Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O FUTURO É AGORA

Por uma redemocratização real

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

O FUTURO É AGORA

Luciano Martins Costa (*)

O mercado mundial de divisas negocia diariamente um volume superior a 2 trilhões de dólares. O número de subnutridos em todo o planeta alcança a cifra de 1 bilhão de indivíduos. O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, anuncia resultado de pesquisa na qual se constata que dois terços dos cidadãos do mundo ? incluídos habitantes das democracias que lideram a economia mundial ? não se sentem representados por seus governantes. Analistas das mais reputadas universidades do mundo apontam o rápido desmanche de quase todos os paradigmas que sustentaram até aqui o modelo de desenvolvimento nascido com a revolução industrial. Responda rápido: como você classificaria a soma dessas realidades? A mãe de todas as crises? O triunfo perverso do capitalismo? Apocalipse? O fim do Estado democrático? Ou oportunidade?

Citei neste posto de observação, semana passada, um estudo que pude realizar entre 1999 e 2001, sobre os modelos mentais predominantes entre executivos em atividade no Brasil [veja remissão abaixo]. O resultado: um perfil extremamente conservador, visões de mundo feitas de lugares-comuns ou alimentadas por livros de auto-ajuda, daqueles que fazem o sucesso das livrarias de aeroporto. A obsessão coletiva é pelo resultado do negócio. As metas, muitas vezes completamente irreais, são traçadas nas matrizes das organizações transnacionais, atravessam toda a rede de suprimentos e atingem até mesmo a microempresa que fornece serviços de limpeza a uma obscura filial perdida na periferia do sistema. Sobre isso, a revista Exame traz, em sua última edição (n? 800), uma corajosa reportagem colocando em dúvida a validade do sonho de fazer carreira numa grande multinacional.

Com alguma reflexão, pode-se afirmar que, na cultura comum das organizações de negócios, a diferença básica entre elas ou entre os setores em que se dividem, diante da questão do resultado, é a noção de prazo: para uns, curto prazo é um ano; para outros, é um mês, mas poucos correm riscos reais tendo em conta outros resultados que seriam tangíveis se houvesse a percepção de um valor específico no conhecimento produzido pelo capital em ação. Por não enxergar essa riqueza, a organização transforma todos os gestores, mesmo aqueles dedicados às chamadas responsabilidades sociais, em gestores de capital. Uma das mais claras conseqüências dessa distorção é a "síndrome de Alphaville": na comunidade dos iguais, todos se vestem da mesma forma, todos pensam igual, têm os mesmos desejos, usam a mesma linguagem e se distanciam cada vez mais da realidade multidimensional, multicultural que o mundo vai revelando.

Erros grosseiros nas escolhas pessoais de executivos ? e, por conseqüência, nas escolhas estratégicas de empresas ? nascem da incapacidade dos indivíduos de enxergar a diversidade como patrimônio. No entanto, você sabe, desde o curso primário, que a diversidade é a razão de ser da vida.

Papel da imprensa

Movamos, então, o leme, e, como no diálogo de Platão, vejamos se podemos pilotar esta conversa na direção que nos interessa, ou seja, rumo à observação da imprensa. As constatações e reflexões acima também dizem respeito às empresas de comunicação, e sobre elas exercem duplo efeito: na gestão propriamente dita de tais empresas e no fato de que o público estudado ? homens e mulheres de negócio ? constitui a principal força da sociedade moderna, alvo preferencial da maioria dos meios de comunicação, fonte direta ou indireta dos recursos que a mídia necessita para sobreviver.

A crise econômica renitente, o recrudescimento e crescente organização da violência, o terror sem fronteiras, são sinais de que a humanidade, afinal, se defronta com a impossibilidade de seguir produzindo riqueza sem atentar para a urgência de um novo sistema, cujos ensaios ainda são tímidos demais nas salas de alguns poucos gestores.

Noções de responsabilidade social, desenvolvimento humano sustentado e consciência ecológica ainda são pregadas com o estilo dos primeiros evangelizadores, e o indivíduo consciente é apresentado ao retrato finalizado de sua impotência. A mídia trata desses temas como quem anuncia um concílio de santos, quando deveria ser prática generalizada.

O sistema falhou e o sonho das grandes mudanças coletivas se esvaiu. É preciso criar um novo conhecimento capaz de conduzir à revolução individual da qual possa brotar a reinvenção do sistema. Nas organizações de negócios privadas ou estatais se encontram as pessoas que podem fazer essa diferença.

Mas esses indivíduos sabem disso? Quem são essas pessoas?

Basta observar os saguões de aeroportos antes dos vôos preferenciais dos executivos e empreendedores para constatar que a comunidade que toma as decisões fundamentais para o futuro da humanidade, cuja atenção e opiniões são disputadas segundo a segundo pela mídia, não tem idéia de sua importância diante da História. O que falta aos processos de educação de gestores para que eles entendam seu papel mais nobre, talvez sua verdadeira função social? Enfim, que papel a imprensa tem jogado no sentido de instigar esse público? Ainda mais embaixo: a imprensa sabe disso?

Retrato da perversidade

Faltam ao capital ? privado ou público ? a motivação e os valores essenciais para que ele demonstre ser capaz de produzir um desenvolvimento real e criador de bem-estar generalizado. Nos dois séculos e meio em que movimenta as economias do mundo, o capital evoluiu da condição de recurso para fim em si mesmo, condicionando toda a cultura em que toca. Sob aplausos gerais da mídia. A imprensa também aplaude os processos de inovação que começam a internalizar nas empresas a cultura da responsabilidade social, mas não é capaz de avançar além dos registros de ações específicas.

Também não se vê o questionamento essencial: que modelos mentais predominam nas corporações, que papel a imprensa tem jogado no sentido de estimular a evolução da consciência desse público que, afinal, move o mundo?

Enquanto o universo cultural dos gestores não se deslocar do eixo ação-resultado, toda estratégia será vã, toda inovação nascerá envelhecida. As teses sobre gestão de conhecimento nas organizações não passam de retórica se não se discute a qualidade do conhecimento gerado constantemente e no mesmo sentido nas últimas décadas. Todas as melhorias, toda sofisticação gerada pela revolução tecnológica e pela criatividade dos gestores só fazem ampliar um poder perverso que, ao agir contra os interesses da humanidade como um todo, age contra si mesmo. Na ponta do sistema, a imprensa é o retrato dessa perversidade.

O horror dos atos de terrorismo e a brutalidade do crime organizado não se justificam sob nenhum ângulo de análise, e neste Observatório há quem tenha aprofundado esse debate, a partir de reflexões do diplomata Sérgio Vieira de Mello sobre a imprensa e o terror. Aliás, quem vai sacudir esse marasmo e tomar a iniciativa de exigir do mundo a devida homenagem a esse brasileiro?

Soluço de civilização

Como nas surpreendentes reflexões de Vieira de Mello [remissão abaixo], é preciso que a imprensa vá muito além das banalidades que enchem nossas páginas e nosso tempo todos os dias e ofereça aos seus leitores mais poderosos ? os empresários e gestores ? um cardápio mais exigente.

Está claro que, entre os componentes da crise que vivemos, tem destaque a incapacidade do poder econômico de se revestir de um significado aceitável para todo o mundo, a partir de cada unidade de negócio. Isso precisa ser traduzido em cada indivíduo que o representa. Mas haverá de fato um tipo de conhecimento que possa ser produzido e enriquecido nas organizações de negócios privados ou estatais e que opere como embrião de um novo processo social? Será que as novas tecnologias, nas quais as empresas investem volumes respeitáveis de recursos financeiros, não teriam algo mais a nos oferecer além de ganhos de produtividade e redução de custos? Se essas organizações se tornam progressivamente as maiores comunidades de indivíduos bem educados ? e treinados para confrontar diariamente as teorias com a realidade ?, por que esses indivíduos não são capazes de oferecer à sociedade, com seus produtos e serviços, um sistema que realmente funcione como uma cultura de bem-estar geral e não apenas para eles próprios, seus acionistas e seus parceiros? Onde falhou a educação falhará para sempre a imprensa?

Não lhes falta conhecimento básico sobre o comportamento geral dos indivíduos e dos sistemas sociais. Milhares de publicações e estudos acadêmicos informam sobre a história dos negócios e de como os processos se desenvolvem e se desfazem. Do seu posto de trabalho, o executivo tem acesso ao que existe de mais avançado em qualquer ramo de conhecimento. A globalização, cada vez mais acelerada, acrescenta ainda mais informações que, contextualizadas estrategicamente, oferecem grandes oportunidades para as organizações e seus agentes, mas não se observa nas ações dos gestores a valorização real do conhecimento, como um capital tão ou mais importante que o capital financeiro ou outros ativos tangíveis.

Jornalistas que puderam conviver com executivos de diversos setores empresariais, gestores públicos e políticos durante as duas últimas décadas, sabem que o padrão geral sempre foi extremamente conservador. Lembro de um grupo de jornalistas que, no período final da ditadura, elegeu alguns empresários e executivos mais bem educados e os transformou em fontes de declarações favoráveis à redemocratização do país. Virava, mexia, um deles desembarcava numa matéria, sem conexão aparente, com afirmações em favor dos valores democráticos. Nenhum editor tinha coragem de cortar uma declaração de José Mindlin e outros desses humanistas que conduziam empresas.

Redemocratizado formalmente o país, cai a imprensa naquilo que chamávamos, semana passada, de soluço de civilização. Diante da tarefa de recriar a sociedade e suas instituições, o processo de redemocratização parece brincadeira de militantes juvenis. O desafio de hoje exige muito mais do que escolher entre os verbos "explicou" ou "alegou", como se fazia naquela época quando se desejava inocentar ou incriminar um personagem. Exige reflexões muito mais profundas sobre o papel da imprensa. Precisamos de uma campanha pela redemocratização real do país.

(*) Jornalista

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