Domingo, 25 de Fevereiro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº975

PRIMEIRAS EDIçõES > FUTURO DA TV

Poucas promessas, muitos desafios

Por lgarcia em 30/10/2002 na edição 196

FUTURO DA TV

Antônio Brasil (*)

Após uma campanha eleitoral cautelosa e muito bem-sucedida, o PT, finalmente, conseguiu eleger o novo presidente do Brasil e com votação recorde. Lula e seus companheiros de partido aprenderam a utilizar de forma eficiente os poderosos meios de comunicação de massa do nosso país. É uma grande vitória e todos estão comemorando intensamente com todo o direito. O problema, agora, é administrar a expectativa e a esperança de milhões de eleitores que esperam e exigem mudanças em nosso país. Entre tantos planos, projetos e promessas "indefinidos" propositalmente durante a longa e delicada campanha eleitoral, infelizmente, pouco se discutiu sobre o futuro de um dos setores mais importantes e estratégicos para a sobrevivência da democracia em nosso país: a TV brasileira.

Apesar do clima geral de otimismo, alguns dados recentes são alarmantes em relação ao futuro da nossa TV. Segundo pesquisas divulgadas na quinta-feira (24/10), pela Folha de S. Paulo, "para 46%, a TV vai piorar ainda mais até 2005"; e, o que é pior, "só 47% confiam no que vêem na TV". Com esses dados e considerando a gravidade da situação, não é à toa que ninguém se anime a encarar o problema, pelo menos por enquanto.

Mas, afinal, qual seria o melhor modelo de TV aberta para o Brasil do governo Lula? E o papel das TVs públicas num novo projeto de comunicação social para o país? Como serão as relações entre governo, sociedade e empresários do setor? E o mais importante? Como será o relacionamento de um governo petista com a toda poderosa Rede Globo?

É óbvio que todos acreditam, ou querem acreditar, que tudo mudou, que a cobertura da campanha eleitoral em nossos noticiários de TV foi "exemplar", mas seguro morreu de velho e não custa nada pensar no pior. Como enfrentar o poderio da Rede Globo, caso ela tenha uma "recaída" e resolva voltar a fazer "oposição" a um governo eleito pelo povo? Muitos ainda se lembram das campanhas do jornal O Globo durante o governo Jango, dos tempos da ditadura, e num caso mais recente, a famigerada era Collor? "Nós o colocamos lá, e nós o tiramos de lá." Para evitar "surpresas" deveríamos abrir os debates sobre a nossa TV o quanto antes e apresentar propostas legais e viáveis para garantir uma maior democratização do setor.

Temas sensíveis

A melhor resposta ao poderio da TV Globo não está, necessariamente, em maiores controles ou restrições legais. Já temos leis e normas mais do que suficientes. O problema é que, assim como boa parte da legislação, as leis existentes simplesmente não são cumpridas. Televisão é uma concessão pública e como tal deve ser constantemente monitorada, avaliada e orientada para os interesse do público e não somente para o interesse ou lucro do "dono" da concessão. Ela é temporária, renovável ou não. Tudo deveria depender de uma avaliação por parte de conselho representativo de setores da população que também incluísse, de forma privilegiada, os maiores interessados: os telespectadores.

Este conselho deveria ser assessorado por institutos independentes de avaliação tanto de forma como de conteúdo do meio. Algo parecido com o IBGE, voltado exclusivamente para orientar com dados confiáveis as políticas governamentais. Seguindo o exemplo, deveríamos exigir a criação de um Instituto Brasileiro de TV que monitorasse o conteúdo da nossa TV e que nos livrasse da ditadura absoluta dos índices do Ibope. Pesquisas quantitativas são importantes, mas sem a complementação de pesquisas qualitativas, tornam-se autoritárias e irracionáveis. Produzimos somente o que o povo gosta. Se ele assiste é porque é bom. A audiência determina tudo. Não ter acesso livre à "caixa preta" que determina essa audiência e, conseqüentemente, a nossa programação pode inviabilizar quaisquer experimentações ou mudanças tão necessárias e urgentes no setor televisivo em nosso país. Informação independente e qualificada também pode evitar que essas mudanças sejam, simplesmente, para pior.

Um projeto alternativo de TV que privilegie as novas tecnologias, novas linguagens audiovisuais, uma maior e mais efetiva participação do público talvez seja a melhor resposta ao atual modelo de TV que privilegia unicamente o consumo e a publicidade. Nada contra. Assiste ou compra quem quer, mas muda de canal somente quem pode. O problema é grave quando todos assistem a mesma coisa em todos os canais por falta de alternativas.

Mas se qualidade em TV no Brasil deveria ser o modelo falido de TV paga estabelecido em nosso país, ou as promessas ainda não cumpridas em nenhuma parte do mundo pela TV digital, então estamos com sérios problemas. Até um pesquisador americano renomado, como o professor Joseph Straubhaar, do Centro de Estudos Brasileiros da Universidade do Texas, em artigo recente (O Estado de S.Paulo, 25/10/02) declara, em tom de alerta: "Não é preciso pressa na escolha da TV digital. Nos EUA, com todas as pressões dos setores interessados, acabamos escolhendo um sistema que não estava ainda maduro. Se fosse para fazer uma aposta para evitar a exclusão digital, escolheria o telefone celular".

Além de evitar cometer mais outras caríssimas e precárias "sandices" tecnológicas no Brasil, também deveríamos tentar evitar confundir qualidade na TV com a elitização da programação ou pedantismo acadêmico num meio de comunicação de massa. Transmitir óperas e peças teatro em TVs públicas, assim como produzir péssimos programas acadêmicos em nossas TVs "ditas" universitárias, só garantem o afastamento do público e o desprezo da crítica. Mas é, sem dúvida, a alegria dos produtores das novelas e do Ratinho!

Privilegiar exclusivamente o lucro financeiro, o "emburrecimento" e a alienação de tantos brasileiros com um meio tão poderoso como a televisão é, no mínimo, perigoso. Em verdade, mais cedo ou mais tarde teremos que discutir assuntos polêmicos que não podem mais ser adiados ou contornados pelos interesses do marketing eleitoral. Temas sensíveis como a dívida externa ou uma reforma agrária tanto terra como no ar precisam de ser debatidos de forma clara e objetiva. Nós, a grande maioria dos brasileiros que formam o MSTV, Movimento dos Sem TV, em clima de otimismo e bom humor, mas com muita determinação, convocamos todos os insatisfeitos com nosso principal meio de comunicação: "Telespectadores do Brasil, uni-vos"!

(*) Jornalista, coordenador do Laboratório de TV, professor da UERJ e doutorando em Ciência da Informação pelo convênio IBICT/UFRJ.

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