérias
não aponta solução alguma. Os dados podem ser antigos,
mas certamente ainda retratam a postura da nossa mídia em relação
à criança.

"A criança não é atendida, não está
satisfeita com o conteúdo que recebe, mas isso não comove a TV,
porque ela parte do pressuposto de que o espectador é passivo",
Diz João Alegria, que conhece bem a incrível capacidade da meninada
para se exprimir artisticamente. "Os conteúdos são desprovidos
de identidade cultural", afirma. "Então, é difícil
a criança se ver neles." Ele conta que colheu depoimentos impressionantes
de crianças num projeto de educação infantil promovido
pelo Sesc-Tijuca, no Rio: os pequenos se queixaram, por exemplo, do Programa
do Ratinho
. "Alguns viram e não conseguiram esquecer, ficaram
chocados, tinham pesadelos à noite."

Fazer a criança reconhecer a si própria como produtora de mídia
potencial é mais que um trabalho, é um dever da escola. A garotada
quer e precisa se reconhecer nos programas, como mostram os depoimentos no alto
desta página. Quer ligar a televisão para saber mais sobre seu
mundo, e espera deste veículo não só entretenimento, como
também orientação. Se alguma coisa os projetos da MultiRio
vêm provando é que a criança e o adolescente não
são passivos: basta verificar o acervo dos alunos disponível no
sítio. Tudo ouro em pó.

É difícil entender por que esse ouro não brilha na imprensa.
Seria porque a prefeitura do Rio é do PFL? Mas prefeituras do PT também
se queixam de que parecem inexistir para as mídias locais. A conclusão
possível é que os agentes da mídia não estão
qualificados para detectar metais nobres. À criança, que não
tem partido, resta crescer depressa para ocupar o lugar deles todos.

MultiRio na TV

Net Rio, canal 3, e Band-Rio (ver horários no sítio)

MultiRio na web

< http://www.multirio.rj.gov.br>

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