Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Pesquisas e métodos do Ibope

Por lgarcia em 14/02/2001 na edição 108

QUALIDADE NA TV


NÚMERO-NOTÍCIA

Antonio Fernando Beraldo (*)

Tão logo tomou posse na Prefeitura do Rio de Janeiro, lá vem César Maia com um factóide (com sua devida licença, excelência) da safra 2001, proibindo a divulgação de pesquisas de opinião pública. Os cariocas não poderiam, por um tempo, ficar sabendo o que pensam sobre questões de transcendental importância como, por exemplo, qual a popozuda mais popozuda do verão. O prestimoso preboste, segundo dizem, levado por sentimentos de vingança contra o diretor do Ibope, quer submeter as empresas a auditorias, investigar suas metodologias e sua "manipulação" dos números.

Bobagem, senhor prefeito, bobagem. Todo mundo acerta, todo mundo erra, é coisa do momento, como já foi dito muitas vezes neste espaço, por mim e por outros. Institutos de pesquisa sérios muitas vezes não conseguem acompanhar a evolução desta mutante veloz chamada "opinião pública", principalmente nesta época em que se criam "factóides" (licença, outra vez) justamente para embaralhar as tendências – manipulam-se as opiniões, e não os números, que, se tiverem a velocidade adequada, refletem estas manipulações; se não, resultados de pesquisas já amanhecem defasados.

O que o sr. prefeito poderia fazer, e isto faria muito bem a todos, é obrigar a mídia impressa a colocar em letras de tamanho tal que a gente pudesse ler sem óculos, os seguintes dizeres: PESQUISA FEITA NO DIA TAL; MARGEM DE ERRO TAL; NÍVEL DE CONFIANÇA TAL e, principalmente, que raios querem dizer essas bruxarias. Os gráficos teriam que ser sóbrios, iguais àqueles dos jornais pré-coloridos. Tudo seguido de uma texto pequeno sobre o que dizem os números, e não de uma "tabela por escrito" e de interpretações fantasiosas do tipo "a popularidade de FHC subiu porque ele deu uma ‘dura’ no ACM e Carla Perez posou nua". E sempre a advertência, igualzinho à que vem nos maços de cigarro: "Esta pesquisa mostra a opinião de um grupo de X pessoas, sorteadas no dia Y, nos locais Z, no instante T, que pode não ser mais válida no momento em que é divulgada". E toda vez que as cifras forem citadas, enfatizar essas mesmas características. Pode não resolver, mas ajuda a acostumar o leitor leigo em Estatística a uma espécie de hábito crítico, necessário para que não seja engabelado.

Amostra "congelada"

Pesquisas que envolvem metodologias bem mais complicadas, como "nível de desemprego", "efeitos de transgênicos" ou "saúde pública" deveriam ser divulgadas com cuidado redobrado. Ninguém é obrigado a saber o que seja "variância" ou "homocedasticidade" (perdão, senhoras). Mas é, ou deveria ser, um exercício de cidadania informar, com termos de uso cotidiano, as técnicas estatísticas utilizadas.

Já foi dito e reprisado que o maior controle que se pode ter sobre os institutos de pesquisa é feito por eles próprios, quando comparam-se os seus números – e quando, no caso das pesquisas de intenção de voto, sai o resultado das eleições. Ótimo! Mas, e quando existe apenas um instituto especializado naquele assunto e não temos como aferir suas cifras? É o caso do Ibope e a audiência dos programas de TV. Apesar de amplamente divulgados, e vistos como "verdades absolutas", os percentuais de audiência dos programas são bastante contestados, internamente, pelas diretorias das emissoras. Segundo matéria do caderno TVFolha [Folha de S.Paulo, 26/11/2000], há uns dois anos a auditora norte-americana Ernest & Young foi contratada pela Abap/Redes (Associação Brasileira das Agências de Publicidade, mais redes Globo, Bandeirantes, Record e SBT) e detectou uma série de procedimentos estatísticos incorretos no Ibope. O Ibope só aceitou esta "ingerência" se os resultados do relatório da auditoria fossem mantidos em sigilo, ou seja, os números da audiência, por mais fantasiosos que sejam, continuam "valendo" – e direcionando as verbas de propaganda dos anunciantes (cerca de 7 bilhões de reais/ano, segundo a mesma reportagem).

A metodologia empregada pelo Ibope é a seguinte: escolhe-se um grupo de pessoas (em torno de 600 em São Paulo), que, teoricamente representam bem os segmentos de renda, faixa etária, escolaridade etc. característicos da cidade. Nos aparelhos de TV de suas (deles) residências é instalado um "aparelhinho" chamado peoplemeter (perdão, novamente), que é conectado a uma "central de apuração" de dados, um computador. Cada vez que um desses televisores é ligado, o computador central fica "sabendo" se está ligado e em qual canal está sintonizado. Os dados são enviados em tempo real.

Tudo muito bom, mas, rigorosamente, nada estatístico. A amostra não é sorteada (seria economicamente inviável este método); a amostra é "congelada", como se diz na gíria, ou seja, não se pode dizer que, mesmo sendo representativa num primeiro instante, nada garante que continue sendo ao longo de meses a fio (na auditoria da Ernest & Young, verificou-se que alguns elementos da amostra tinham 5 anos de permanência!).

Nada pode ser mais "furado" do que dizer "um ponto do Ibope equivale a 80.000 telespectadores" – isto é apenas o resultado de uma conta, habitantes das cidades divididos pelo tamanho da amostra. Outra bobagem estatística é a tal da medição minuto a minuto da audiência: mesmo se a amostra fosse representativa, os números corretos seriam a média ou a mediana destes percentuais, ao longo do tempo do programa, ou do bloco, digamos, "temático".

Que eleva e consola…

Não custa repetir: o Brasil é muito grande e com regiões muito diferentes umas das outras em termos de cultura, hábitos, costumes. O que é válido, teoricamente, para São Paulo pode não ser para o Rio de Janeiro, ou para Porto Alegre, ou para Aracaju, ou para Conceição do Mato Dentro. Isso faz com que "surpresas" possam ocorrer com freqüência capaz de desqualificar essas "estatísticas".

Falo por experiência própria: em 1998, participei de um Observatório na TV sobre pesquisas eleitorais. Era uma terça-feira e, na tarde daquele dia, a seleção brasileira de futebol vencera um jogo de Copa do Mundo. O centro do Rio de Janeiro era uma festa só, os bares lotados de torcedores bebemorando, o trânsito um caos ainda maior do que o caos habitual. As emissoras de TV só passavam os lances do jogo, com os comentaristas se esforçando para detalhar, cartesianamente, cada chute dado por Ronaldinho & Cia, pré-vexame. Pensei que o programa teria menos de um traço de audiência, ainda mais em Juiz de Fora, onde moro (meus 15 minutos de fama ainda não seriam daquela vez, pois não tinha avisado a quase ninguém sobre o programa).

Pois não é que, no dia seguinte, o motorista de táxi veio comentar comigo a minha "atuação"; o garçom do restaurante, idem; a secretária eletrônica estava carregada de mensagens dos amigos, colegas de universidade e até de "adversários", me gozando; pelo menos uns dez alunos me procuraram para comentar os "melhores momentos" – um engraçadinho chegou a me pedir autógrafo. Até hoje, de vez em quando aparece alguém querendo a fita de vídeo do programa. Daí que, mesmo não tendo sido contratado para substituir o Faustão ou o Gugu, adotei como estatística verdadeira e significativa este meu Ibope particular, que eleva e consola…

(*) Professor do Departamento de Estatítisca da Universidade Federal de Juiz de Fora

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