Segunda-feira, 25 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES >

Pesquisa no deserto

Por Cláudio Weber Abramo em 27/06/2001 na edição 127

INTERNET BRASILEIRA

Outro dia, resolvi fazer uma bandeira do Brasil.
Não uma nova bandeira, bem entendido, mas o estandarte
pátrio, aquele sobre a qual o arrebol sorri nas alvoradas
do Oiapoque ao Chuí, salve, salve, corrente pra frente
e tal e coisa.

Bandeiras nacionais têm especificações geométricas
e cromáticas estritas. Não se pode simplesmente lascar
num pedaço de papel um círculo, um losango e um retângulo.
É preciso guardar as relações corretas de proporcionalidade
e posicionamento. Da mesma forma, não se pode meramente usar
qualquer verde, qualquer amarelo, qualquer azul. Devem ser o azul
do céu brasileiro, o amarelo das riquezas pátrias,
o verde das matas da brasilidade. Isso é regulado por norma
ou lei.

Contudo, sem saber o número da lei, como consultá-la
e construir meu lábaro?

Animado por tais fervores normativos, fui a campo buscar as tais especificações. A internet seguramente me daria a resposta, bastando para isso apenas alguns cliques.

Encontrei imediatamente uma página do Ministério da Cultura que trazia, em desenho digno de escola primária, o posicionamento exato de todas as estrelas postas no círculo central. Mas nada de especificação. Uma bandeira lá estava, mas com as cores evidentemente erradas.

Toca a procurar mais, usando todos os buscadores usuais e mais os diversos buscadores especializados que fui acumulando ao longo de anos de pesquisas recônditas na rede.

Por fim, meia hora depois, dei com um sítio comercial dedicado a assuntos militares. (Também encontrei um sítio de nome www.ternuma.com.br ? de "terrorismo nunca mais" ?, dedicado, entre outras coisas, à defesa de torturadores.) Lá, ao lado de especificações sobre como usar a bandeira em diversas situações (em grupo, sobre um caixão etc.), tudo ilustrado com fotografias da pior qualidade, encontrava-se a mesma informação do Ministério da Cultura. Bate mais um pouco daqui e dali, e fui parar num provedor do Paraná. A mesma coisa. E, em todos os sítios visitados, alguma bandeira em forma gráfica, mas nenhuma com cores convicentes. Azuis anêmicos, amarelos Piu-Piu, verdes de mocinha suburbana.

Perseverei, e me dirigi ao sítio que deveria ter procurado logo de cara, o do Ministério do Exército. Lá, a origem de todo o material informativo (fotos com pesoas hirtas, ilustrações com o posicionamento das estrelas etc.) que havia encontrado antes. E, enfim, a íntegra da lei n? 5700, de 1971, que normatiza o uso tanto da bandeira quanto do hino nacional.

Por fim ali a relação geométrica precisa entre os elementos constitutivos da flâmula identificadora da nacionalidade ? retângulo de 20×14, vértices do losango distantes 1,7 dos lados do retângulo, círculo com raio 5 etc. Contudo, os idealizadores da tal lei, ao lado de proibirem a execução do hino nacional em arranjo diferente do de Alberto Nepomuceno e de estipularem outras vedações igualmente bobocas, esqueceram-se de especificar as cores. Ou seja, pode-se usar qualquer verde, qualquer azul, qualquer amarelo (branco é branco, não tem nuances). Assim, por exemplo, as duas bandeiras que ilustram as presentes maltraçadas seriam perfeitamente aceitáveis.

O exemplo da bandeira se repete em praticamente qualquer território. Longe de constituir receptáculo e fonte de tesouros informativos, como quer a propaganda e como repetem os veículos do segmento, a internet brasileira é um deserto, particularmente no que se refere a assuntos culturais (bandeira também é cultura…).

Em contraste, ao se buscar informações sobre arte, literatura, biologia, natureza, saúde, educação, qualquer coisa, de qualquer país decente, encontra-se uma profusão de iniciativas voltadas à organização da informação. Muitíssimas dessas fontes são rudimentares, mas muitas são competentes. Em particular, não há país em que a área acadêmica correspondente não tenha produzido sítios dedicados a seus principais escritores. Cervantes, Camões e Shakespeare estão na íntegra na rede. Libretos de quaisquer óperas, muitas vezes com traduções, podem ser achados em vários sítios. Em centenas de sítios voltados às artes plásticas produzidos ao redor do mundo (uma excelente é iniciativa de um professor de Hong Kong) encontram-se reproduções de praticamente qualquer obra de qualquer autor consagrado, dos clássicos aos contemporâneos. Os exemplos multiplicam-se à exaustão.

No Brasil, não há um só sítio que se ocupe de artes plásticas ou teatro. A literatura, que em outros países foi das primeiras a ser pesadamente incluída na rede, é tratada no Brasil com a indiferença irresponsável da academia, o desinteresse dos provedores, a incompreensão das agêcias financiadores e a apatia do público.

(*) Secretário-geral da ONG Transparência Brasil <http://www.transparencia.org.br>; e-mail <cwabramo@uol.com.br>

    
    
              

Mande-nos seu comentário

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem