Domingo, 17 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > VIAGENS DO PRESIDENTE

Por trás de uma cobertura

Por lgarcia em 23/12/2003 na edição 256

VIAGENS DO PRESIDENTE

Muniz Sodré (*)

O que a imprensa brasileira deixou de mostrar na cobertura da viagem do presidente Lula ao Oriente Médio? Para mim, a incongruência dos discursos oficiais diante da realidade popular naqueles países. Eu me encontrava no Egito, a convite da Unesco, para uma conferência sobre "novos humanismos emergentes" na célebre Biblioteca de Alexandria. Assisti pela televisão ao encontro do nosso primeiro mandatário com seu colega egípcio. Lula, ao que me consta, não leu texto nenhum, mas fez discurso de estadista, prometendo a Mubarak o empenho do Brasil para a solução dos conflitos no Oriente Médio. Por mais afastado que esteja o Brasil do teatro dos acontecimentos, por assim dizer, a fala presidencial foi importante, pareceu agradar ao egípcio, que não escondia a satisfação.

Isto transpareceu na imprensa escrita e na televisão. Al-Ahram, jornal de prestígio, estampou fotos e textos na primeira página. É verdade que esse jornal, exceto sua edição semanal impressa em Londres, não tem mais a vontade própria que outrora lhe atribuíam e acaba, segundo me disseram fontes locais, "fazendo tudo que seu mestre manda". O mestre é o chefe de um Estado que recobre o território nacional com uma ditadura civil-militar de impressionante aparato armado, presente desde a entrada dos museus até a porta dos hotéis, por onde se penetra sob o mesmo sistema de vigilância dos aeroportos. Uma moedinha a mais no bolso, soa um apito e uma montanha de músculos aparece com seu instrumento de auscultação policial.

Potência milenar

Prevenção e antiterrorismo são as razões declaradas para tudo isto. Para um país que depende largamente do turismo, foi catastrófico o atentado que matou dezenas de turistas no Vale do Luxor há cerca de dois anos. Sabe-se que o trajeto terrestre ou fluvial ao longo do Nilo já não oferece maiores garantias de segurança. Há o temor generalizado de que, uma vez retirado o formidável aparato policial-militar, o fundamentalismo islâmico tome conta de tudo. Por isto, os Estados Unidos despejam ali bilhões de dólares em armamentos.

Ao mesmo tempo, porém, a vida nas ruas egípcias revela algo geralmente não incorporado pela pura e simples notícia jornalística: uma diferença cultural, ligada ao modo particular de vida do povo. É o que se chamou outrora de "espírito do povo" (o velho Volksgeist alemão, que serviu de base para uma visão historicista do mundo), noção aos poucos abandonada e, aparentemente, sepultada pelo neoliberalismo galopante. Este, como se sabe, é a mais pura emanação do capitalismo financeiro e, como tal, tem horror a gente e à sua diversidade cultural.

Assim, à retórica do noticiário sobrepõe-se nas ruas do Cairo e de Alexandria (cidade fundada três séculos antes de Cristo) um espírito difícil de se fazer entender pela mentalidade neoliberal. É visível e forte no souk (mercado ou zona de comércio tradicional) alexandrino ? uma rede informal de solidariedade e de pertencimento ao território que se afigura mais permanente do que o alvoroço mercadológico do império americano. No simples gesto de um comerciante que oferece chá, e o braço ao cliente para pesquisar uma mercadoria numa outra lojinha remota, mostra-se a força de uma singularidade inassimilável pelo frio gerencialismo europeu.

As invasões se sucedem, e o território continua com sua potência milenar, acabrunhada talvez, mas viva. As cidades ainda parecem mais um desdobramento da Polis do que uma imitação servil da úrbis imperial.

Fenômeno jornalístico

A pobreza é grande, no entanto. No Cairo, uma população que oscila entre 16 e 20 milhões de pessoas povoa um espaço onde é escasso o emprego formal, e as desigualdades socioeconômicas saltam aos olhos. De certo modo, o povo egípcio ainda vive de seus faraós, isto é, do que lhe foi legado como monumentos, tumbas e tradições, que hoje alimentam o indispensável turismo. Terrorismo fundamentalista à parte, inexiste, porém, a cruel violência que hoje assola as grandes cidades brasileiras. O risco do punguista não foi substituído pelas guerras de quadrilhas, nem por menores assaltantes com armas pesadas nas mãos, como aqui. Ainda não existe a guerra civil molecular de que falava Hans Magnus Enzensberger, ou seja, a guerra autodestrutiva das grandes cidades em pleno curso no Brasil.

Comparações desta ordem podem suscitar para o jornalista a questão do que socialmente se oculta por trás de cada notícia. Na cobertura de uma viagem presidencial, o noticiário pode veicular as aparências de uma política progressista ou corajosa, supostamente reflexiva de uma situação nacional forte. Aí, então, a política externa é capaz de ser considerada a "jóia da Coroa", a que se referiu a imprensa carioca a propósito do caso brasileiro.

De fato, seria difícil de imaginar um ministro das Relações Exteriores como Celso Amorim tirando os sapatos diante de um guarda de alfândega americano, como foi o caso de seu predecessor. Mas por trás de toda a pompa das palavras oficiais no Oriente Médio, o que há mesmo em comum entre árabes e sul-americanos é a inquietação de populações sem políticas sociais consistentes e sempre alvos da sanha financeira.

Essa inquietação, que não transparece nos grandes jornais, nem nas redes da televisão mercantil, se deixa entrever na programação da rede al-Jazira, o grande fenômeno jornalístico do Oriente Médio. Os jornalistas de todo o mundo devem prestar maior atenção a essa rede: de certo modo, ela está sendo tão importante para a consciência árabe quanto foi o pan-arabismo no passado. Dali se pode extrair alguma lição para a mídia em crise.

(*) Jornalista, escritor e professor-titular da UFRJ

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