Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Perdemos o referencial

Por lgarcia em 20/10/2000 na edição 100


Vera Silva (*)

Que polêmica terrível gerou a portaria ministerial! É tão grande a confusão que até a Constituição está sendo acusada de censurar a livre expressão. Pode? Um leitor chegou a escrever ao Observatório da Imprensa que "respeitar os valores éticos e sociais da pessoa e da família era um termo ambíguo que cheirava a moralidade obtusa" (Paulo Afonso Graner Fessel, 12/10/2000).

Fiquei a me perguntar por que causaria tanta polêmica indicar a faixa etária mais apropriada à compreensão de um programa ou limitar o aparecimento de temas que a Constituição do país considera não interessar à sociedade. Até escrevi sobre as discussões em torno da permissão da pedofilia e do nazismo na internet mundial ou da campanha contra a proibição da propaganda do cigarro. São temas similares suscitando o mesmo argumento de censura à liberdade de expressão.

Mas, eu não havia percebido ainda que a origem do problema estava na nossa dificuldade de saber o que são valores éticos e sociais da pessoa e da família. Parece que o longo tempo em que estivemos mergulhados na censura ao pensamento, cultivando o pensamento único como a meta da modernidade, afetou nossa percepção daquilo que ocorria na verdade: um extenso treinamento para que aceitássemos que aquilo que a maioria pensa é a verdade, é o que é bom.

A chamada pesquisite, como o jornalista Alberto Dines chama a nossa mania de aferir opiniões sem respaldo estatístico, é um dos indícios disto. Na TV ela é chamada de Índice de Audiência, ou ibope pelos menos entendidos. Altas audiências validam programas e idéias. É claro que também as "boas intenções" dos seus criadores: se tantos aprovam, é bom.

Na política, se a maioria elege, o político é bom, o partido tem respaldo para fazer o que quiser, quando assumir o governo, mesmo que a maioria de seus eleitores seja de pessoas no limiar da miséria, que tiveram seus votos comprados por alguns poucos reais.

Assim, perdemos o referencial ético-moral em que se deveria basear todo o nosso comportamento, a ponto de não sabermos mais o que é isto e temermos que alguém nos aponte o caminho errado. De tanto não pensar, duvidamos de tudo, tememos tudo, desconfiamos de tudo.

Platão esquecido

Mas não é a censura que tememos. Tememos ser obrigados a fazer algo que não queremos, porque alguém que detém o poder assim determinou. E na caminhada rumo ao medo estamos o tempo todo apedrejando o poder, para lembrá-lo que o povo é quem manda na democracia. Estamos o tempo todo acusando de assassinos da liberdade aqueles que pretendem ensinar a moderação às crianças, ou colocar limites à volúpia de liberdade.

A ambigüidade do termo "valores éticos e sociais" reside na nossa ignorância da história da humanidade, pois estes valores nunca mudaram ao longo da história, são sempre os mesmos. Em todos os textos sagrados de todas as religiões e em todos os textos da tradição humana.

Mesmo tendo muito pouco conhecimento sobre a história, desde pequena ouvi falar deles: coragem, prudência, temperança, justiça. O ser humano que busca estes valores alcançará a felicidade. É o que dizem as tradições e é o que se vê.

Mas não podemos confundir liberdade de ação com fazer o que queremos. Quando tememos não poder fazer o que queremos, ainda não ultrapassamos a fase do agir impulsivo da infância. O desejo nos governa e a temperança vai para o espaço. Esta me parece ser a origem da resistência aos limites. Uns pelo medo e outros pelo desejo de poder colocam-se contra uma portaria orientadora para manter as concessões públicas dentro dos valores éticos e sociais.

Será que preferimos que crianças e jovens, de tanto brincar com coisas feias, continuem a aplicá-las mais tarde a tudo que com elas se assemelha, invertendo perversamente o ideal do homem de bem, como propôs Platão?

(*) Psicóloga

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