Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Por que eu escrevo

Por lgarcia em 14/10/2003 na edição 246

FALA, ESCRITOR

George Orwell (*)


Publicado originalmente na revista Espaço Acadêmico n? 29, edição de outubro de 2003; <http://www.espacoacademico.com.br>


[Tradução: Eva Paulino Bueno; original escrito em 1947]

Desde a mais tenra idade, talvez desde os cinco ou seis anos, eu sabia que quando eu crescesse eu seria um escritor. Entre os dezessete e os vinte e quatro anos eu tentei abandonar esta idéia, mas eu tentei com a consciência que eu estava atacando a minha verdadeira natureza, e que mais cedo ou mais tarde eu teria que me acomodar e escrever livros.

Eu era o filho do meio numa família com três filhos, mas havia uma distância de cinco anos de cada lado, e eu raramente vi meu pai até completar os oito anos. Por esta e outras razões eu era bastante solitário, e logo desenvolvi os maneirismos desagradáveis que me tornaram impopular durante meus dias de estudante. Eu tinha o hábito de criança solitária de inventar histórias e ter conversas com pessoas imaginárias, e eu acho que desde o começo minhas ambições literárias estavam misturadas com o sentimento de ser isolado e desvalorizado. Eu sabia que tinha facilidade com as palavras e o poder de encarar fatos desagradáveis, e eu sentia que isto criava uma espécie de mundo privado no qual eu podia me recompensar pelas falhas na vida diária.

Entretanto o volume de escritas sérias ? quer dizer, que tinham intenção séria ? que eu produzi na minha infância não chegaram a meia dúzia de páginas. Eu escrevi meu primeiro poema aos quatro ou cinco anos, ditado à minha mãe, que o transcreveu. Eu não me lembro nada sobre este poema a não ser que era sobre um tigre e que o tigre tinha "dentes como cadeiras" ? uma frase até que bem boa, mas eu acho que o poema era um plágio do poema "Tiger, Tiger," de Blake. Aos onze anos, quando a guerra de 1914-18 começou, eu escrevi um poema patriótico que foi impresso no jornal local, e o mesmo se passou dois anos mais tarde, na ocasião da morte de Kitchener. De vez em quando, quando eu era mais velho, eu escrevia e geralmente nem terminava uns "poemas da natureza" ruins no estilo georgiano. Eu também tentei escrever um conto, mas foi uma derrota completa. E esta foi a soma total do meu trabalho sério durante todos aqueles anos.

Entretanto, durante todo esse tempo eu estive envolvido em atividades literárias. Pra início, havia o trabalho escolar que eu produzia rapidamente, facilmente e sem nenhum prazer pessoal. Além do trabalho de escola, eu escrevia versos para ocasiões especiais ? vers d?occasion ? poemas semi-cômicos que eu produzia ao que me parece agora em uma velocidade espantosa ? aos quatorze anos eu escrevi uma peça rimada, em imitação a Aristófanes, em uma semana-e ajudei a editar revistas da escola, tanto impressas como manuscritas. Estas revistas eram as coisas burlescas mais tolas que você poderia imaginar, e eu tive menos problemas com elas do que eu teria agora com o jornalismo mais barato. Mas ao lado disso tudo, por quinze anos ou mais, com as revistas agora eu estava fazendo um exercício literário de um tipo diferente: a invenção de uma contínua "história" sobre mim mesmo, um tipo de diário que existia somente na minha cabeça. Eu acho que este é um hábito comum a adolescentes e crianças. Quando eu era bem pequeno eu costumava imaginar que eu era, digamos, Robin Hood, e me colocava como o herói de emocionantes aventuras, mas logo a minha "história" deixava de ser narcisística de uma maneira crua, e se tornava mais e mais em uma mera descrição do que eu estava fazendo e das coisas que eu via. Por vários minutos um tipo de coisa assim passava pela minha cabeça: "Ele empurrou a porta e entrou no quarto. Uma réstia de luz do sol, filtrando através das cortinas de musselina, atingia a mesa, onde uma caixa de fósforos, meio aberta, estava ao lado do tinteiro. Com sua mão direita no bolso ele se moveu em direção à janela. Na rua lá embaixo um gato marrom perseguia uma folha morta," etc, etc. Este hábito continuou até os meus vinte e cinco anos, atravessando todos os meus anos não literários. Embora eu tivesse que procurar, e procurava, pelas palavras certas, eu parecia estar fazendo estes esforços descritivos quase contra minha vontade, sob uma espécie de compulsão vinda de fora. A minha "história" eu suponho que deve ter refletido os estilos dos vários escritores que eu admirei em diferentes épocas, mas agora o que eu me lembro é que ela sempre tinha a mesma qualidade meticulosamente descritiva.

Quando eu tinha mais ou menos dezesseis anos eu de repente descobri a alegria de meras palavras, isto é, dos sons e associações das palavras. As linhas do Paraíso Perdido


? Então ele com dificuldade e grande labor

Continuou: com dificuldade e grande labor ele

(So hee with difficulty and labour hard Moved on: with difficulty and labour hee)


Que agora não me parecem tão maravilhosas, me causava arrepios; e a escrita de "hee" por "he" (ele), era um prazer adicional. Quanto à necessidade de descrever coisas, eu já sabia tudo sobre ela. Então é claro que tipo de livros eu queria escrever, ou pelos menos se pudermos dizer que eu queria escrever livros naquele tempo. Eu queria escrever enormes romances naturalistas com finais infelizes, cheios de detalhadas descrições e sorrisos encantadores, e também cheias de passagens púrpuras em que as palavras fossem usadas parcialmente pelo prazer da usar a palavra. E de fato, meu primeiro romance completo, Burmese Days ? Dias na Birmânia ? que eu escrevi quando tinha 30 anos mas que tinha projetado muito antes, é este tipo de livro.

Eu dou toda esta informação de fundo porque eu não acho que alguém pode penetrar os motivos de um escritor sem saber alguma coisa do seu desenvolvimento anterior. Este assunto será determinado pela época em que ele vive ? ou pelo menos isto é verdade nos tempos tumultuosos e revolucionários de épocas como a nossa ? mas antes que ele comece a escrever ele terá adquirido uma atitude emocional da qual ele nunca vai escapar completamente. É seu trabalho, sem dúvida, disciplinar seu temperamento e evitar ficar estagnado em algum estágio imaturo, em algum temperamento perverso; mas se ele escapa completamente de todas as suas influências iniciais, ele terá matado o impulso de escrever. Colocando de lado a necessidade de ganhar a vida, eu acho que há quatro motivos para escrever, ou pelo menos para escrever prosa. Eles existem em diferentes graus em cada escritor, e em qualquer escritor as proporções variam de tempo em tempo, de acordo com a atmosfera em que ele está vivendo. Os motivos são:

Completo egoísmo. Desejo de parecer esperto, de ser comentado, de ser lembrado depois da morte, de se desforrar dos adultos que esnobaram você na infância, etc., etc. Os escritores compartem esta característica com cientistas, artistas, políticos, advogados, soldados, negociantes bem sucedidos ? em resumo, com toda a camada superior da humanidade. A grande massa dos seres humanos não é agudamente egoísta. Depois dos trinta anos eles quase abandonam completamente o sentido de serem pessoas individuais-eles vivem principalmente para os outros, ou são sufocados embaixo de trabalhos enfadonhos. Mas também há uma minoria de pessoas talentosas, voluntariosas, que estão determinadas a viverem suas próprias vidas até o fim, e os escritores estão nesta classe. Os escritores sérios, eu tenho que admitir, são ainda mais vaidosos e egocêntricos que os jornalistas, embora sejam menos interessados em dinheiro.

Entusiasmo estético. A percepção da beleza no mundo exterior, ou, por outro lado, nas palavras e no seu arranjo correto. O prazer do impacto de um som no outro, na firmeza da boa prosa e do ritmo de uma boa história. O desejo de compartir uma experiência que se sente que é valiosa e não deveria ser perdida. O motivo estético é muito fraco em uma porção de escritores, mas mesmo um escritor de panfletos ou um escritor de livros escolares tem palavras e frases preferidas que apelam a ele por razões não utilitárias; ou talvez ele tenha sentimentos fortes sobre tipografia, largura das margens, etc. Além do nível de um guia de horário de trens, nenhum livro está livre de considerações estéticas.

Impulso histórico. O desejo de ver as coisas como elas são, de descobrir os fatos verdadeiros de guardá-los para a posteridade.

Propósito político (usando a palavra "político" no sentido mais amplo possível). O desejo de levar uma palavra em uma certa direção, de alterar a idéia de outras pessoas sobre o tipo de sociedade pela qual elas devem aspirar. Mais uma vez, nenhum livro é genuinamente livre de preconceito político. A percepção de que a arte não deveria ter nada a ver com a política é, nela mesma, uma atitude política.

Pode-se ver como estes vários impulsos devem lutar uns com os outros, e como eles devem flutuar de pessoa a pessoa, de um tempo a outro. Por natureza-considerando "natureza" o estado que você atinge quando se torna adulto-eu sou uma pessoa na qual os três primeiros motivos seriam mais fortes que o quarto. Em uma época de paz eu talvez tivesse escrito livros ornamentais e meramente descritivos, e teria permanecido quase descuidado de minhas lealdades políticas. Mas tal foi o caso que eu fui forçado a me tornar em uma espécie de escritor de panfletos. Primeiro, eu passei cinco anos em uma profissão inadequada (a Polícia Imperial Indiana, em Burma), e depois eu passei por pobreza e um sentimento de derrota. Isto aumentou o meu ódio natural por autoridade, e me tornou pela primeira vez completamente consciente da existência das classes trabalhadoras, e o trabalho em Burma me deu algum entendimento da natureza do imperialismo; mas estas experiências não foram suficientes para me dar uma orientação política bem delineada. Então vieram Hitler, a guerra civil espanhola, etc. No final de 1935 eu ainda não tinha alcançado uma decisão firme. Eu me lembro de um pequeno poema que eu escrevi naquela data, expressando meu dilema:


Eu teria sido um vigário feliz

Há duzentos anos atrás

Pregando a condenação eterna

E vendo minhas nozes crescerem;

Mas, enfim, tendo nascido em um tempo mau,

Eu não alcancei aquele recanto feliz,

Porque o cabelo cresceu sobre meus lábios superiores

E os clérigos agora se barbeiam.

E mais tarde ainda havia bons tempos,

Nós ficávamos contentes com qualquer coisa,

Nós púnhamos nossos problemas para dormir

Nos interiores das árvores.

Na ignorância nós ousamos possuir

As alegrias que agora desmembramos:

O canarinho na macieira

Poderia fazer nossos inimigos tremerem.

Mas as barrigas das meninas e os damascos,

Rodam pelo córrego ensombreado,

Cavalos, patos voando na madrugada

Tudo isso era um sonho.

É proibido sonhar de novo;

Nós aleijamos nossos sonhos e os escondemos:

Os cavalos são feitos de aço e cromo

E homenzinhos gordos os dirigem.

Eu sou o verme que nunca se transformou,

O eunuco sem um harém,

Entre o padre e o comissário

Eu caminho como Eugene Aram;

E o comissário está lendo minha sorte

Enquanto o rádio toca,

Mas o padre prometeu um Austin Seven

Porque o Duggie sempre paga.

Eu sonhei que vivia em corredores de mármore,

E acordei pra descobrir que era verdade;

Eu não nasci para uma época destas;

O Smith nasceu? E o Jones? E você?


A guerra espanhola e outros eventos em 1936-37 pesaram na balança e depois desta época eu sabia quais eram minhas opiniões. Cada linha de trabalho sério que eu escrevi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e a favor do socialismo democrático, como eu o entendo. Me parece uma grande tolice, num tempo como o nosso, imaginar que uma pessoa pode evitar escrever sobre tais assuntos. Todo mundo escreve sobre eles de uma forma ou de outra. É simplesmente uma questão de que lado você se coloca e que enfoque você segue. E quando mais a pessoa está consciente de suas atitudes políticas, mais a pessoa tem a chance de agir politicamente sem sacrificar sua integridade estética e intelectual.

O que eu mais quis fazer nos últimos dez anos foi transformar a escrita política em arte. O meu ponto de partida é sempre um sentimento de tomar partido, e um sentido de injustiça. Quando eu me sento para escrever um livro, eu não me digo a mim mesmo, "eu vou produzir uma obra de arte". Eu o escrevo porque há alguma mentira que eu quero expor, algum fato para o qual eu quero chamar a atenção, e a minha preocupação inicial é ser ouvido. Mas eu não poderia fazer o trabalho de escrever um livro, ou mesmo um artigo longo para uma revista, se isso não fosse também uma experiência estética. Qualquer um que tome o tempo de analisar meu trabalho verá que mesmo quando ele é pura propaganda ele contém mais do que um político profissional consideraria relevante. Eu não sou capaz, e nem quero, abandonar completamente a visão do mundo que eu adquiri na infância. Enquanto eu continuar vivendo eu continuarei a ter sentimentos fortes sobre estilo de prosa, e a amar a superfície da terra, e a ter prazer em objetos sólidos e em retalhos de informação inútil. Não adianta tentar suprimir aquele lado de minha pessoa. O trabalho consiste em reconciliar o que gosto e o que não gosto com o essencialmente público, atividades não-individuais que esta época joga por cima de todos nós.

Não é fácil. Isto levanta problemas de construção e de linguagem, e traz de volta, de uma maneira nova, o problema da verdade. Quero dar um exemplo bem cru do tipo de dificuldade que isso traz. Meu livro sobre a guerra civil espanhola, Homenagem à Catalunha, é claramente um livro francamente político, mas de maneira geral está escrito com um certo distanciamento e cuidado com a forma. Eu tentei neste livro contar toda a verdade sem violentar meus instintos literários. Mas, entre outras coisas o livro contém um capítulo longo, cheio de citações de jornais e tais coisas, defendendo os trotskistas que foram acusados de estar envolvidos com Franco. Claramente tal capítulo, que depois de um ou dois anos perderia seu interesse para qualquer leitor comum, deve arruinar o livro. Um crítico que eu respeito me passou um sermão sobre este capítulo. "Porque você colocou todas estas coisas aqui?", ele disse."Você transformou o que poderia ter sido um bom livro em mero jornalismo." O que ele disse era verdade, mas eu não poderia ter feito o livro de outra forma. O que aconteceu é que eu sabia o que muito poucas pessoas na Inglaterra sabiam, que homens inocentes estavam sendo falsamente acusados. Se eu não estivesse com tanta raiva deste fato, eu não teria escrito o livro.

De uma forma ou de outra este problema retorna.O problema da língua é mais sutil tomaria menos tempo para discutir. Eu apenas direi que nos últimos anos eu tenho tentando escrever com menos floreios e com mais exatidão. Em qualquer caso eu acabo descobrindo que no momento em que você aperfeiçoa um estilo de escrita, você já o ultrapassou. A fazenda dos animais (Animal Farm) ["A revolução dos bichos" em outras traduções para o português] foi o primeiro livro em que eu tentei, com total consciência do que eu estava fazendo, fundir o propósito político e o propósito artístico. Faz sete anos que eu não escrevo nenhum romance, mas eu espero escrever outro logo. Este vai estar fadado a ser um fracasso, todo livro é um fracasso, mas eu sei já com alguma certeza o livro que quero escrever.

Relendo as últimas duas páginas, eu vejo que fiz parecer que os meus motivos para escrever eram todos de espírito completamente público, para o bem comum. Mas eu não quero que esta seja a impressão final. Todos os escritores são vaidosos, egoístas, e preguiçosos, e no fundo dos seus motivos há um mistério. Escrever um livro é uma luta horrível, e cansativa, e o processo se parece com uma batalha contra uma doença longa e dolorosa. Ninguém embarcaria em tal jornada se não fosse impulsionado por algum demônio que ele não pode resistir nem entender. Pelo que sabemos aquele demônio é simplesmente o mesmo instinto que faz com que o bebê chore para conseguir atenção. E, ao mesmo tempo, também é verdade que qualquer um escreveria só coisas ilegíveis, a não ser que a pessoa lute constantemente para esconder a própria personalidade. A boa prosa é como uma janela. Eu não posso dizer com certeza quais dos meus motivos são os mais fortes, mas eu sei quais deles merecem ser seguidos. E, olhando para o trabalho que eu já fiz, eu vejo que é invariavelmente onde eu não tinha um propósito político que eu escrevi livros sem vida e fui tragado por passagens púrpuras, sentenças sem significado, adjetivos decorativos e, de maneira geral, tolices.

(*) Escritor nascido em 25 de junho de 1903 (Motihari, Índia ) e morto em 21 de janeiro de 1950 (Londres); mais informações em <http://www.k-1.com/Orwell/>

Livros de George Orwell


**Romances: Burmese Days (Dias na Birmânia, 1934); A Clergyman’s Daughter (A Filha do Reverendo, 1935); Keep the Aspidistra Flying (O Vil Metal, 1936); Coming up for Air (Na sombra de 1984, 1939); Animal Farm: A Fairy Story (A Revolução dos Bichos / O Triunfo dos Porcos, 1945); Nineteen Eighty-Four (Mil Novecentos e Oitenta e Quatro, 1949)

**Não-Ficção: Down and Out in Paris and London (Na Pior em Paris e Londres, 1933); The Road to Wigan Pier (A caminho de Wigan / O caminho para Wigan, 1937); Homage to Catalonia (Lutando na Espanha / Homenagem à Catalunha, 1938)

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