Domingo, 22 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

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Época

Por lgarcia em 06/06/2001 na edição 124

ASPAS

BAIXARIA & VIOLÊNCIA

"Sexo e conversa", copyright Época, 4/06/01

"O mundo mudou muito.? A frase, dita geralmente por avós e pais perplexos diante da modernidade, cabe perfeitamente quando o assunto é sexo. Já se foi o tempo em que temas ligados à sexualidade eram tratados apenas em rodinhas de amigos, revistas masculinas ou filmes proibidos para menores. O mundo realmente mudou e para constatar isso basta ligar a TV. Perguntas do tipo ?O tamanho do pênis é importante??, ?É normal sentir desejo por meu melhor amigo??, ?Como sei se tive um orgasmo?? estão sendo respondidas na televisão quase diariamente. MTV, Bandeirantes, Globo, SBT, TV Cultura e o canal por assinatura GNT exibem quadros ou programas centrados na discussão da sexualidade. A RedeTV! prepara-se para lançar uma atração comandada por Monique Evans, que ganhou notoriedade com um programa de venda de produtos eróticos.

Mas será que falar sobre sexualidade na TV ajuda o telespectador a esclarecer suas dúvidas? Para o psiquiatra Jairo Bouer, a televisão pode ser um excelente instrumento de educação se usada com bom senso. Pensando nisso, decidiu propor à MTV um programa sobre sexualidade voltado para adolescentes. Inspirado na produção americana Love Line, o Erótica estreou há dois anos e figura entre os mais vistos da MTV. O sucesso do projeto pode ser medido pelo número de e-mails recebidos, 1.000 por mês. Todos pacientemente examinados pelo psiquiatra e sua equipe. Boa parte deles traz perguntas sobre homossexualismo, masturbação, orgasmo, Aids, perda da virgindade e até sobre como conquistar um namorado ou lidar com a timidez. As questões mais ao estilo consultório sentimental são respondidas pela modelo Tathiana Mancini, que divide com Bouer a apresentação do programa. ?Entre outras coisas, a TV ajudou a desmistificar a Aids, antes vista como algo improvável no cotidiano dos heterossexuais?, diz o psiquiatra, que não se cansa de convocar os adolescentes a usar camisinha. ?Acredito que estamos ajudando ao abrir espaço para que as dúvidas possam ser esclarecidas corretamente?, completa o apresentador.

Para as perguntas mais difíceis, Bouer aconselha procurar um especialista. ?Não temos a pretensão de funcionar como um consultório?, garante. Mas será que ajuda? A estudante Maria Fernanda Meireles, de 18 anos, acha que sim. ?Eles discutem assuntos que teria vergonha de falar com meus pais.? Mesmo com a quantidade de informações despejada pela mídia, ela garante que muitos jovens pouco sabem sobre sexualidade e acredita que programas do gênero são úteis.

Também voltado para o público jovem, o Superpositivo, da Rede Bandeirantes – que lançou a Tiazinha e a Feiticeira -, quer se redimir da erotização que ajudou a difundir. Para isso, conta com a ajuda do psicólogo Claudio Picazio. Semanalmente ele tira as dúvidas existentes e não vê incoerência em falar seriamente de sexualidade em um programa que costuma utilizar popozudas como isca de audiência. Uma das musas da onda de erotização, Joana Prado, a Feiticeira, teve seu quadro reformulado. Agora, no lugar de capturar adolescentes, Joana encontra-se com celebridades para conversar sobre intimidade e aproveita para dar conselhos. ?Quero usar a imagem sensual da Feiticeira para passar informações sobre sexualidade?, explica Joana. A idéia talvez renda um programa ao estilo Erótica.

A apresentadora Babi não figura na lista de popozudas que invadiram a TV, mas ganhou fama falando sobre sexo. Ex-apresentadora do Erótica, Babi foi convidada por Silvio Santos para comandar o Programa Livre, no SBT. A sexualidade não é o enfoque principal da atração, mas, como se trata de um produto voltado para jovens, não costuma faltar na lista de pautas. Também sem estar diretamente direcionado para o assunto, o programa Meninas Veneno, exibido na MTV, volta e meia reúne convidados para discutir virgindade, homossexualismo e problemas de relacionamento. Mais abrangente, o RG, da TV Cultura, debate igualmente incertezas comuns entre os adolescentes.

Falar de sexualidade nem sempre foi fácil. O médico baiano Elsimar Coutinho conta que há cerca de 20 anos, quando começou a aparecer na TV, até a palavra útero era proibida. ?Tratar de orgasmo ou de relações sexuais, então, nem pensar?, lembra. Hoje, comanda um quadro no programa matinal Dia Dia, exibido na Bandeirantes. Assim como Bouer, o médico acredita que a TV pode informar se utilizada corretamente. Mas questiona a validade dos conselhos de psicólogos. ?Os problemas sexuais não estão apenas na cabeça.?

Pioneiro, o TV Mulher, exibido na Rede Globo entre 1980 e 1986, contava com os comentários da sexóloga Marta Suplicy, atual prefeita de São Paulo, para acabar com as dúvidas que atormentavam a audiência feminina. Quinze anos depois, a Globo volta a abordar a sexualidade, mas agora apostando em outro formato. O humor é a principal característica do quadro ?Elas só Pensam Nisso?, que vai ao ar depois das 22 horas dentro do Fantástico. O objetivo da atração – pautada, produzida e editada só por mulheres – é trazer à tona questões ligadas à sexualidade de maneira divertida e informativa. O comportamento feminino dá o tom e permite reportagens sobre o tamanho do pênis, traição e até modelos de cuecas.

Exibida aos sábados de madrugada pelo GNT, a produção canadense Sex TV foge do lugar-comum ao tratar de sexo. Com linguagem e pautas arrojadas e sem a intenção de ser educativa, a série traz reportagens que revelam aspectos nada usuais da sexualidade. Sadomasoquismo e fetiches são alguns dos temas apresentados no programa. A abordagem passa longe do convencional.

O horário escolhido para a exibição do Noite Afora já é uma indicação do que vem por aí. Apresentada pela ex-modelo Monique Evans, a nova produção da RedeTV! irá ao ar à 1 da madrugada. Entrevistas ousadas, reportagens picantes e assuntos polêmicos estarão na pauta. Monique está disposta a tirar dúvidas com especialistas e entrevistados, sempre – como ela diz – com ?espontaneidade e pureza?. Evangélica, a ex-modelo afirma que não vai fazer nada condenável, mas avisa: a atração não é aconselhável para menores. Um programa sobre sexo comandado por uma evangélica diz muito sobre quanto o mundo, de fato, mudou."

"Faustão? Nem como Faustuxa ", Veja, 4/06/01

"No domingo passado, os espectadores da Rede Globo assistiram a uma experiência digna de cientista maluco. Entre as 16 e as 19 horas, a emissora levou duas de suas estrelas, Xuxa e Faustão, a interagir ao vivo por diversas vezes. Os animadores de auditório apareceram juntos, numa tela dividida. Até os logotipos de seus respectivos programas foram postos lado a lado. Na passagem de uma atração para a outra não houve intervalo. Formou-se um híbrido esquisito. Seria o ?Planeta Faustuxa? ou o ?Domingão do Xutão?? Para fazer a mistureba, armou-se uma operação de guerra. Três chefões da emissora foram mobilizados. Luiz Nascimento, da Central Globo de Jornalismo, dirigiu Faustão em São Paulo; Marlene Mattos coordenou o trabalho de Xuxa no Rio; e o diretor de núcleo Roberto Talma deu apoio técnico de uma ilha de edição. O objetivo da Globo, obviamente, era impingir uma derrota significativa a seu competidor implacável, Gugu Liberato, do SBT. Para Xuxa, a estratégia até que não foi ruim. Ela brilhou e obteve um empate de 24 a 24 pontos, na média, com o Domingo Legal. Já Faustão, para variar, não colheu louros. Perdeu para o loiro de 24 a 28 pontos, apesar de ter protagonizado um momento ?dramático?, daqueles que a patuléia adora. Instigado por Xuxa, ele fez um desabafo. Pela primeira vez, rebateu as críticas.

As perguntas da apresentadora pegaram Faustão de surpresa. Nem mesmo Marlene Mattos sabia ao certo como seria a ?entrevista?. Xuxa tocou em assuntos espinhosos, como o ibope do Domingão do Faustão. Também quis saber se o apresentador ainda se sentia satisfeito à frente de seu programa ou se gostaria de seguir outros rumos. Meio encabulado a princípio, Faustão depois destrambelhou e respondeu a tudo. ?Eu sou líder há doze anos, só perco em São Paulo?, disse ele a respeito da sua combalida audiência. Em seguida, afirmou que considerava a Globo uma emissora ?quase perfeita? e que estava feliz com seu trabalho. Aproveitou para atacar indiretamente a linha de televisão popular de Gugu e do SBT. ?Se eu tiver de dar audiência explorando a miséria e a pobreza, estou fora?, bravateou o apresentador. As coisas, no entanto, não são bem assim.

Faustão, de fato, só perde em São Paulo. Mas isso significa ser derrotado no mercado publicitário que responde por 80% do faturamento das emissoras de TV. Seria como se um eventual programa de televisão do Nafta – a área de livre comércio que engloba México, Canadá e Estados Unidos – só fizesse sucesso na terra dos bebedores de tequila e fracassasse nos outros dois países. É por isso que a Globo anda tão preocupada. Sua alfinetada em Gugu também acabou desmentida pelo que se via na televisão. Há tempos o Domingão do Faustão vem, digamos, tomando emprestados alguns recursos do SBT. Começou a investir em jornalismo, por exemplo, para fazer frente às reportagens campeãs de audiência do Domingo Legal. Mas na semana passada a imitação desceu a minúcias. Até mesmo tarjas explicativas passaram a ser usadas. Esse é um velho truque de programas populares: ajuda o espectador que zapeia a se inteirar rapidamente do assunto que está no ar. A Globo sempre evitou esse recurso. Faustão o empregou para abordar o assunto ?troca de bebês em maternidades?. Enquanto ele recebia um casal no palco, a tarja trazia a seguinte pergunta: ?Mãe busca filho trocado: será que encontram??. Mais tarde, durante uma entrevista com uma mulher, os dizeres estampados eram: ?Esse bebê não é meu! Trocaram no berçário?. Esse quadro – de ?prestação de serviço público?, segundo Faustão – incluiu a exibição de um exame de DNA, choradeiras e um fundo musical de filme de suspense. Com a derrota no domingo passado, a situação de Faustão se tornou ainda mais confusa. Xuxa não mostra entusiasmo com a idéia de continuar a servir de ajudante do apresentador. Ela tem outros planos (veja quadro). Também não é certo que o programa de Faustão terá São Paulo como cenário definitivo. Além disso, nos últimos dias, crescem os rumores de que a Globo pretende dar férias ao apresentador em julho. ?O grande problema é que, independentemente dos méritos de Fausto Silva, o público parece ter perdido o hábito de assistir a seu programa. E, em televisão, hábito é tudo?, avalia um diretor da emissora."

"?Queremos séries gays na Globo e no SBT?", Folha de S. Paulo, 1/06/01

"Todos concordam: o título escolhido para o Brasil é péssimo. ?Os Assumidos?, nome que a série ?Queer as Folk? recebeu no país, estréia hoje, à meia-noite, no Cinemax (TVA/DirecTV).

O que chega à TV brasileira é a versão norte-americana do pioneiro ?Queer as Folk? inglês, exibido aqui no ano passado pelo Eurochannel. O diferencial dessa série gay em relação às outras foi não economizar em cenas de sexo e mostrar o namoro homossexual com beijos, abraços, afeto. Ou seja, tudo o que não costuma passar de insinuação em outros programas voltados ao público GLS.

O seriado europeu teve apenas 13 episódios. O motivo é o mesmo de sempre: sucesso inesperado de audiência, atores virando celebridades e pedindo fortunas para renovar o contrato. Apesar da curta duração, o seriado causou polêmica.

Nos Estados Unidos, os produtores foram prevenidos e já garantiram em contrato uma primeira temporada de 22 episódios. Exibida lá pelo Showtime, a série teve ótima audiência e já há negociação para a segunda temporada.

Tanto na versão inglesa como na norte-americana, o propósito é abordar o cotidiano de um grupo de amigos homossexuais sem cair no estereótipo, tão comum em grande parte das produções na televisão. O seriado é polêmico também ao tratar de temas como drogas e sexo com menores.

Na última quarta-feira à noite, seis convidados da Ilustrada se reuniram para assistir ao primeiro episódio, em vídeo.

Entre pizzas, guaraná e vinho tinto, o grupo era formado por Beto de Jesus, 38, presidente da Associação da Parada Gay de São Paulo, José Gatti, 50, professor da Universidade Federal de São Carlos e crítico de cinema, Júlio Nascimento, 33, psicanalista com mestrado na PUC sobre homoerotismo, Laura Rebessi, 27, produtora do Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual, Maurício Gonçalves, 36, professor de cinema da Belas Artes, e Suzy Capó, 39, jornalista, colunista de sexo e diretora da Associação Mix Brasil.

Ler na caixa da fita o nome ?Os Assumidos? causou decepção. Mas a gafe do Cinemax foi recebendo aos poucos o perdão do grupo enquanto a série ia rolando no vídeo. Surgiram comentários de toda natureza, desde os mais militantes, como ?eles usaram arquétipos bem gays?, até os de pura tietagem, como ?eu acho esse ator maravilhoso?.

As cenas de sexo foram bem recebidas. ?É tudo o que o ?Will & Grace? não mostra?, disse José Gatti. Essa série, exibida pelo canal pago Sony (Net/Sky), tem como protagonistas uma garota e seu amigo gay.

Mostrar homossexuais, mulheres e homens, namorando, transando, enfim, se relacionando de verdade, é o ponto forte de ?Os Assumidos? para o grupo.

?O mais legal da série é que tem beijo e sexo. ?Will & Grace? é mais sofisticada, mas não mostra o melhor?, disse Gatti. ?Estamos cansados de ver filmes gays inteiros, esperar até a última cena e não ver nem um beijo sequer?, afirma Júlio Nascimento. ?Isso acontece também com as novelas brasileiras, que raramente colocam um gay na trama. O máximo que mostram é um olhar mais insinuante?, diz Maurício Gonçalves.

Além das cenas de sexo, Suzy Capó elogiou o fato de a série mostrar romance, ?namoro de verdade?, entre gays.

?Isso é importante para mudar o senso comum, em que a homossexualidade costuma ser vinculada à sexualidade e não à afetividade.? Beto de Jesus concorda: ?Muitas vezes as pessoas ficam mais chocadas vendo dois homens ou duas mulheres se beijando, felizes, de mãos dadas, do que transando de fato?.

É claro que ?Os Assumidos? também recebeu críticas, como a fraca atuação de parte do elenco. Outros problemas, para os convidados, não são específicos de uma produção para gays. ?É claro que existe aquela maneira americana de ver as coisas. Todo mundo é lindo. Além disso, não há negros no elenco central?, diz Júlio Nascimento.

Mas, para os críticos, o grande mérito de ?Os Assumidos? é simplesmente ser uma série pioneira, que rompe o preconceito, fazendo o que seus telespectadores esperavam. ?Que venham mais e mais séries assim. E queremos ver seriados gays na TV aberta também, na Globo, no SBT?, disse Gatti. Mas, na Record, concordaram todos, ?acho que não vai rolar?."

***

"Versão inglesa era mais ousada", Folha de S. Paulo, 1/06/01

"Quem se chocar com a versão norte-americana de ?Os Assumidos? deve ficar longe da versão inglesa da série. O original ?Queer as Folk?, exibido no Brasil no ano passado no Eurochannel (TVA/ DirecTV), tinha cenas de sexo mais ousadas e mostrava um lado ?underground? do mundo gay, recheado de drogas e prostituição, com mais realismo.

Outra diferença importante entre as duas versões foi apontada por Laura Rebessi, produtora do Festival Mix Brasil, que reúne filmes sobre a diversidade sexual. ?O ?Queer as Folk? inglês tinha muito mais cuidado estético, era mais bem produzido e tinha atores melhores?, afirmou.

A interpretação de parte do elenco foi uma das principais críticas na ?pré-estréia? realizada pela Ilustrada. O mais questionado foi o galã de ?Os Assumidos?, Gale Harold. Ele vive o narcisista Brian, que no primeiro episódio tira a virgindade de Justin sem a menor sensibilidade.

A trama do seriado gira em torno da rotina de um grupo de amigos gays, Brian (Gale Harold), Michael (Hal Sparks) -o narrador das histórias-, Emmett (Peter Paige) e Ted (Scott Lowell). Além dos três centrais, há um casal de lésbicas, Melanie (Michelle Clunie) e Lindsay (Thea Gill).

O inocente Justin (Randy Harrison), que perde a virgindade no primeiro episódio, não é do núcleo central, mas vai ganhando importância no decorrer dos episódios. Há ainda na história sua mãe, Debbie (Sharon Gless), e o médico David (Chris Potter).

O episódio de estréia, hoje à noite, abre em um badalado clube gay. Na saída, Brian conhece Justin e os dois têm uma noite de sexo. Michael também leva companhia para casa. Tudo vai bem, até que o telefone toca: o filho de Lindsay e Melanie, concebido por meio de inseminação artificial, estava nascendo.

Os episódios serão exibidos pelo Cinemax às sextas, à meia-noite, e reprisados às terças, no mesmo horário."

    
    
                     

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