Terça-feira, 24 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº963

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Pitta e a ditadura da mídia

Por lgarcia em 20/10/2000 na edição 100

Jessé Nascimento (*)

1º de janeiro 2001 será o dia mais feliz da cidade de São Paulo, sofrida metrópole hoje mergulhada, segundo o clamor da mídia, em lama, miséria e corrupção jamais presenciadas. Será mesmo? Escrevo no momento em que pesquisas de boca-de-urna indicam quem se enfrentará no segundo turno para ocupar a cadeira de Celso Pitta. Não importa quem será o futuro prefeito, ou prefeita. O que parece importar mesmo é que Pitta estará fora do Palácio das Indústrias e, em conseqüência, numa lógica simplista, seu ocaso coincidirá com o nascer do sol da justiça na capital.

Josef Goebels fez-se célebre, entre outras razões, por afirmar que mentiras podem ser aceitas como verdade desde que sejam repetidas com insistência. A pergunta que se faz então é: o que levou a falsa idéia de que Pitta é corrupto e incompetente a propagar-se em proporção aparentemente gigantesca? E também: como o homem que antes de assumir a cadeira de prefeito de São Paulo, famoso, além da boa aparência , pela competência, credenciais acadêmicas impecáveis e sobretudo honestidade (abonada inclusive pelo atual governador, num cochilo-pré-eleitoreiro), transformou-se, segundo a mídia, no símbolo máximo de corrupção e incompetência em São Paulo? Talvez Goebels e a própria mídia expliquem. Para analisar como a "verdade" se espalhou é preciso lembrar que é impossível separar a questão do preconceito de pele de qualquer análise da negativa percepção a respeito do desempenho e da honestidade do prefeito. O fato de Pitta, negro, ser o primeiro executivo da maior cidade da América do Sul não pode ser desvinculado do fato de que pesquisas (questionáveis, admito) definem o paulistano e em particular a classe média e a elite como "cordialmente racistas". O avanço, no caso, foi superado pelo ranço.

Adiciona-se a esta equação o fato, demonstrado por publicações sérias, de que no Brasil, em grande escala, profissionais não-brancos, além de obter remuneração inferior à dos colegas no exercício da mesma função e em condições iguais, precisam provar competência superior. Mais ainda, a maioria dos eleitores de Pitta não "povoa" o meio ambiente das redações dos jornalões e TVs, não opinam sobre pautas, o conteúdo editorial ou as reportagens "investigativas", não são entrevistados nem assinam colunas. A maioria sequer ouviu falar em Goebels.

"Coisa maligna"

Sabia-se, antes da eleição de 1996 que, por suas origens e por razões biológicas que lhe fogem ao controle (e ao de qualquer ser humano), Pitta seria julgado sob padrão rigidamente superior ao de qualquer outro executivo não-negro, mesmo os que tenham o "pé-na-cozinha", como alega ter o sempre poupado pela mídia FHC. Preto no branco, isto é fato. Não surpreende, pois, que o tratamento dispensado a Pitta, reflexo direto do, repito, suposto pensamento vigente na classe média e na elite com relação aos negros, seja marcado pela inquisição e a intolerância demostradas pela mídia paulistana e outros setores desta sociedade, apoiados em estereótipos ultrapassados e condicionados a analisar o desempenho de ícones negros com base no número de gols marcados ou CDs vendidos.

Pitta não é vitima. É alvo. Editoriais, artigos, colunas e reportagens assinados por famosos, assim como comentários de obscuros experts em "esperteza", foram usados indiscriminadamente para desmoralizar toda a ação de Celso Pitta. O "negócio" de esculhambar Pitta transformou-se em indústria. Nunca se viu tantos "experts-espertos" em São Paulo, ainda que suas previsões jamais se tenham materializado, particularmente a de que Pitta sequer terminaria o mandato. Este processo de "satanização" foi "manifestado" no momento em que a (bajulada pela mídia) madame-candidata afirmou que Pitta deveria arder em chamas no inferno.

"Satanizar" é uma tática calculada, cujo exemplo ocorreu pouco antes da guerra EUA-Iraque quando, buscando apoio do povo americano para ação militar contra Bagdá, George Bush passou a referir-se a Saddam Hussein, na mídia que o apoiou, usando termos como ditador, incompetente, déspota, corrupto, monstro, maligno. Ao fazê-lo, retirou a "humanidade" de Saddam que, sendo visto como "coisa maligna", algo abjeto, monstruoso, tornou ao povo "mais fácil" e patriótico odiá-lo, justificando-se ações violentas contra ele. Não defendo Saddam. Respeito Bush.

Às favas a cordialidade

Pergunto: qual o tratamento dado a Pitta pela mídia? Desde o dia de sua posse, editoriais, comentários, artigos, quando mencionavam-lhe o nome quase sempre acrescentavam, como se fora sobrenome, termos como desconhecido, governista, gosto duvidoso, desvio, fiasco, gestão desastrosa, máfia, vergonhoso, fraco, sem sustentação, filhote, fisiológico, propina etc. Onde está o paralelo? Ainda que acusações não sejam comprovadas, comprovando Goebels e repetindo Bush, tais termos retiram a "humanidade" de Pitta, tornando-o abjeto, detestável, indigno de qualquer respeito da opinião pública e sobretudo da mídia. Às favas a cordialidade. A cabeça do negro, já!

Em 1989, respondendo a este humilde, o sábio Saulo Ramos escreveu: "…mesmo cometendo excessos, a mídia brasileira vai amadurecer e aprender…". Talvez aprenda, Dr. Saulo, esperamos que o faça, pois assim como abominamos baionetas, regimes autoritários, exclusões e censuras, não queremos a ditadura da mídia, golpes de caneta, intolerâncias editoriais ou a submissão a formadores de opiniões impróprias.

Até que a mídia chegue ao ponto ideal deste sonhado amadurecimento, Pitta pagou o preço. E nós, o "resto" da sociedade, até quando continuaremos pagando?

(*) Mestre em Mass Communications pela University of Leicester e diretor da Screen Savers International IT & Communications Consulting of Massachusetts, EUA. E-mail: <info@screensaversi.com>

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