Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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“Pesquisite” e democracia

Por lgarcia em 20/07/1998 na edição 49

Orlando Tambosi (*)

 

A

“pesquisite” contraída pelos meios de comunicação vem afogando em números o leitor/telespectador, mais cobiçado, agora, como eleitor. Calcadas na estatística, as sondagens de opinião supostamente dão um ar mais científico ao jornalismo, quase ocultando-lhe o viés ideológico, burocraticamente governista, tão acentuado na atual conjuntura. Terreno fértil para o “marqueteiro” – cínico neologismo para o velho e popular picareta.

Gráficos e tabelas com setas crescentes e decrescentes procuram sagrar previamente os vitoriosos. Vira fato consumado e incontestável a opinião de uma minoria de cidadãos caçados nas esquinas e nas listas telefônicas, sob critérios que ninguém conhece e condenados ao plebiscitário sim ou não.

É inegável que as sondagens, se conduzidas honestamente, revelam tendências com razoável precisão. Mas isto não justifica que sejam trombeteadas pela mídia como verdades científicas irrevogáveis. Não há ciência baseada em opinião. E previsão, com dados estatísticos ou não, é simples previsão – caso contrário, também a astrologia seria ciência.

A “ciência das sondagens” é, na verdade, pseudociência: não pode apresentar-se como objetiva, independente de valores, ideologias ou crenças. Para começar, depende fortemente das motivações e interesses dos grupos que encomendam as pesquisas, além das questões e técnicas escolhidas, da quantidade de recursos financeiros disponíveis, da delimitação de regiões, cidades, segmentos de população, duração, etc. E pode-se até, com o mesmo “rigor científico”, produzir pesquisas com resultados divergentes sobre o mesmo assunto.

O problema, porém, não está no fato de as sondagens de opinião serem boas ou más, mais ou menos manipuladas, científicas ou não. O problema está no seu uso intensivo e abusivo, que comporta riscos à democracia, transformando-a naquilo que alguns chamam de teledemocracia. Reduzido a uma espécie de meta-eleitor, o cidadão já não é sujeito da iniciativa política, mas simples objeto de pesquisa. Os eleitores reais são substituídos por uma minoria cuja opinião é ampliada estatisticamente a opinião do eleitorado como um todo.

Ocorre um esvaziamento das instituições da democracia representativa, que, falha ou não, pelo menos consagra certos ritos, procedimentos e controles. D. Zolo, um estudioso da política italiana, enumera a propósito (revista Telèma, 1/1995) alguns perigos que vale recordar.

  1. As sondagens são decididas espontaneamente por qualquer pessoa ou grupo que disponha de recursos financeiros suficientes para executá-las ou para contratar empresas especializadas;
  2. os temas que constituem objeto da pesquisa são escolhidos e decididos por quem a encomenda ou pelos pesquisadores;
  3. as técnicas utilizadas são livremente definidas por ambos, sem seguir um padrão mínimo;
  4. não existe qualquer proibição ou obrigação jurídica quanto aos procedimentos;
  5. concluída a pesquisa, restringe-se a quem a encomendou ou aos pesquisadores a decisão de divulgar ou não os resultados, de acordo com seus próprios interesses (pesquisa pública, uso meramente privado);
  6. não há nenhum dever, por parte dos divulgadores dos resultados (a mídia), de fornecer ao público uma indicação clara e precisa dos procedimentos adotados.

Não se sugere aqui a proibição das pesquisas. Mas, já que elas podem moldar a opinião dos cidadãos e definir antecipadamente a pauta política, é necessário que esse poder se submeta – como todos os outros – a algumas regras. Como dizia o velho filósofo Popper, não há sociedade democrática com poderes sem controles e limites.

Ibope nenhum deve roubar o lugar do eleitor.

(*) Prof. de Filosofia e Ética do Curso de Jornalismo da UFSC.

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