Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > BAIXARIA E VIOLÊNCIA

Época

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136

BAIXARIA E VIOLÊNCIA

"O efeito Anita", copyright Época, 27/08/01

"Em meio ao ritmo alucinante das gravações de Presença de Anita, minissérie em cartaz na Rede Globo, a atriz Mel Lisboa finalmente fez uma pausa para almoçar com os pais, no domingo 19. Foram ao Celeiro, um agradável restaurante do Leblon, na Zona Sul do Rio de Janeiro. O ambiente tranqüilo da casa não resistiu à presença da garota de 19 anos, corpo esguio, pele alva e olhos verdes claríssimos. Ela monopolizou as atenções de clientes que faziam contorcionismos à mesa para vê-la melhor. Foi devorada pela curiosidade. ?Fiquei tão nervosa que esbarrei num canteiro do restaurante e derrubei as flores?, confessa. Um homem na casa dos 40 aproveitou o incidente para lhe pedir um autógrafo. Foi o primeiro de uma longa fila. O almoço estava irremediavelmente comprometido.

Mel percebeu: a maioria de seus fãs tinha cabelos grisalhos. Com o sucesso da minissérie, volta à cena a atração irresistível, e quase incestuosa, que liga meninas-mulheres a homens maduros. A personagem da trama tornou-se o mais novo ícone de um fenômeno universal, que está alvoroçando o imaginário do público brasileiro. ?Já inventaram até a gripe Anita?, diverte-se a protagonista. ?É a que leva os homens para a cama, deixa as mulheres com dor de cabeça e ataca em todas as idades.?

Há poucas semanas, Mel era apenas uma estudante de cinema da Universidade Federal Fluminense, em Niterói. Depois de ter feito inúmeros comerciais para a TV, sem que esses trabalhos fizessem deslanchar sua carreira, resolveu abandonar a idéia de ser atriz. Voltou às aulas. Curtia o sossego quando soube que fora escolhida, entre mais de 200 candidatas, para viver o papel de Anita. Resolveu agarrar a chance. Engavetou os sete piercings distribuídos no corpo de medidas exemplares – 1,65 metro de altura e 52 quilos – e trancou a faculdade. Só não conseguiu apagar as quatro tatuagens. Até o curso de francês teve de ser interrompido, embora lhe tenha rendido a pronúncia correta para entoar ?Ne Me Quitte Pas?, canção de Jacques Brel escolhida para ser a música-tema da personagem.

A desenvoltura de Mel no papel de Anita surpreendeu a todos

A veterana Antonieta Morineau, de 69 anos, que encarnou o mesmo papel no cinema, em 1951, ficou extasiada com a Anita do novo século. ?Eu não faria essa versão que está na TV. A heroína de hoje é explícita, a minha só se insinuava?, compara Antonieta. A doce Mel acrescentou generosas pitadas de malícia à personagem recortada do romance de Mário Donato, do fim dos anos 40, agora adaptado para a televisão pelo diretor Manoel Carlos. Cenas de nudez e sexo, fora a curiosidade em torno do desfecho da história, levaram o índice de audiência da emissora ao patamar de 29 pontos, seis a mais do que obteve a minissérie Os Maias, estrelada por Ana Paula Arósio, no mesmo horário tardio.

?Uma ninfeta como Anita pode desestabilizar qualquer casamento?, reconhece Manoel Carlos. ?Nunca vi os homens tão interessados. Mesmo meus amigos, homens bem casados, demonstram uma certa ansiedade.? O diretor sabe do que está falando: casou-se com a deputada fluminense Cidinha Campos quando ela completara 15 anos.

As cenas ousadas entre Mel e seu amante quarentão, Nando – interpretado pelo galã José Mayer -, atiçam o público masculino, inquietam o feminino e provocam os conservadores. A correspondência recebida pela Central de Atendimento ao Telespectador da Rede Globo registra dois tipos de comentário: o excessivo consumo de cigarro pelos protagonistas e a explosão do erotismo nas cenas. ?Vi discussões grosseiras, preconceituosas e recheadas de palavrões?, manifestou-se o bancário carioca Fábio Medeiros de Assis, de 22 anos. Em casa, onde vive com a mulher e a filha de 2 anos, não se assiste mais à minissérie. Reações desse tipo eram esperadas.

A Anita de Mário Donato, reinventada por Manoel Carlos, é tão fascinante como a Lolita de Vladimir Nabokov, figura central do célebre romance de 1955. O nome da personagem tornou-se uma qualificação: ser ou não ser lolita. No livro, a menina de 12 anos desfila uma sensualidade tão ambígua quanto o próprio corpo, que exibe os primeiros contornos de mulher. ?Essa ambigüidade atiça a caça romântica. Assume as formas e o sabor de um fruto proibido?, sublinha Ailton Amélio da Silva, professor de psicologia na Universidade de São Paulo e estudioso dos relacionamentos amorosos.

A Anita de hoje, a bordo de 18 anos bem vividos, supera as personagens de Donato e Nabokov. A diferença não reside na idade, mas na atitude – reflexo de uma sociedade que supervaloriza o sexo e a juventude. ?Pela lolita clássica, o homem se apaixonava. A de hoje, ele só quer levar para a cama?, compara o psicólogo, convencido de que senhores madurões têm mesmo propensão a gostar de meninas recém-saídas da fase das espinhas no rosto. ?A lolita é a exacerbação dessa preferência?, acrescenta. Quantos homens não sentiram, na sala de um cinema, a incômoda atração por Brooke Shields, estonteantemente bela aos 13 anos, no papel da prostituta infantil do filme Menina Bonita? Quantos não se renderam ao charme infantil da Lolita de Stanley Kubrick, em 1962, e da de Adrian Lyne, em 1997?

A predileção masculina por parceiras tenras tem razões menos óbvias do que o irresistível frescor de um corpo em mutação. Existe uma compulsão biológica nesse domínio.?O macho quer a fêmea em fase reprodutiva e tende a procurar a mais jovem?, diz Ailton Amélio da Silva. O rostinho belo, nesse caso, não é tudo. O amante sente-se atraído por uma combinação de sinais que incluem juventude, saúde perfeita, hormônios em plena atividade, seios, pêlos e curvas em floração.

Além de exibir tais atributos, a lolita alimenta clássicas fantasias masculinas.Como, por exemplo, a de ser o protetor ou mesmo o provedor de uma menina. Ou a de estar no controle de uma relação forte, embora cercada de fragilidades. Ou ainda a fantasia de ser o primeiro na vida de uma jovem virgem. A declarada virgindade da cantora Sandy, de 18 anos, somada à beleza explícita e ao rostinho angelical, convulsiona o imaginário de fãs na casa dos 30, 40 anos. Leitores de uma revista masculina chegaram a fazer campanha para que a filha de Xororó fosse fotografada em poses provocantes. Persistentes, enviaram 4 mil e-mails para a revista, ao longo de quatro meses. A família não cedeu. Talvez Sandy não saiba, mas resistir é uma das armas mais poderosas das ninfetas. Insinuar vale mais que revelar.

Entre o amante e a ninfeta, tudo é fogo. Sensações à flor da pele superam cautelas. A paixão então se estabelece, nublando a capacidade de julgamento do homem, como previu o filósofo espanhol Ortega y Gasset, no clássico Estudos sobre o Amor, de 1941. Gasset falava dos amantes em geral, não tratou da diferença de idade. Entre meninas e grisalhos, a situação se complica. ?A lolita mexe com a vaidade do parceiro?, destaca a psicanalista Ana Maria Lino Rocha. ?Ele a exibe como um atestado de virilidade.?

Até o começo do século passado, era comum as mulheres debutarem sexualmente no início da adolescência, porque se casavam cedo. Pelo Brasil, viam-se meninas sendo ?criadas? por maridos, já com filhos nos braços. A precocidade nada tinha a ver com sedução, e o sexo, muitas vezes, gerava traumas. O quadro atual é diferente: casamento pressupõe sexo, mas a recíproca não é verdadeira. ?As mulheres estão se casando cada vez mais tarde e fazendo sexo cada vez mais cedo?, constata a psiquiatra Carmita Abdo, coordenadora do Projeto Sexualidade do Hospital das Clínicas de São Paulo, o ProSex. Meninas sem vocação para Anita despertam para o sexo com fantasias, masturbação e namoricos com garotos da mesma idade.

Já a ninfeta vai a campo para concretizar o prazer. Mesmo que não viva uma relação sexual plena, quer entrar no jogo erótico. Procura um homem mais velho não apenas como busca da figura paterna, mas por ele ser um parceiro que ela julga estar à altura de sua sexualidade latente. ?Ela é movida por curiosidade, vê o sexo como algo divertido?, explica Carmita. Essa categoria de meninas-mulheres é cada dia mais numerosa e precoce. ?Vivendo num mundo hipersexualizado, as meninas até menstruam mais cedo?, adverte a psiquiatra. Pesquisa realizada pelo ProSex entre 1997 e 2000 com alunas de escolas da rede pública de São Paulo dá conta de que a iniciação sexual ocorre hoje na faixa dos 15, cinco anos mais cedo do que acontecia há quatro décadas.

Gravidez prematura e o risco de contaminação pelo vírus da Aids não são as únicas conseqüências desastrosas da precocidade sexual. ?Como o prazer dessas meninas está em seduzir, elas não conseguem manter as relações. Ficam trocando de parceiro e se frustram?, analisa Mirela Duran Boccardo, psicóloga do Instituto Kaplan, em São Paulo, onde há anos funciona um ambulatório de sexualidade. ?Como elas querem o desejo do homem, e não o homem, podem ter dificuldade para atingir o orgasmo?, alerta Mirela.

Na primeira metade da adolescência, dos 12 aos 15 anos, a menina desenvolve os chamados caracteres sexuais secundários. Crescem os seios e nascem os pêlos pubianos. Do ponto de vista emocional, porém, continua uma criança. ?Ela não sabe lidar com a libido e precisa de orientação?, alerta Álvaro da Cunha Bastos, presidente da Sociedade Brasileira de Obstetrícia e Ginecologia para a Infância e a Adolescência.

Ter uma adolescente em casa é um desafio. Ter uma lolita é desconcertante. Aconselha-se aos pais a orientação de um terapeuta familiar. Além de lidar com manifestações de uma sexualidade superestimulada, eles próprios têm de contornar crises. A modelo Luiza Brunet atravessou duas décadas como objeto de desejo dos brasileiros. Não se lembra de ter sido ultrajada por cantadas grosseiras. Isso mudou. Hoje, Luiza Brunet sofre com o assédio de que é alvo Yasmim, de 13 anos, a herdeira de sua beleza. ?Fico escandalizada com os olhares que alguns homens dirigem à minha filha. Ela é uma criança cuja maior alegria ainda é ganhar um brinquedo novo.?

Embora sejam cada vez mais jovens, modelos como a própria Yasmim, uma debutante das passarelas, são produzidas para parecer mulherões. É o caso da piauiense Schynaider Grazielle, de 13 anos. Vencedora da etapa nacional do concurso Elite Model Look, Schynaider está classificada para a final mundial, em Nice, na França. Diante das câmeras, ela é capaz de incorporar a femme fatale que a profissão exige. Em Teresina, onde vive com os pais e três irmãos mais velhos, a modelo de 1,71 metro, cabelos castanhos e olhos verdes, segue o ritmo das meninas de sua idade. Está na 7a série, estuda inglês, vai a festinhas e passeia no shopping. ?Mãinha não me deixa ir à boate?, reclama, cheia de dengos. Nunca namorou, mas sabe que chama a atenção. ?Os homens me olham de um jeito que não gosto?, confessa.

A adolescência precocemente estimulada, um fenômeno do século XX, promete se intensificar. É tema de livros, fotografias, filmes e peças de teatro. Tornou-se um filão da publicidade. A modelo Michelly Machri tem 22 anos, mas ficou conhecida como a garota Sukita, de 15 anos, terror dos quarentões que odeiam ser chamados de tio. ?Não tenho preconceito contra homens mais velhos, mas prefiro alguém que cresça e descubra a vida comigo?, afirma a modelo catarinense, namorada de David Maurício, um estudante da mesma idade. Ironicamente os dois se conheceram num elevador, cenário do comercial que abriu as portas do estrelato para Michelly, hoje nas páginas de uma revista de nudez.

O que acontece quando a menina cresce, ganha curvas mais definidas e perde aquela ambigüidade que é a principal arma de sedução da ninfeta? Sue Lyon, a Lolita de Kubrick, tornou-se uma mulher-problema. ?Como pode ser ajustada uma menina que foi objeto de desejo de todos??, indaga a própria Sue. Especialistas ressalvam que as lolitas não estão fadadas ao fracasso como mulheres. Basta amadurecer e, com o tempo, cultivar outros encantos. ?Elas precisam tomar posse de atributos que vão além da aparência?, diz a antropóloga Mirian Goldenberg.

Se não evolui emocionalmente e não se liberta da dependência do homem mais velho, a pós-lolita corre o risco de virar a ?outra? ou cair na prostituição. Sem associar sexo à afetividade, torna-se escrava do corpo. ?A ninfeta cresce, vira uma mulher arrogante, com horror à idéia de envelhecer?, diz a psicanalista Ana Maria Lino Rocha.

O apoio da família ajudou a atriz Flávia Monteiro, hoje com 29 anos, a fazer a transição. Aos 14, ela teve sua vida marcada pela participação no filme A Menina do Lado. Saía do colégio de freiras diretamente para o set de filmagem. Nua, gravava cenas eróticas com Reginaldo Faria, um quarentão naquele tempo. O diretor do filme, angustiado com a falta de compenetração da atriz-adolescente, pedia que ela imaginasse estar saboreando um sorvete ou que fizesse ?cara de quem sente calor? nas cenas mais tórridas. Assim Flávia simulava sensações que não conhecia.?Minha cabeça era de 12 anos. Nunca tinha tido namorado, mas os homens me olhavam como se eu fosse capaz de tudo?, lembra. Os pais deram-lhe mais que apoio. Providenciaram um psicólogo.

Os ingleses cunharam o termo tweenies para definir crianças que agem como adolescentes, sem exibir sinais, físicos ou psíquicos, de puberdade. São as pré-lolitas que descobrem o que é o namoro antes de experimentar o que é brincar de boneca ou andar de bicicleta.?Essa moda de criança usar saltinho e batom tem um lado nefasto?, avisa o psicanalista Renato Mezan. ?Ter infância é fundamental.? Mirian Goldenberg detecta hoje um fenômeno que batizou de ?lolitismo construído?. Como a juventude virou sinônimo de sucesso, mulheres adultas tentam de tudo para impedir a passagem dos anos. ?Querem viver como adolescentes eternas?, observa a antropóloga. Um dos mais evidentes sintomas do fenômeno é o jeitinho dengoso de falar. Outros sinais escondem-se no guarda-roupa. ?Antes, as meninas queriam se vestir como as mães. Agora é o contrário?, comenta Mirian.

Ser, sempre, a menina cobiçada constitui uma aposta de risco para a mulher do século XXI. Avanços médicos e tecnológicos lhe permitem parecer jovem por mais tempo. Mas ela pode virar uma caricatura. A ninfeta verdadeira encarna a ambigüidade. O homem vislumbra nela não somente o objeto sexual, mas o estímulo criativo. O que conta mesmo, para a psicanalista Ana Maria Lino Rocha, é a lolita que toda mulher pode ter dentro de si. Imitações diante do espelho são plenamente dispensáveis."

"Sexo e Razão", copyright Folha de S. Paulo, 26/08/01

"Fresco , veado, bicha, boiola, marica, maricona, qualira, efeminado, ventilado, pederasta, tobeiro, invertido, bicha-louca, bichona, uranista, pirobo, bandeja, fanchono, frango, gorgota, fruta, engole-espada, oré, suné, pintosa, puto, sodomita, tia, sacana, xibungo, paca, arejado, vinte-e-quatro. Esses são alguns dos termos mais comumente usados para se referir ao homossexual masculino no Brasil. Preconceito inscrito e carimbado na língua? Sem dúvida.

Mas, antes de imprecar contra a homofobia ou até a ignorância do brasileiro, convém lembrar que homossexualismo diz respeito a sexo, e a sociedade – qualquer sociedade – tem decididamente um problema com sexo, em todas as suas modalidades. Como sinônimo de ?meretriz?, o dicionário ?Aurélio? registra nada menos do que 96 vocábulos, poucos deles enaltecedores. Para designar o ato sexual, encontrei pelo menos 94 expressões.

Admitindo também o uso de imagens rebuscadas, como ?afogar o ganso?, ?molhar o biscoito?, ?introduzir o lagostim no capitólio?, são quase infinitas as formas de se referir à cópula. Se é verdade que a língua é a expressão do caráter de um povo, então o brasileiro é, acima de tudo, um tarado.

Essa longa e discutível introdução vem a propósito do ?Fica Comigo? gay, que foi ao ar, pela MTV, no último dia 8. Não há dúvida de que a exibição do programa representa um marco tanto na história da TV brasileira como na do movimento pela igualdade dos direitos dos homossexuais. Vale lembrar que a TV, quando aborda o homossexualismo, normalmente o faz de forma caricata. Quem aparece não é o gay, mas a bicha-louca, cheia de trejeitos e, paradoxalmente, quase assexuada.

Assim, é animador constatar que a TV, ou melhor, um seu pedaço que se pretende vanguardista, a MTV, seja capaz de promover um programa de namoro com homossexuais. O episódio gay foi idêntico à versão heterossexual, que vai ao ar semanalmente. Fica implícita a asserção de que um cidadão é um cidadão independentemente do sexo das pessoas que leve para a cama. Trata-se de um corolário até óbvio da democracia, mas que ainda está longe de ter sido inteiramente assimilado pela sociedade.

Esse foi o lado bom do ?Fica Comigo? gay. Há obviamente também aspectos menos positivos. Pelo que li, a MTV não tem planos para transformar a atração em série fixa. Ao que parece, existem dificuldades para conseguir participantes que se disponham a aparecer na TV. Outra hipótese a considerar é a de haver resistência por parte de anunciantes. É um pouco como se se afirmasse a ?normalidade? do homossexualismo com a exibição de um programa em versão gay para em seguida negá-la, ao recusar-lhe um padrão de regularidade.

Também a reação do público merece considerações. O ?Fica Comigo? gay deu à emissora um de seus maiores índices de audiência. Posso ser pessimista, mas não creio que a maioria dos telespectadores assistiu ao programa como gesto político pelo fim da discriminação das minorias. Embora eu não disponha de pesquisas, tenho a sensação de que boa parte da audiência queria mesmo é assistir a dois homens se beijando. É possível que o caráter de ?aberração? tenha predominado sobre o politicamente correto.

É claro que toda a discurseira em torno dos direitos de minorias é importante. Fundamental até. Mas ela é incapaz, pelo menos num primeiro momento, de mudar a percepção das pessoas. Da mesma forma que certos textos bíblicos, notadamente o ?Cântico dos Cânticos?, podem ser lidos como peças eróticas, é possível assistir de modo preconceituoso a um programa concebido para ser libertador. Quando a Globo explode num shopping o casal de lésbicas da novela, não o faz por militar nas fileiras homófobas, mas apenas por preferir o caminho fácil de dar ao telespectador o que as pesquisas sugerem que ele quer ver.

E, quando o assunto é sexo, desmoronam as muralhas da racionalidade possível. (É agora que aquela minha introdução algo barroca ganha lógica.) Não somos capazes de, individual ou socialmente, abordar o sexo de forma apenas racional. Qual é o sentido, por exemplo, de ser contrário ao que dois homens podem fazer em cima (ou embaixo) de uma cama? Trata-se de uma ação absolutamente sem consequências sociais, sobre a qual quem não está no quarto nem deveria se posicionar.

Raciocínio análogo pode ser aplicado à prostituição. Devemos, obviamente, lamentar e combater as iniquidades sociais que levam uma mulher a buscar seu sustento no comércio carnal, mas não há como ser contra o meretrício. Ou bem nos utilizamos desse serviço e não podemos nos opor a ele, ou não o usamos e, nessa hipótese, não nos diz respeito. A lógica é irrefutável, mas, ainda assim, a ?profissão mais antiga do mundo? não só segue polêmica como permanece ilegal em vários países do mundo, alguns supostamente civilizados.

Tinha razão Albert Einstein, que afirmou: ?Época triste a nossa, em que é mais difícil quebrar um átomo do que um preconceito?."

    
    
                     

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