Quarta-feira, 13 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > e)

Por um novo tratamento da notícia

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

MÍDIA E EDUCAÇÃO

Marcos Marques de Oliveira (*)

Os professores Roberto González e Guadalupe Berturssi, da Universidade Pedagógica Nacional do México, estiveram, em 29 de janeiro deste ano, na Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF) para apresentar o Anuário Educativo Mexicano, um programa de pesquisa que tem o objetivo de analisar como a imprensa daquele país trata assuntos da área educacional. Realizado desde 2000, o Anuário está em sua terceira edição registrando a história educativa recente e analisando os vínculos entre as produções acadêmica e jornalística.

Além da publicação impressa, o programa está disponível em CD-ROM e logo poderá ser acessado pela internet. No entanto, o aspecto mais interessante será posto em prática no segundo semestre deste ano, quando a universidade oferecerá gratuitamente aos jornalistas uma oficina de debates sobre a forma como os pesquisadores vêem a veiculação de notícias relacionadas à educação. Segundo Guadalupe Bertussi, “será interessante observar como os jornalistas se sentem no papel de observados, e não de observadores”.

A produção do Anuário envolve, além de professores e alunos, uma dezena de especialistas que participam com artigos sobre os temas encontrados na leitura de 42 jornais nacionais e regionais do México. Depois da leitura e seleção, o material é analisado pelos especialistas, geralmente pesquisadores acadêmicos e técnicos do governo. Ao fim de cada edição, os responsáveis pelo projeto preparam a “crônica do ano”, na qual fazem uma releitura crítica dos artigos e dão visibilidade aos temas relegados pela imprensa.

Entre as hipóteses levantadas pela pesquisa, muitas poderiam ser encontradas em pesquisas no Brasil: a) a dispersão das notícias educacionais pelas seções dos impressos; b) uma apresentação quase sempre laudatória, de acordo com interesses de governos e empresas; c) cobertura precária e parcial de assuntos que deveriam ser tratados mais seriamente; d) informação pouco objetiva; e) a falta de um espaço cativo para a educação nas edições diárias.

No que se refere às temáticas, a situação não é diferente. Em especial, destacam-se os efeitos das reformas do Estado mexicano sobre a área educacional, que motivou a proliferação de instituições de ensino particulares no nível superior e a ofensiva aos direitos trabalhistas dos servidores públicos (o que vem provocando a resistência dos professores, inclusive com muitas greves). Modificações tecnológicas, aumento da certificação através de cursos profissionalizantes, tráfico de drogas e o recrudescimento da violência nas escolas também são fatos em comum com a realidade brasileira.

Ao sintetizar a produção jornalística sobre educação, a importância social deste vasto e trabalhoso projeto da Universidade Pedagógica Nacional do México torna-se evidente. Além de servir de material de pesquisa para estudiosos e ponto de referência para novas políticas públicas, o Anuário possibilita o repensar do fazer jornalístico sobre um assunto tão propalado como fundamental para a ordem democrática, mas muito mal tratado, com raras exceções, pelos meios de comunicação.

Outras vozes

A expectativa dos responsáveis pelo projeto é grande quanto às oficinas. Roberto Gonzáles afirma que o objetivo não é confrontar o papel do jornalista, “ensinando” a ele uma nova forma de veicular matérias sobre o tema. O desafio é pensar com eles o que caracteriza uma notícia educacional, quais os atores que participam deste processo, quais os conflitos que subjazem à área do ensino e quais os seus determinantes políticos, culturais e econômicos.

A princípio, este exercício teórico sobre o processo educativo pode não ser atrativo para um grupo de profissionais abarrotados de trabalho, que tem uma relação conflituosa com o tempo, com condições de prazo exíguas e quase inumanas. Mais, o receio demonstrado pelos jornalistas ao assinar o pedido de autorização para a reprodução das matérias demonstrou, segundo os professores, a desconfiança do meio jornalístico em relação à academia.

No entanto, talvez esta seja uma oportunidade rara, para os profissionais da imprensa, de dialogar com pessoas que querem colaborar com o fazer jornalístico, mas que não admitem um tratamento vulgar de um assunto tão relevante para a sociedade. Ao ser questionada e chamada de “louca” por querer tentar se aproximar, desta forma, de uma categoria que pensa “não ter nada que aprender”, Guadalupe Berturssi responde que o interesse em colocar lado a lado acadêmicos e jornalistas não deve ser visto como um interesse corporativo, de ambas as partes. “O que está em jogo, diz, não é a verdade das notícias, mas o que é verdade na notícia. Nosso objetivo não é ?pautar? os jornais, mas defender a idéia de que um jornalismo de pesquisa é necessário”.

O grande mérito de trabalhos como este desenvolvido pela universidade mexicana está em não corroborar com o aforismo de que “aquilo que não está na mídia não está no mundo”. Se é verdade que, para o bem ou para o mal, a palavra da imprensa ajuda a configurar a realidade social, é mais concreto ainda constatar que a palavra da imprensa não possui o monopólio deste processo. E, quanto menor o oligopólio da imprensa e a auto-suficiência dos jornalistas com suas “fontes” costumeiras, maior a possibilidade de outras vozes serem ouvidas.

(*) Jornalista e doutorando do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense

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