Sexta-feira, 24 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > 5. Tamanho da amostra

Pequeno manual para enfrentar a pesquisite

Por lgarcia em 01/01/2003 na edição 205

NÚMERO-NOTÍCIA

Antonio Fernando Beraldo (*)

Tudo o que você gostaria de conhecer sobre pesquisas eleitorais
e morre de medo de ficar sabendo

Por acaso o distinto leitor sente-se aturdido com a avalanche de pesquisas eleitorais já em plena e prematura floração, ainda tão longe de outubro? Confunde-se com as cifras e com as "análises" feitas a cada divulgação das "prévias", com aquela desconfortante sensação que alguém está lhe fazendo de bobo?

Pois bem, meu prezado, seus problemas apenas começaram! O fenômeno da pesquisite é igual malária ? vai e volta. E neste ano vem com ânimo redobrado, assim como a dengue e as viagens do FHC.

Este singelo manual tem o intuito de minimizar o seu sofrimento. Mas, antes de prosseguir, abuso um pouco da sua paciência, com um ligeiro glossário de termos técnicos:

1. Amostra e população ? Amostra é um conjunto de tamanho reduzido que é retirado de uma população, seguindo certas regras chamadas técnicas de amostragem. Se estas regras forem seguidas adequadamente, é possível supor que a amostra represente, aproximadamente, o que acontece na população. No caso de uma pesquisa de intenção de voto, a População é o contingente de eleitores do país ? cento e tantos milhões de otários, digo, indivíduos. A amostra é um grupo de, por exemplo, 900 eleitores, que foram sorteados ou escolhidos de forma a reproduzir o resultado das eleições, se estas ocorressem hoje. O tamanho "ótimo" dessa amostra, acredite se quiser, não depende do tamanho da população e sim de dois parâmetros estatísticos: a margem de erro e o nível de confiança (veja em seguida).

2. Intenção de voto, respostas espontâneas e respostas estimuladas ? Numa pesquisa eleitoral pergunta-se, entre outras coisas, "em qual candidato o sr(a). pretende votar nas próximas eleições?", ou algo como "se a eleição fosse hoje, em quem o sr(a). votaria?". Isto é o que se chama intenção de voto, e se o pesquisador apresenta ao pesquisando (perdão, senhoras) uma relação dos candidatos a presidente, a resposta do pesquisando é dita "estimulada". Se o pesquisador, após fazer a pergunta, fica ali parado com aquele semblante ansioso de jogador de sinuca, e não diz mais nada, trata-se de uma pesquisa com resposta "espontânea", ou seja, você conta para ele quem você acha que fará menos estrago neste nosso sofrido país.

3. Margem de erro ? Foi dito que uma amostra representa aproximadamente (e nunca exatamente) uma população. A medida deste "aproximadamente" é a chamada margem de erro, e é lido assim: se uma pesquisa tem uma margem de erro de 2% e o Exmo. Sr. candidato José das Couves teve 25% de intenção de voto na amostra coletada, podemos dizer que, naquele instante, na população, ele terá entre 23% e 27% de votos (25% menos 2% e 25% mais 2%).

4. Nível de confiança ? As pesquisas são feitas com um parâmetro chamado nível de confiança, geralmente de 95%. Este 95% querem dizer o seguinte: se realizarmos uma outra pesquisa, com uma amostra do mesmo tamanho, nas mesmas datas e locais e com o mesmo questionário, há uma probabilidade de 95% de que os resultados sejam os mesmos (e uma probabilidade de 5%, é claro, de que tudo seja uma vasta bobagem).

5. Tamanho da amostra ? É o número de pessoas que deve ser importunado, quer dizer, consultado. Depende da margem de erro e do nível de confiança. Utilizando a técnica de amostragem aleatória, para um nível de confiança de 95% os tamanhos amostrais são: 384 pessoas (margem de erro de 5%), 1.067 pessoas (margem de erro de 3%), 2.401 pessoas (margem de erro de 2%) e impressionantes 9.604 pessoas (margem de erro de 1%). Estes números cabalísticos são calculados, isto é, existe uma fórmula matemática que nos fornece o tamanho da amostra, dados a margem de erro e o nível de confiança. Estes números podem variar, dependendo do tipo de amostragem que é feito.

A mídia que se julga decente deve divulgar, junto com os resultados da pesquisa, o tamanho da amostra, o nível de confiança, a margem de erro e a técnica de amostragem utilizada. Se esta "bula" não vier acompanhando as tabelas e gráficos, passe a ler a coluna de turfe ou o horóscopo, que são bem mais confiáveis.

Agora, as perguntinhas de sempre:

É possível fraudar uma pesquisa de intenção de voto?

Sim! Existem mais maneiras de mascarar o resultado de uma pesquisa do que a coleção de notas de R$ 50 do casal Murad. A mais grosseira delas é provocar uma coisa chamada "viés do entrevistador", que seria formular uma pergunta como "o sr. vai votar no Ciro Gomes ou em qualquer um daqueles outros?"; ou "o sr. não acha que o Brizola fica mais simpático com a faixa presidencial?". Há outras mais sofisticadas, mas o espaço é curto e eu não sou besta de entregar este ouro aqui. Veja a pergunta seguinte.

Os resultados da pesquisas são manipulados?

Podem ser, e muitas vezes são, mas a perversidade da mídia vai muito além disso. Como ninguém mais tem paciência de ler uma tabela, ou um longuíssimo texto explicando números (ó, Jesus), as editorias de arte realizam primorosas "intervenções na ambiência plano-espacial", ou seja, distorcem os gráficos até que a impressão que se tem (e é isto o que importa) é de que o Garotinho "encosta" em Lula, ou que o Itamar tem votação negativa de 125%, ou que a Roseana sofreu uma "queda vertiginosa" de 4%. Manipula-se não o número, mas a imagem do número-notícia. É aí que mora o perigo. E se você, caro amigo, deparar-se com um gráfico em três dimensões, como aquelas "pizzas deitadas" ou uns "tijolinhos em pé" (gráfico de setores e de colunas verticais, respectivamente), vade retro!

A divulgação de resultados influencia nas próximas pesquisas, ou mesmo na própria intenção de voto das pessoas?

Acredito que sim, mas acho que esse fenômeno já foi mais acentuado. A mídia costuma "rotular" os candidatos com o resultado da última pesquisa ? algo como "Lula (24%) fez discurso ontem, contestando as afirmações de Ciro Gomes (6%)". Isto ajuda a vincular um candidato a um percentual. Em alguns estados, como o Maranhão e o Piauí, onde há um analfabeto a cada três sobreviventes, a TV e rádio fazem a festa. Em outros lugares, como Alagoas, torna-se, digamos, insalubre alguém declinar um voto contrário aos figurões de sempre. Mais para o sul, existem outros tipos de votos de cabresto mais modernos, dadas as Globos da vida, as religiões, as paixões inconfessáveis, e por aí vai. Mas isto aqui não é diferente de lugar nenhum. Só muda a língua.

Por que os candidatos aparecem com percentagens diferentes, de acordo com o instituto?

Porque os institutos ditos sérios fazem pesquisas com amostras diferentes, em datas diferentes, com técnicas diferentes. Mesmo fazendo tudo igualzinho, as margens de erro empurram os números para cima ou para baixo. Mas você pode ver que os números convergem, mais ou menos, quando chegamos perto da data das eleições. Uma pesquisa feita em abril, por exemplo, em termos de prognóstico tem a validade de uma conversa entre a vizinha linguaruda e seu (dela) papagaio de estimação. As pessoas estão indecisas e têm coisas muito mais importantes para pensar, como a seleção de futebol ou os seqüestros da semana.

As "análises" feitas pelos especialistas são confiáveis?

Raramente, é melhor não arriscar. Se um desses caras lhe diz que a intenção de voto no Serra subiu para 12% porque o ex-ministro apareceu beijando criancinhas ou abraçando o Romário na TV; ou que o Lula vai cair dos seus 25% porque o MST invadiu a fazenda de FHC & filhos, trata-se de um surto de achismus vulgaris, isto é, puro chute ? a não ser que na pesquisa realizada isto fosse explicitamente perguntado. Os marqueteiros, antigamente chamados de luas pretas, vivem a procurar relações de causa-efeito nos acontecimentos, e os partidos realmente fazem pesquisas próprias para medir o impacto dos factóides. Pouca gente tem acesso a essas informações "de cocheira", que valem ouro. Mas não há como negar que fatos graves influem, e muito, na intenção de voto. Se ficarmos sabendo que Maluf não tinha conta secreta em um banco na tal ilha, mas que simplesmente ele era o dono do banco (e da ilha), vai pegar tão mal que só um absoluto idiota sadomasoquista (e os há) ainda votaria nele.

Alguém confere os resultados das pesquisas?

Sei lá. Os institutos devem comunicar sua metodologia de pesquisa à Justiça Eleitoral, mas não sei se existem técnicos nos tribunal que possam auditá-las. Se não há, deveria haver. Em todo caso, é dito que os partidos vigiam-se uns aos outros; mas, como há desculpa para tudo nessa vida, fica tudo do mesmo jeito. Mesmo institutos com tradição já cometeram mancadas históricas e saíram-se com desculpas até bonitinhas ? lembram-se do tal "voto envergonhado"? E tem também o "voto falso", ou "voto rasteira", que é uma espécie de corolário da teoria da conspiração, que outro dia explico.

Existe esta coisa chamada opinião pública?

Definitivamente, não.

(*) Engenheiro, professor do Departamento de Estatística da Universidade Federal de Juiz de Fora

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