Quarta-feira, 17 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Por que os dicionários brasileiros são tão ruins?

Por lgarcia em 20/03/2000 na edição 86

“Perdi a conta”, diz Kanavilil Rajagopalan quando lhe perguntam a quantidade de línguas que fala. Nascido na Índia, Rajan ,como é chamado – estudou na Inglaterra e nos Estados Unidos, casou-se com uma espanhola e veio para o Brasil, onde mora há 23 anos. Professor de Lingüística na Unicamp e com artigos publicados em revistas especializadas de diversos países, o pesquisador vem despertando polêmica por onde passa.

Enfático em suas afirmações, Rajan é uma das poucas vozes no Brasil que luta por uma terceira via de entendimento da globalização e seus efeitos, sobretudo na linguagem, uma via que não seja nem o ódio cego nem a paixão inquestionável. Essa forma de pensar o mundo pós-moderno faz parte de um movimento surgido nos Estados Unidos na década de 80, o integracionismo, tendo à frente o nome de Roy Harris, fundador da revista Language and Communication.

O ponto central desse movimento é pensar os conceitos a partir da sua dimensão sócio-histórica e a sua transformação no tempo. Assim ele explica o surgimento, a partir do século passado, de um conceito de língua diretamente atrelado a povo, nação, país. Como se, com a exasperação frente a uma nova realidade – a germinante globalização – a língua se tornasse a grande bandeira de luta em que a palavra de ordem é “uma nação, uma língua”. Falar em identidade nacional hoje é inevitavelmente falar em identidade lingüística.

Sempre com um tom filosófico, Rajan discute a aliança entre língua e nação e propõe a sua ruptura para que, então, se possa enxergar o que são esses fenômenos e o tipo de vida que o mundo hoje nos impõe, uma vida sem amarras patrióticas e aberta a todas as possibilidades culturais. “Eu não digo mais eu sou isso’, mas que eu estou sendo isso agora e não sei o que serei amanhã”, afirma. Rajan esteve em Goiânia participando do Seminário Nacional de Lingüística e Língua Portuguesa na Faculdade de Letras da UFG, quando concedeu esta entrevista.

O que significa hoje discutir identidade lingüística?

Kanavilil Rajagopalan – Identidade lingüística basicamente é uma questão não mais lingüística, mas sociológica, política. Eu entendo que cada vez mais nós estamos tratando a língua como uma bandeira, mais do que um fato consumado. Antes que esse fenômeno de globalização começasse a ficar em evidência, ainda era muito comum pensar que a língua era um mero fato, você fala ou não uma língua e ponto final. Naquele tempo o monolingüismo era norma, vez por outra um diplomata tinha de aprender outra língua, ou um tradutor, mas nunca houve esse fenômeno que nós estamos presenciando, uma incursão de tantos idiomas e tantas culturas numa velocidade que ninguém controla mais. Nossas personalidades estão ficando cada vez mais complexas, você não é mais um ser pronto e acabado, nunca foi aliás, e hoje, então, não há mais como provar isso, nós “estamos sendo” a toda hora, se isso faz sentido, se a gente pode esticar a língua portuguesa. Quer dizer, eu não “sou” mais, eu “estou sendo” alguma coisa.

Como o senhor analisa a reação das pessoas de só agora,face à globalização, se mostrarem preocupadas com a questão da identidade?

Rajan – É exatamente aí que queria chegar. Veja bem, é porque a identidade nunca foi pensada dessa forma, porque não havia nenhum problema a ser resolvido, as pessoas achavam que “eu sou eu” e ponto final. Mas agora, mais e mais pessoas estão tomando consciência de que “eu não sou exatamente eu”, ou que pelo menos eu não sou mais o eu que era ontem ou anteontem, que eu estou mudando constantemente. Mas essa não é uma questão recente, nos primórdios da filosofia grega havia esse problema, nós temos um temor forte dessa fluidez, dessa mudança constante, a gente gostaria de ser seres fixos e não mudar.

E o que mudou nesse pensamento daquela época para os dias globalizados de hoje?

Rajan – Infelizmente, o que está acontecendo agora é que já não há mais condições de ficar sonhando com isso, o mundo está mudando com tal velocidade que não há mais como fingir que somos aqueles seres prontos e acabados, aí a nossa agonia.

É como se nos fosse tirado o chão…

Rajan – Exato, a idéia de chão é uma metáfora muito interessante porque é o ponto onde nos seguramos e o chão simboliza isso. Mas o que eu entendo é que, a essa altura, é preciso pensar diferente, como, por exemplo, mostra o sociólogo americano Samuel Huntington. Muita gente pensa que a globalização é uma influência só, que acaba com todas as identidades, que o mundo vai virar só a cultura McDonald’s. Agora mesmo eu fiquei horrorizado ao ver um comentário do Arnaldo Jabor, da Globo, dizendo que depois da Guerra Fria vem agora Maomé contra McDonald’s. Eu acho que são análises muito simplistas, o que nós não estamos percebendo – e não estou dizendo nenhuma novidade – é que essa coisa de dizer que a nova aliança é o Oriente, é o árabe, são ficções de loucura.

Por que essas ficções permeiam tanto o imaginário ocidental?

Rajan – Porque o ocidente ainda tem dificuldade em gerir a idéia de que nós estamos vivendo na era da multiplicidade. Ainda se pensa que quem não é meu amigo é portanto inimigo, o mundo se divide entre amigos e inimigos. E o que nós estamos vendo é que esses conceitos estão totalmente ultrapassados.

Inclusive os conceitos de Ocidente e Oriente?

Rajan – Exato.

E como poderíamos nos referir a esses dois mundos, se é que ainda são dois mundos diferentes?

Rajan – O nosso grande problema é querer tentar definir isso. Enquanto a gente não tiver superado essa lógica binária que rege o nosso pensamento, a gente vai sempre tentar se definir em oposição ao outro. Os gregos tinham essa noção, para eles o bárbaro não era uma categoria fixa. Na Grécia antiga, o xenos (estranho, estrangeiro) que compartilhasse o pão do jantar era parte do oikos (espaço privado, casa). O “eles” era uma categoria extremamente fluida, o que nós não temos, ou melhor, agora nós estamos vivendo isso, mas temos dificuldade em aceitar que as categorias tenham essa fluidez.

Se fôssemos julgar a globalização, o que o senhor diria, é positiva ou negativa?

Rajan – Eu não sei, isso foge à minha competência. Eu não vejo como poderia ser diferente. Se isso é bom a longo prazo, não sei. Mas eu entendo que isso que nós estamos vivendo é uma decorrência natural, inescapável, de uma série de acontecimentos. É bobagem alguém dizer que a globalização é o recrudescimento do capitalismo clássico. O capitalismo, como foi se desenvolvendo, tinha de entrar nessa fase onde tem capital, mas não tem capitalista, não tem o cara que está dominando. O estado de controle dos monopólicos é completamente pulverizado. Uma Mannesman., que é o orgulho da Alemanha hoje, pode virar amanhã uma firma inglesa. É nesses momentos que o nacionalismo começa a surgir, porque nós estamos esperneando. Se a Esso quiser comprar a nossa Petrobrás vai haver gritaria, porque é nesses momentos que o sentimento de pátria surge. Mas o que a gente não está percebendo é que, no mundo inteiro, esse capital está ficando pulverizado, é uma conseqüência do capitalismo, mas também não é mais o capitalismo clássico.

Poderíamos, então, inventar outro nome para o modelo econômico no qual vivemos hoje?

Rajan – Perfeitamente. Nós estamos falando de um capitalismo sem capitalista. Ações estão sendo negociadas, qualquer um pode comprar qualquer pedaço de qualquer lugar.

Como fica a população desses países que estão sendo comprados?

Rajan – Aí é uma questão a ser pensada pelos economistas. A mim compete pensar, eu acho, o que tudo isso tem, em termos de conseqüência, no nosso modo de pensar a linguagem.

Essa preocupação com uma identidade lingüística não representaria um medo de morte da própria língua face ao contato com outros idiomas politicamente mais fortes?

Rajan – Acho que não é morte da língua, é morte de nós mesmos. O medo maior é esse, a gente não quer morrer, então a gente quer grudar em alguma coisa. Talvez sempre tenha sido assim, mas hoje não há como negar, a língua está sendo usada como uma bandeira que a gente levanta. A língua tem essa força política e, muitas vezes, a gente deixa de levar essa questão em conta. Hoje língua é uma bandeira política, antes era um fato consumado.

Esse não é um tema muito abordado nas universidades brasileiras…

Rajan – Está pipocando, ainda muito timidamente. A Língüística, enquanto uma disciplina, ainda não está dando conta disso.

Como ficam os povos de línguas minoritárias, como os povos indígenas no Brasil que ainda conservam suas línguas da pré-colonização?

Rajan – Enquanto bandeira, você tem de respeitar, mas isso é urna questão já passada. A gente ainda fica agarrado a esse último traço do passado, se eu perder isso eu estou morto, mas querendo ou não a própria língua está mudando o tempo todo em qualquer circunstância, é inevitável, sempre ocorreu. E não é isso que está sendo posto em jogo, não é o fato, é a bandeira. Por isso é preciso o não-levantar essa bandeira.

E aceitar o que está acontecendo?

Rajan – Eu não estou fazendo apologia da globalização, estou procurando entender, a gente não pode ficar só na bandeira. Por isso me refiro a Huntington, foi um cara que chamou a atenção para o fato de que enquanto tem essa onda de dizer que tudo está sendo pasteurizado, homogeneizado, se está esquecendo algo muito concreto, que o mundo não está trabalhando com isso, o mundo está trabalhando ainda, em muitos sentidos, dialeticamente, da mesma forma que acontece a “americanização”, estão pipocando focos de resistência também. O nacionalismo está surgindo de uma forma muito violenta em muitas partes do mundo. Esse nacionalismo é resposta a esse imperialismo que está em vigor. Muita gente acha que é só pasteurização, mas não é.

Falar mais de uma língua será a regra também no Brasil?

Rajan – Disso não tenho dúvida nenhuma, já está acontecendo. No aeroporto de Congonhas, onde estive recentemente, fiquei impressionado. Quantas línguas estava ouvindo? Era incrível a quantidade de idiomas, e não era de turistas, mas de pessoas que vivem aqui, que falam o português.

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