Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Poder, violência e o jornalismo

Por lgarcia em 18/04/2001 na edição 117

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COBERTURA

Muniz Sodré (*)

A violência é o modo de ser permanente do poder. Está aqui uma boa síntese do fenômeno do exercício destrutivo da força, feita um desses dias, num artigo de imprensa, pelo escritor mexicano Carlos Fuentes. Faltou-lhe dizer o que se entende por "poder".

Que tal poder é a gestão da zona de fronteira entre o determinado e o indeterminado na vida social?

Ou seja, o poder implica a decisão soberana sobre o que é possível ou impossível, admissível ou inadmissível, familiar ou estranho, vida ou morte. A decisão pode assumir formas "civilizadas", mas quando se arranha um pouquinho a pele dessa máscara, a animalidade mostra que estava sempre ali, à espreita. Isto vale para o poder de Estado ou para o poder de um indivíduo sobre o outro.

Assim é que, a propósito de um dessas rebeliões cada vez mais freqüentes em penitenciárias, a imprensa noticiou que presos amotinados em São Paulo assassinaram um de seus companheiros, esquartejaram-no e depois lhe assaram o coração. A clara exibição do poder de uma facção criminosa frente ao Estado reduplicava-se pela ação onipotente e regressiva sobre o corpo de um outro ser humano.

Não é nosso propósito aqui, porém, fazer alguma grande análise sobre a enigmática natureza da violência. Gostaríamos apenas de levantar o ponto problemático da especial atração da imprensa pelos fatos violentos.

Ora, alguém dirá, os fatos estão aí nus e crus, cabe ao jornalista noticiá-los tal e qual se apresentam. No entanto, levanta-se progressivamente para nós a suspeita de que, neste momento da História, talvez já não baste mais o clássico modelo de um jornalismo ancorado na pura e simples nudez dos fatos. A repetição crua de um gênero factual ? a "atualidade", a anglo-saxã news of the day ?, sem um adequado cenário compreensivo, pode estar escondendo a razão essencial do fato.

E há mesmo razões essenciais a serem trabalhadas a partir de ângulos diversos. Um deste é que a gestão tecnoburocrática da sociedade contemporânea, em seu movimento intrínseco de homogeneização das diferenças humanas, em seu patrimonialismo familial, corporativo e egoístico, tem ensejado uma urbs desregulada tanto no nível das relações com o meio`ambiente quanto no das relações intersubjetivas.

Contraponto mítico

A implantação "pelo alto" do modelo midiatizado, em face de um relaxamento acelerado dos laços tradicionais (comunitários, políticos), cria cidades desordenadas, infernais, com espaços vitais ou territórios humanos restritos, onde as pessoas tendem a comprimir-se psicologicamente sobre si próprias e, fisicamente, sobre as outras, em meio à onipresença do conflito entre miséria e bonança.

Esse novo modo de organização do espaço social é estruturalmente gerador de insegurança, já que as formas tradicionais de representação são lentas demais para apreender os movimentos tecnologizados da tecnoburocracia. Vive-se cada vez mais num universo de destruição permanente e durável dos valores. A sociedade tecno-econômica alimenta um niilismo latente que, tanto no plano intelectual como no prático-imediato, converge para uma hostilidade radical a qualquer transcendência ou qualquer normatividade ética.

Por compensação, os temas da catástrofe (natural ou técnica) e da insegurança pública (violência nas ruas, terrorismo, ameaças em geral) tomam-se caros tanto ao Estado ? que assim legitima a existência de seus aparelhos repressivos ? quanto à mídia, cuja forma de abordagem do real tem sido dramática e catastrófica. As ideologias políticas dão lugar pouco a pouco a ideologias de segurança pública.

A catástrofe, figura de síntese, espécie de teatralidade da miséria, do desastre e da violência presentes e crescentes no espaço metropolitano, funciona como um contraponto mítico para a continuidade da ideologia neoliberal, que prega a universalidade da economia de mercado, da democracia e da moralidade ocidental. Quanto maior a ameaça de catástrofe, maiores as supostas exigências coletivas de uma moral restauradora.

Fato e enunciação

A mídia é a principal gestora das enunciações em que o ato agressivo aparece como gênero catastrófico, gerador não de simples medo ? que todo vínculo social costuma acomodar ?, mas de medo excessivo, ou pânico. Sabemos que, do ponto de vista dramático, a violência é um recurso de economia discursiva: o soco ou o tiro do herói no vilão poupa o espectador de longas pregações morais contra o mal. É uma elipse semiótica com grande poder de sedução.

Mas também é preciso levar em conta toda uma tradição de representação da violência na cultura do Ocidente. Ela faz-se presente como exigência catástica, sob forma do terror e da piedade, na tragédia grega. Como esclarece Aristóteles (Poética), trata-se aí de uma purificação (metafórica) das paixões.

Já na Modernidade, a partir do teatro elizabetano, essa purificação afetiva seria substituída pelo que Gilles Dorflès designou como "uma participação cada vez mais sanguínea e sensual" por parte do público, explicando: "O prazer graças ao mal de outrem: o sadismo ante litteram (esse sentimento particular ao qual só duas línguas estrangeiras, ao que se sabe, deram um nome ? o alemão e o russo ? Schadenfreude e zloradstvo) era de tal maneira espalhado no século 17 que constituía a base autêntica de todo drama de sucesso e de uma boa parte do processo teatral da época".

De onde se origina esse prazer? Do desejo comum aos homens de fazer mal uns aos outros ? é a resposta clássica dada por Hobbes ?, na medida em que todos disputam um mesmo objeto, que é o poder. Como gladiadores, os indivíduos correm para a morte, matando-se mutuamente. Daí derivaria o prazer, muito forte, de assistir ao perigo ou à morte dos outros, de tornar-se espectador do sofrimento alheio.

Como se vê, há muito por trás de um acontecimento violento e de sua enunciação. Repensar o cenário interpretativo dos fatos absorvidos pela mídia pode ser uma das tarefas de um novo tipo de jornalismo, mais comprometido com a saúde ética do grupo social do que com os modelos comercialmente poderosos (e estruturalmente violentos) do jornalismo corporativo.

(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ.

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