Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > democrático

Potencialidades dos discursos jornalísticos no Brasil

Por lgarcia em 16/12/2003 na edição 255

CONSERVAÇÃO & TRANSFORMAÇÃO

Beatriz Becker (*)

O Jornalismo pode contribuir efetivamente para distribuição de valores e conhecimentos que possam melhorar a qualidade de vida da população? O esgotamento de um modelo de produção de notícias que privilegia o mercado em detrimento da qualidade de tratamento da informação colabora para a crise financeira e ética da imprensa brasileira na atualidade. Vivenciamos um momento singular na história política, econômica e cultural do país, mas ainda não temos a oportunidade de apreender na maioria dos textos jornalísticos, especialmente nos telejornais, sentidos e representações dos múltiplos interesses, demandas e reivindicações, que caracterizam a sociedade brasileira contemporânea.

A TV ocupa, sem dúvida, um lugar de fundamental importância na representação e na formação das identidades nacionais, especialmente na virada do milênio, quando as culturas locais e globais são eletronicamente mediadas. Participa da história da integração nacional neste imenso Estado federativo que é o Brasil, assumindo um papel de conservação das relações de poder, e conseqüentemente, um controle social, no agendamento político e cultural do país, mas também um papel de vanguarda, enquanto agente unificador da sociedade brasileira, ofertando referenciações nacionais da realidade cotidiana, desvelando conflitos, e viabilizando mudanças, ainda que modelando essas possibilidades, através de sua mediação.

Nesse processo de construção de conhecimentos e realidades é visível a íntima vinculação e submissão da esfera pública aos interesses dos meios de comunicação e da cultura de massa. Há uma tendência degenerativa nas representações midiáticas das relações sociais, que paradoxalmente também servem à legalização da sociedade, assim como à legitimação do Estado. Não seria possível compreender o Brasil contemporâneo sem investigar as estratégias enunciativas construídas pelos discursos jornalísticos.

Neste contexto, o telejornal desempenha um papel ativo na gestação da política organizando a expressão e o direcionamento de diferentes poderes institucionais no país, representando simbolicamente um espaço de dominação e sustentando, por outro lado, um espaço de revelação de interesses públicos e de reivindicações de diferentes comunidades, numa mediação consensiosa dos conflitos sociais cotidianos, ocupando uma função do Estado contemporâneo. Essas ações discursivas, aparentemente contraditórias, endossam e valorizam a sua própria existência, no desempenho da sua função objetiva de narrar os principais fatos sociais do Brasil e do mundo e da sua função subjetiva de agendar a realidade social cotidiana, mediando problemas e diferenças sociais. Nesse processo, os telejornais realizam, de modo geral, leituras hegemônicas, mas, ao mesmo tempo, oferecem, em alguns momentos, tratamentos discursivos de acontecimentos em dimensões transformativas.

Caminho fértil

O telejornal , portanto, se destaca como o produto de informação de maior impacto e como a principal fonte de conhecimento efetivo dos acontecimentos socais para a maioria da população brasileira, mesmo considerando que na sociedade capitalista a liberdade de imprensa está condicionada aos recursos que a empresa dispõe e ao grau de dependência das suas relações com os bancos, às agências de publicidade e o governo. Sem dúvida, a TV aberta e os telejornais têm mantido uma função conservadora no país pela própria história do meio e por causa da tendência de homogeneizar as diferentes experiências culturais da nação, mas ao mesmo tempo, têm revelado conflitos, e funcionam como instrumentos potenciais de agendamento de mudanças sociais.

Nesse estágio avançado do capitalismo internacional que desagrega e desarticula experiências e tradições culturais singulares de cada nação, ainda que sugerindo e possibilitando novos grupamentos através dos meios de comunicação; a TV e os noticiários, nos seus cinqüenta anos de existência, consolidaram e passaram a garantir um território simbólico integrador e singular da experiência da realidade e da formação e expressão da política e da cultura nacionais, acessível a maioria da população brasileira; ainda que sob uma vasta rede de mediações e intencionalidades.

Nesse sentido, vale ressaltar, que os trabalhos profissionais capazes de despertar alguma reflexão crítica sobre o país, especialmente dos formadores de opinião ? jornalistas, professores e pesquisadores são vitais no enfrentamento da crise do Estado contemporâneo e dos difíceis desafios da imprensa brasileira no resgate pleno de sua função social. Assumimos que a história é processo e não acontecimentos. Mas, também que a afirmação de que os acontecimentos midiáticos são manipulações hegemônicas, não esgota a compreensão dos seus efeitos sobre a sociedade contemporânea.

Sem dúvida, o poder do capitalismo mundial integrado, não tem fronteiras, apresenta-se como um ordem global definitiva, articulando singularidades étnicas, religiosas e minoritárias, não é exercido de maneira centralizada, portanto, é aparentemente mais democrático e demanda novas modalidade de controle, entre as quais os meios se destacam, sustentando aparentemente apenas o racionalismo econômico frio e disseminando o individualismo. Por outro lado, no entanto, essa totalização do poder global, tende a funcionar em rede, instaura espaços comuns de comunicação, depende da cooperação intelectual e da força coletiva, das negociações de valores implicadas no exercício do trabalho, das determinações dos sentidos éticos das vidas humanas pelas multidões. Se os sujeitos são impedidos de existir fora do sistema, é dentro dele que, através do investimento na produção comunitária e cooperativa da intelectualidade de massa e até mesmo nas relações afetivas, que passam a exercer um contra-poder, uma resistência na sociedade contemporânea, marcadas por forças subjetivas, vontades e desejos, que podem aderir, mas também recusar a ordem hegemônica, gerando incertezas e percursos históricos alternativos, uma nova forma de inteligibilidade constituída pela criatividade e solidariedade entre seres humanos na mais diferentes redes, num mundo em que precisamos reaprender a necessidade de respeito.

Há o que pode ser previsto e controlado, mas também o que não pode, especialmente nas interações das naturezas humanas e sociais. Chegamos aqui a certos temas e proposições que numa leitura reducionista podem estar associados ao idealismo, porém, a utopia sempre foi uma força condutora da vida da sociedade, de tal forma que a memória coletiva apresenta marcas de aspirações nessa direção. Nossos desafios são conformar a exeqüibilidade da transformação proposta, investindo todo o capital de aspirações existentes num programa de ação popular através do trabalho coletivo e individual. Temos que preservar antes de mais nada os valores humanos, contribuindo para garantir a oportunidade do exercício da cidadania na produção dos textos acadêmicos e das notícias. Aceitando o fim das certezas, escapando da compreensão estável e segura de um mundo dual que opõe o dominador e o dominado ou o controlador e o controlado, o Jornalismo como prática cultural e social pode certamente intervir para modificar ou reorganizar a sociedade brasileira, apontando novas tendências e perspectivas para o seu desenvolvimento.

Esta reflexão está amparada pelas pesquisas da Antropologia e das Linguagens, mais precisamente pelos Estudos Culturais e da Semiologia dos Discursos Sociais, os quais propõem um caminho fértil para investigação da produção e da recepção dos acontecimentos midiáticos, valorizando as interações e mediações simbólicas, na dinâmica negociações de sentidos no campo da Comunicação, assumindo que os efeitos dos acontecimentos midiáticos, mais especificamente dos discursos sociais produzidos pelos telejornais referentes as construções dos sentidos identitários e de nacionalidade na realidade cotidiana do país, podem contribuir para um Brasil melhor e mais solidário.

Olhos e ouvidos

À medida que as novas tecnologias midiáticas multiplicarem o número de canais, a televisão também pode se transformar num meio de segmentação e, tal como a conhecemos hoje, desaparecerá. Até mesmo o próprio Estado nacional contemporâneo sofrerá transformações, pela necessidade de sincronizar e adequar suas fronteiras territoriais e culturais à um mapa geopolítico global delineado pelos meios. Nesse processo, as grandes coberturas jornalísticas e as transmissões televisivas de acontecimentos relevantes para diferentes comunidades, provavelmente servirão às necessidades integrativas de comunidades e organizações nacionais e internacionais.

O processo de globalização que impõe uma ordem econômica e cultural, especialmente através dos meios, sustentados pelos interesses do capitalismo internacional, também demandam uma reflexão sobre a Comunicação e as identidades nacionais, para podermos nos posicionar frente aos discursos hegemônicos da atualidade, sem abrir mão de nossas autonomias políticas e culturais, capazes de garantir cidadania e dignidade à população brasileira.

Não podemos anunciar a globalização apenas como o fim das nações e dos nacionalismos porque uma inserção saudável no sistema global, exige de cada nação repensar e renegociar seus territórios simbólicos e até mesmo físicos, em relação aos fenômenos mundiais, regionais e locais, devido às heterogeneidades ligadas a histórias diferentes e práticas culturais distintas, até porque as dinâmicas de homogeneização, encontram sua contrapartida em novas formas de diferenciação, algumas delas bastante progressistas, outras até irracionais, como o fanatismo religioso.

Nesse contexto, os discursos das televisões e dos telejornais mantêm desempenhos e valores estratégicos. No Brasil, o desenvolvimento da TV e as narrativas dos noticiários têm sido orientados pelas ideologias hegemônicas, especificamente das elites nacionais e dos governos federais, e seus discursos utilizados como instrumentos de poder, associando o povo brasileiro ao grande público e sua diversidade cultural à homogeneização. Por outro lado, os programas televisivos e os telejornais passaram não só a incorporar, mas a acompanhar e dar visibilidade as diferentes aspirações, muitas vezes conflitantes, da cultura popular nacional, mesmo selecionado e autorizando expressões de determinados personagens, conteúdos, modos de dizer e de pensar, em detrimento de outros, legitimando inclusive, ainda que timidamente, vozes sociais diferenciadas. Depois de cinco décadas, a tevê aberta ainda é o principal instrumento político e cultural do país, cuja recepção e interpretação ninguém pode controlar de modo absoluto. A TV e seus gêneros discursivos têm mesmo funções e linguagens complexas, que merecem novos caminhos de interpretação.

A TV transforma a política em espetáculo e investe na banalização de muitos programas, tentando estabelecer gostos, interesses e visões do Brasil e do mundo comuns e até vulgares, tentando reduzir a população brasileira à uma audiência de massa. Ao mesmo tempo, porém, reúne grupos sociais diversos na assistência da programação, reafirma vínculos que juntam cidadãos numa mesma comunidade ou num mesmo país, despertando sentimentos de comunhão e nacionalidade, indispensáveis para o fortalecimento do Estado ? Nação.

Na experiência da sociedade individualista contemporânea brasileira, marcada por profundos contrastes e por exclusões, como vimos, as novas tecnologias e mídias temáticas e segmentadas, tendem a reforçar a estratificação sócio-cultural, condenando o acesso de milhares de pessoas à informação e ao entretenimento. A tevê aberta, no entanto, desempenha contraditoriamente uma espécie de resistência, ofertando vivências cotidianas e coletivas do Brasil, valorizando laços sociais e diferentes identidades nacionais, ainda que representando com inegável limitação suas principais reivindicações.

Não estamos afirmando, contudo, que a TV e os telejornais são poderosos instrumentos de transformações sociais. Seria demasiadamente ingênuo sustentar uma proposição otimista como essa. Sugerimos que a interpretação dos discursos televisivos deve transcender sua compreensão como instrumentos de manipulação dos públicos ou como instrumentos de controle político e ideológico, assumindo o valor cultural de suas mediações, e das interações com a recepção, portanto uma hegemonia dos telespectadores, ainda que numa relação de poder assimétrica. Afinal, é também através dos discursos dos formadores de opinião que o grande público pode efetivamente ocupar o lugar de sujeito histórico, de protagonista ou de ator social relevante no país.

Reafirmamos que os interesses das emissoras de televisão brasileiras e das elites em muito se distanciam de um Estado realmente democrático e pluralista, e que a TV tende a manter as distâncias sociais, mas, também apontamos sua contribuição para não tornar as rupturas ainda mais fortes. Os programas da tevê aberta funcionam também como meios de socialização de saberes e valores. Percebemos os discursos dos telejornais como territórios simbólicos, integradores e singulares de experiência coletiva de realidade, de formação e expressão da política, acessível a maioria da população, que refletem e influenciam as construções das identidades nacionais.

Sem dúvida, ao representar os acontecimentos, os noticiários interferem na constituição da realidade cotidiana do país. No entanto, mesmo com inúmeras restrições, podem até funcionar como instrumentos importantes de revelações contra as exclusões, de acordo com a análise realizada pela autora da narrativas dos noticiários sobre as comemorações dos 500 anos do Descobrimento do Brasil. Por isso, assumimos que os discursos jornalísticos também são formas de conhecimentos distribuídos socialmente, uma atividade produtiva que mobiliza pessoas dotadas de determinação e inteligência, cientes de que, hoje especialmente, a credibilidade estimula aceitação e prestígio cultural, político e financeiro, mas só é conquistada com a oferta de serviços efetivamente confiáveis de informação pública.

Por essas razões, sugerimos também a necessidade de repensar a responsabilidade social do jornalista, especialmente no contexto político brasileiro, considerando, a inviabilidade da principal premissa dos discursos jornalísticos, sustentada nos princípios de objetividade e imparcialidade, uma vez que toda história e uma construção e todo relato de um acontecimento social é uma versão, implicando em seleção e interpretação. Decididamente, não há ligação direta entre o crescimento do volume de informação e a sua disponibilidade e veracidade. Até porque já sabemos que o conteúdo dos acontecimentos sociais e os seus efeitos não são inerentes aos próprios acontecimentos, mas dependem do tratamento que recebem pelos jornalistas, responsáveis pela formação da opinião pública. Seja na construção do conhecimento acadêmico e intelectual ou no exercício profissional do jornalismo televisivo, devemos aprender, "não mais julgar a população dos saberes, das práticas, das culturas produzidas pelas sociedades humanas, mas a cruzá-los, a estabelecer entre eles comunicações inéditas que nos coloquem em condições de fazer face às exigências sem precedentes da nossa época".

Apontamos a necessidade de uma maior contextualização na elaboração e na transmissão das notícias, é desorganizando o discurso lógico, fazendo a contínua deslocação da ordem natural das coisas que o profissional de TV se personaliza porque reveste o habitual de novos estímulos e significados. O jornalista precisa se colocar simultaneamente como produtor e consumidor de notícias porque passa, constantemente, de um lado para o outro, no exercício cotidiano de sua função, a medida que faz com que a informação alcance um número incalculável de pessoas, cujas características conhece vagamente, mas sabe que estão lá, com milhões de olhos e ouvidos, atentos a tudo o que se passa no vídeo. "O jornalista está sempre caminhando sobre este fio de navalha que o mantém equilibrado entre o dever de informar e a observação da ética"

Real e simbólico

A criatividade e as competências intelectual e técnica necessárias à construção do acontecimento devem servir deliberadamente, segundo Coelho Filho, ao interesse público regido pela ética do cidadão, ou melhor por novas histórias públicas e novas maneiras de contar essas histórias. Isso significa evitar cópias e padronizações na seleção e na realização das notícias e investir em histórias que digam respeito à vida, ao desenvolvimento da cidadania e ao enriquecimento cultural dos brasileiros; um modo de fazer telejornalismo que já está em experiência, mas ainda impõe muitos desafios. Isso porque a introdução da reflexão no noticiário corresponde a inevitáveis mudanças de formato. As reportagens ficam mais longas, as edições mais elaboradas, o trabalho dos câmeras mais autoral e até a apresentação dos acontecimentos pode ser transformada.

Mas, além da forma da narrativa, o jornalismo sintonizado com os interesses da população, demanda, cada vez mais, a busca de fontes autônomas de saber, inclusive uma aproximação com as universidades, revalorizando e reconhecendo as mediações da sociedade civil, experiências coletivas não enquadradas nas formas partidárias e investigações mais amplas dos conflitos sociais. Sabemos que não é fácil contar na TV histórias que superam os interesses privados, mercadológicos e partidários, tampouco resistir em ceder ao apelo fácil do assistencialismo, na mediação e representação das demandas populares em relação ao poder público.





"Como mostrar o sofrimento, como representar os territórios da pobreza, dos deserdados, dos excluídos, sem cair no folclore, no paternalismo ou num humanismo conformista e piegas? Como criar um novo modo de expressão, compreensão e representação dos fenômenos ligados ao território da pobreza, do sertão e da favela, dos seus personagens e dramas? Como levar esteticamente o espectador "compreender" e experimentar a radicalidade da fome e dos efeitos da pobreza e da exclusão, dentro ou fora da América Latina?"





Nesse questionamento sobre os desafios éticos e estéticos da produção audiovisual contemporânea, inclusive da televisão, Bentes também propõem, em referência a obra de Glauber Rocha, a desconstrução de clichês sociológicos, políticos e comportamentais sobre a miséria e a pobreza, e novas formas de representações que provoquem uma espécie de constrangimento civil no espectador, estimulando novas percepções da realidade social.

O telejornalismo pode investir mais na compreensão do que na quantidade de informações, construindo narrativas mais analíticas, reflexivas e menos fragmentadas através de associações mais inventivas entre texto-imagem. A seleção de qualquer pauta e a produção de qualquer notícia são resultantes de condições técnicas e de ações e decisões subjetivas, geralmente partem de orientações do editor ou de recomendações de autoridades políticas ou da própria empresa, mas também são resultantes do repertório simbólico e cultural de todos os profissionais envolvidos nas diferentes etapas de realização de um telejornal. Por isso, as transformações dos fatos sociais em acontecimentos, podem estar cada vez mais sustentadas por atitudes éticas e criativas, produzindo novos discursos e sentidos sobre a realidade social, os quais por sua vez também são resultantes de múltiplas negociações e leituras por parte dos telespectadores.

Os jornalistas, os pesquisadores e os professores, os formadores da opinião pública, de modo geral, portanto, podem desempenhar com dignidade o exercício diário de suas profissões, reafirmando a necessidade de valorização da justiça e da solidariedade, do respeito às diferenças, da vida dos brasileiros e de todos os seres humanos, para podermos, conseqüentemente, promover com humildade e ousadia simultâneas, reconstruções identitárias, políticas, culturais e sociais necessárias à Nação; e para podermos contribuir para um Brasil melhor, mais autônomo e confiante na suas perspectivas. Precisamos colaborar para reduzir a violência em todas as suas manifestações, para articular entendimentos mesmo sabendo de suas fragilidades, para cultivar nosso próprio país. Afinal, como explica o lingüista e professor Milton José Pinto, não se pode pensar a causalidade em ciências humanas e sociais da mesma forma como é pensada pelas ciências da natureza:





"Não é mais aceitável pensar uma relação causal rígida, invariável, mecânica e exclusiva entre a "infra-estrutura", onde só os fatores econômicos contariam, e a "superestrutura", domínio único do ideológico, do discurso. O número de variáveis em jogo em qualquer fenômeno social, e em especial nos fenômenos de comunicação, não só é grande, como seu relacionamento bastante complexo e indecidível, e fica difícil falar em "determinação em última instância" por este ou aquele fator, qualquer que seja. Isto não quer dizer, evidentemente, que as diferenças econômicas, como propõe o marxismo, não estejam com certeza entre os mais importantes determinantes de fenômenos socioculturais atuais; mas que outras diferenças sociais, […]são igualmente relevantes."





Até mesmo alguns pesquisadores das ciências da natureza revelam que grandes transformações são estimuladas, a partir de pequenas rupturas, situadas nas chamadas zonas de bifurcação, de acordo com Prigogine e Stengers:





"[…] a ordem por flutuação conduz ao estudo do jogo entre acaso e necessidade, entre inovação provocadora e resposta do sistema, leva a distinguir entre os estados do sistema onde toda a iniciativa individual é votada à insignificância e as zonas de bifurcação onde um indivíduo, uma idéia ou um comportamento novo podem perturbar o estado médio. Também não interessa que indivíduo, idéia ou comportamento, mas os que são "perigosos", os que podem utilizar em seu proveito as relações não ? lineares que asseguravam a estabilidade do antigo estado médio: são nos modelos simples as mesmas linearidades que fazem nascer uma ordem determinada do caos dos processos elementares, e que podem, eventualmente, noutras condições, determinar a destruição dessa ordem, a aparição para além de uma outra bifurcação, de um outro regime de funcionamento."





Mas, é possível superar a crise financeira e ética na imprensa brasileira e apontar novos caminhos para o tratamento da informação? Afinal, A gestão da experiência cotidiana contemporânea está diretamente ligada ao poder da mídia como instrumento regulador da experiência pública e privada, especialmente da TV, em seus noticiários, que nos ofertam versões diárias da realidade do Brasil e do mundo, mesmo considerando-se que a própria mídia tem buscado incorporar aos seus diferentes modos de produção alguns efeitos das novas tecnologias, tais como a segmentação do público e a interatividade. Isso porque a mídia precisa conquistar, simultaneamente, credibilidade e autonomia suficientes para atrair consumidores das mais diversas tendências, garantindo o suporte dos anunciantes e dos detentores do poder; afinal, a publicidade é a sua base financeira. Por isso, até mesmo a independência e o profissionalismo não são apenas ações éticas e ideológicas gratificantes para os veículos de comunicação; são um grande negócio. Nesse sentido, buscam uma sincronia máxima com seus públicos, uma interação que, estrategicamente e às vezes aparentemente, valoriza e respeita os consumidores, para tornar eficaz e eficiente os resultados de suas produções.

No entanto, é necessário destacar que a crise da imprensa brasileira também está associada a dificuldade de produção de um conteúdo jornalístico de qualidade, como afirmamos anteriormente, que satisfaça os interesses de um público consumidor exigente e crítico. Toda a experiência que supõe o uso da linguagem implica em contruções de sentidos, não há discursos neutros ou livres de intencionalidades, até mesmo os mais objetivos e imparciais, como os discursos jornalísticos, que supostamente retratam a realidade porque os fatos sociais e os personagens são reais, enquanto outras modalidades discursivas transitam com maior clareza para o leitor/espectador entre mundos ficcionais. Esta crença lhe confere uma posição privilegiada de mais verdadeiro do que os outros. E desse modo, exerce uma influência muito maior na constituição da experiência coletiva do real cotidiano. O simples fato de um acontecimento estar inserido ou não no âmbito dos discursos jornalísticos implica em que faça parte ou não do nosso repertório de atualidade. Sem dúvida, os discursos jornalísticos são os principais gerenciadores de representa&ccediccedil;ões de realidade cotidiana, consistindo num poder real e simbólico, mas possivelmente há outros modos dos textos jornalísticos dizerem mais e melhor sobre diferentes experiências sociais capazes de estimular outras e novas leituras do real .

Diretrizes essenciais

Se o jornalismo se constitui efetivamente como um instrumento de representação e constituição do espaço público, especialmente nos telejornais de maior audiência, tidos como principais fontes de conhecimento dos acontecimentos sociais para a maioria da população, também sido alvo de críticas porque não responde plenamente aos interesses de uma sociedade que assiste, mas não é ouvida satisfatoriamente. A notícia e os telespectadores são cada vez mais desvalorizados em função de interesses políticos e mercadológicos. Por isso, já estão sendo desenvolvida novas propostas de reformulação da prática jornalística para a recuperação de um jornalismo mais responsável e comprometido com a sociedade. Entre elas, destaca-se o conceito de jornalismo público, um novo modo de pensar e praticar o jornalismo.

O novo conceito tem como enfoque uma associação entre o exercício do jornalismo e da cidadania., uma das principais idéias associadas ao jornalismo público é a de que os jornalistas devem recuperar a função social da imprensa de distribuição de valores e conhecimentos, pautando as notícias com base no interesse efetivo do público e não apenas naquele que os jornalistas julgam ser de interesse público. Para isso, segundo Cubiça,os profissionais devem inicialmente descobrir as necessidades das pessoas e oferecer informações que as respeitem. A partir de então, devem mostrar-lhes que o termo público se refere a um conjunto de cidadãos, que podem e devem opinar, criticar e participar das discussões sobre a sociedade. Os jornalistas devem fornecer à população as informações necessárias à formação de um pensamento crítico e ao desenvolvimento de um espírito participativo. E incentivá-las a exercer sua cidadania, atuando em projetos na sociedade, ajudando sua comunidade e defendendo seus direitos como cidadãs.

Um exemplo de tratamento diferenciado da informação telejornalística é o Jornal da Cultura, " o qual deixou os velhos paragdimas da produção jornalística ( que dão valor à grande quantidade e variedade de matérias) para produzir notícias bem trabalhadas, que são esclarecidas e relacionadas à vida do cidadão. Ao optar pela qualidade, o telejornal seleciona os acontecimentos mais importantes a serem trabalhados e, por vezes, deixam de transmitir alguns fatos noticiados em outros veículos. O Jornal da Cultura não perde com isso, pois o resultado é a produção de matérias que são mais facilmente compreendidas e apreendidas por quem assiste".

Adotando o jornalismo público, o telejornal entende que todo relato é influenciado por construções de sentidos e experiências de vida que não podem ser separadas do momento da construção discursiva. Dessa forma, assume alguma parcialidade dos relatos jornalísticos e pode se apresentar como um espaço aberto para a realização de análise crítica e para novas e diferentes expressões e demandas da sociedade civil. É importante que os profissionais compreendam a necessidade de se contribuir para a formação de uma opinião pública crítica, capaz de analisar os fatos reais, em toda sua complexidade, capaz de contextualizá-los e utilizá-los como referência para a compreensão da realidade política, econômica e social do país. A ética jornalística compreende o respeito às pessoas, oferecendo-lhes informação de qualidade que lhes permitam conhecer melhor as distintas realidades sociais e as diferentes identidades nacionais.

Essas questões são ainda mais relevantes quando se considera a recente polêmica em torno da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão de jornalista. A justificativa da não obrigatoriedade tem como base o direito de todos os cidadãos à liberdade de imprensa. No entanto, é preciso transcender esse aspecto para avaliar de que maneira essa liberdade pode e deve ser exercida. Todos são livres para pensar e expor suas considerações, e assim realmente deve ser. Mas, quando percebemos a grande influência do Jornalismo na representação e na constituição da sociedade, é necessário reafirmar que a liberdade de imprensa deve ser praticada com responsabilidade social, espírito crítico e criativo, observando os princípios éticos e o respeito às diferenças.

Essas considerações têm-nos levado a repensar não só a função do Jornalismo, mas, especialmente, do espaço social da Universidade e do nosso trabalho. Um aspecto importante na formação do jornalista que gostaria de questionar em conjunto é a valorização da técnica, em detrimento da formação humanística. Tanto a teoria quanto a prática são importantes no processo de construção de conhecimentos. Essa dicotomia já não é o aspecto mais importante a ser discutido. Essencial agora é promover a conquista de um instrumental teórico-prático capaz de tratar as informações com maior consciência crítica, sabedores da função social do jornalista como formador de opinião, devendo prestar um serviço público de valor, capaz de estimular mudanças sociais positivas, com efeitos sobre a qualidade de vida dos cidadãos. Acreditamos que devemos ofertar aos nossos estudantes a capacidade de organizar saberes e relacioná-los. Para além do domínio das diferentes linguagens de produção de notícias, devemos estimular uma aptidão para a essencial contextualização dos fatos sociais. Promover, como sugere Morin, uma Educação para uma cabeça feita e não uma cabeça cheia. A passagem pela universidade deve ser mais do que uma preparação para o exercício da profissão, deve funcionar como uma preparação para a vida, oferecendo aos estudantes instrumentos para lidar com a incerteza. Essa argumentação, me parece, esvazia por completo a defesa da não obrigatoriedade do diploma.

Ainda parece importante discutir o valor dos textos jornalísticos no âmbito da pesquisa. Sabemos que o número de pesquisadores interessados neste campo específico de conhecimento cresce, assim como a quantidade de trabalhos inscritos nos diferentes fóruns para debates e conseqüentes articulações políticas, como a própria Sociedade Brasileira dos Pesquisadores em Jornalismo, consolidando linhas e tendências de pesquisa em jornalismo nos cursos de pós-graduação. Sem dúvida, é fundamental solidificar a identidade acadêmica através destas investigações científicas e constituir um lugar privilegiado para a apresentação de trabalhos e para a formação de redes nacionais de pesquisas em jornalismo. Mas, não devemos em momento algum desprezar a função social do trabalho acadêmico, assim como estamos atentos para os efeitos de sentidos dos textos jornalísticos, até mesmo quando elegemos nosso primeiro recorte na construção do objeto de estudo. Como as pesquisas realizadas no campo específico do Jornalismo podem contribuir para circulação de novos saberes e novas práticas de produção, transmissão e distribuição de notícias, identidades e valores, de representações e legitimações dos múltiplos interesses da sociedade brasileira? Por que é importante produzir pesquisa em Jornalismo para o país? Acreditamos que nesta nova e importante Sociedade também teremos oportunidade de trocar impressões e acordar algumas diretrizes essenciais no desenvolvimento do nosso trabalho como pesquisadores.

Sem nenhuma pretensão de esgotar o debate aqui proposto, agradecemos a sua leitura e sugerimos que, certamente, ela também produzirá sentidos de reforço ao sistema e a manutenção dos valores e representações hegemônicas ou assumirá alguma dimensão transformativa na percepção da realidade social e das identidades brasileiras e do desempenho dos meios de comunicação na atualidade, especialmente da tevê e dos telejornais, assim como dos textos acadêmicos, sobre os quais somos responsáveis.

(*) Jornalista, coordenadora do curso de Curso de Comunicação Social da UFRJ, doutora em Comunicação; texto apresentado no I Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo


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