Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > Fato 2

Perpetuação das diferenças

Por lgarcia em 05/10/2000 na edição 99

: Reginaldo Marques da Silva, de 17 anos, leva pauladas até morrer, no dia 24 de setembro de 2000, no Setor Leste do Gama, cidade-satélite de Brasília. Cinco pessoas espancam Reginaldo, que fica com o corpo desfigurado. O estopim foi uma briga envolvendo namoradas de integrantes de grupos rivais.

Os dois fatos são chocantes e refletem a onda de violência na capital federal. Mostram também que a violência não ocorre apenas em áreas consideradas carentes, mas já chegou ao Plano Piloto, reduto da classe média alta de Brasília. João Cláudio, filho de uma família de classe média do Plano Piloto, teve o mesmo destino trágico de Reginaldo, típico representante da população que mora nas cidades-satélites.

Além da chocante violência, é flagrante a diferença de tratamento que a imprensa vem dando aos dois casos. Emissoras de rádio e de TV e jornais deram ampla cobertura ao caso João Cláudio e incentivaram uma ampla campanha contra a violência na cidade. Mas o mesmo não aconteceu com o caso Reginaldo. A cobertura do Correio Braziliense, principal jornal da capital federal, é emblemática.

No dia seguinte ao assassinato de João Cláudio, o Correio dedicou a maior parte do primeiro caderno à cobertura do crime. Além da primeira página, entrevistas, opiniões de especialistas, retrospectiva de crimes semelhantes na cidade, retrato falado dos suspeitos e ampla cobertura fotográfica marcaram a série de reportagens sobre o caso como uma das maiores nos últimos tempos no jornal. E, passados quase dois meses do crime, o jornal continua publicando matérias relacionadas ao caso.

Só conta o público-alvo

O brutal assassinato de Reginaldo, uma morte semelhante à de João Cláudio, mereceu apenas uma discreta matéria do Correio Braziliense, sem chamada de primeira página. E as mesmas emissoras de rádio e de TV que abriram amplo espaço para a cobertura da morte de João Cláudio se contentaram em levar ao ar singelas reportagens e notas sobre o assassinato de Reginaldo.

A cobertura do assassinato de João Cláudio teve como grande mérito comover a população sobre a necessidade de combater a violência. A indignação da imprensa com o bárbaro crime contagiou a população e o resultado foi a deflagração de campanhas contra a criminalidade. Ponto para a imprensa. O problema é que crimes como esse ocorrem freqüentemente na periferia de Brasília, longe da classe média. A imprensa prestaria um grande serviço à sociedade se desse o mesmo tratamento ao que ocorre além-Plano Piloto. Se a idéia é indignar a população para que haja uma reação contra a violência, por que não fazer o mesmo no caso Reginaldo?

Porque para a imprensa a violência só existe e indigna quando atinge seu público-alvo – os poucos que compram jornal e os que despertam maior interesse dos anunciantes. Dizem que a morte iguala todos os homens – ricos e pobres. Mas parece que a mídia insiste em perpetuar as diferenças que caracterizam o mundo dos vivos.

(*) Jornalista

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