Terça-feira, 12 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº969

PRIMEIRAS EDIçõES > EM QUESTÃO

Pequeno grande irmão

Por lgarcia em 28/10/2003 na edição 248

EM QUESTÃO

Claudio Weber Abramo (*)

Fernando Rodrigues, da Folha de S. Paulo, informa (20/10/2003) que o boletim Em questão, editado pela Secretaria de Comunicação e Gestão Estratégica da Presidência da República, é distribuído para 50 mil pessoas via e-mail. Uma circulação considerável.

À primeira vista, nada demais. O e-mail é um veículo muito mais barato do que a televisão. À segunda vista, porém, o assunto dá margem a preocupações.

O produto é um boletim que se pretende informativo. Seu caráter é o de uma newsletter. Apresenta "notícias", isto é, informação elaborada e apresentada de forma a induzir no leitor a sensação de que se trata de dados objetivamente apurados. A função que exerce faz com que o produto recaia sob a categoria "imprensa". Sendo imprensa, esperar-se-ia do Em questão que obedecesse a requisitos básicos dessa atividade ? talvez nem todos eles, mas ao menos alguns.

Minimamente, seria exigível do Em questão que ouvisse o "outro lado" antes de divulgar informações que impliquem terceiros. E, se terceiros detectam imprecisões no material distribuído, o boletim precisaria assinalar o fato ? e responder, justificar-se etc.

Naturalmente, nada disso acontece, e sei disso por experiência própria. No dia 7 de outubro, a Transparência Internacional divulgou seu "Índice de Percepções de Corrupção de 2003". Nos dias subseqüentes, o Em questão por duas vezes fez alusão à Transparência Brasil (da qual sou secretário-geral), ambas com imprecisões e implicações insinuadas, daquele jeito de quem diz sem dizer. Em ambas as vezes, enviei retificações à redação. Foi como falar com a proverbial parede.

Isso é antijornalístico, e típico de iniciativas mercadológicas. As pessoas que fazem esse boletim, as quais são jornalistas, fariam bem caso se dessem conta de que agem como reclamistas. Seja como for, o conforto íntimo de quem escreve o boletim interessa pouco, ou nada. Se o Em questão (e outros, por exemplo o boletim com características semelhantes, emitido pela Prefeitura de São Paulo) pretende ser boletim informativo, então seus processos de produção deveriam obedecer a padrões profissionais mínimos.

O Em questão é pago com dinheiro do Estado, e portanto não poderia ser usado como instrumento de propaganda de governo. Mascarar um produto publicitário na forma de boletim informativo é contrafação, destinada a mistificar o leitor desavisado.

(*) Secretário-geral da Transparência
Brasil <
http://www.transparencia.org.br>

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