Quarta-feira, 20 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > TIM LOPES (1951-2002)

Pergunta sem resposta

Por lgarcia em 12/06/2002 na edição 176

TIM LOPES (1951-2002)

Marco Alvarenga (*)

Jornalistas, políticos e instituições colocam seu peso na cobrança de ação no caso Tim Lopes. Apontam toda indignação na direção das autoridades incompetentes. Fazem muito bem. Violência e descaso devem ser tratados com repúdio, sempre. Mas o que não se
viu até agora foi a mesma disposição para questionar o papel do empregador, no caso a Rede Globo.

A imprensa que diariamente denuncia e tenta romper a lei do silêncio nos morros e favelas não pode resignar-se ante outra lei do silêncio. Eis uma história mal contada: "O jornalista fazia uma reportagem numa favela e desapareceu".

Para conseguir o que buscava, Tim Lopes não podia se fazer passar por repórter. Usava uma microcâmera escondida, no coração de um território onde vida é coisa descartável e lei não serve para nada.

Corria risco difícil de ser administrado, e sabia disso. Ele foi nivelado a um policial que investiga denúncias e persegue provas. Todos sabemos o que acontece com um policial flagrado em situação semelhante ? não sabíamos o que aconteceria a um repórter. O tráfico não fez distinção.

O jornalista certamente não foi obrigado a cumprir a pauta. Encarou o trabalho porque se dispôs e tinha coragem para fazê-lo. Também é verdade que investir em matérias investigativas faz parte do trabalho em toda boa redação no mundo. Mas é preciso esclarecer se havia uma rede mínima de proteção montada caso alguma coisa
desse errado ? hipótese, convenhamos, nada desprezível .

Havia um plano B? Será que a dimensão do risco foi corretamente avaliada, ou o repórter
simplesmente pegou o equipamento e saiu como quem vai conferir o movimento nas praias no domingo de sol?

Tentar tratar o caso como um ameaça à liberdade de imprensa é tornar a discussão difusa. A liberdade, não só a de imprensa, anda ameaçada há muito tempo. Assim como na Colômbia existem áreas em que ninguém entra ou dá palpite sem autorização da guerrilha, no Rio existem áreas onde ninguém põe os pés sem ter o passaporte carimbado pelo bandido de plantão ? vale para carteiro, gari, deputado ou jornalista.

O que esta tragédia mostra é que há uma guerra em andamento. Infelizmente ela foi subestimada

Este é um país onde poucas engrenagens funcionam. A justiça é um cágado e a polícia só investiga manchetes de jornais ? o resto vira estatística. A sociedade espera cada vez mais que a imprensa investigue, denuncie e, se possível, condene. A imprensa topou esse papel. O perigo surge quando o poder público, cada vez mais passivo, se acostuma a descruzar os braços só depois de ler o jornal. E a dor de muita gente não sai no jornal.

A pergunta "onde está Tim Lopes?", endereçada na forma de cobrança às autoridades, foi feita pela primeira vez quando a família, aflita, pegou o telefone. "Onde está o Tim?" Do outro lado da linha, a Rede Globo não soube responder.

(*) Jornalista

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