Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > JORNALISMO ONLINE

Precisamos de mais (trans)fusões

Por lgarcia em 19/12/2001 na edição 152

JORNALISMO ONLINE

Marcos Linhares (*)

A fusão da American On Line com o grupo Time Warner foi um fato suscitador de várias considerações, não só para nós que trabalhamos com e na imprensa, mas também para qualquer cidadão que já tem acesso ao mundo da internet.

Um ponto importante a ser abordado é o do futuro da própria geração de notícias, visto que através da internet pode-se chegar a um estágio tal que os envolvidos em determinado fato, de qualquer esfera, podem relatar sua experiência sem o olhar externo de um "narrador", sem suas inferências, criando assim a figura do personagem-redator.

Imagine um roubo a um banco qualquer, em que os clientes presentes, o guarda que trocou tiros com os bandidos, o caixa que entregou o dinheiro e, quem sabe, até o próprio assaltante narram o ocorrido, colocam a visão direta de quem fez a notícia. São fontes diferentes, numa espécie de jornalismo interativo, que eu não sei até que ponto é viável, mas que não é de todo impossível.

Com a notícia massificada na internet, talvez corramos o risco de ver desaparecer o criticismo da notícia. A boa e decisiva análise que nos dê uma luz nesse túnel chamado "eterna preguiça de ler qualquer coisa acima de 45 linhas".

Outro aspecto é o da seletividade: assim como a Time Warner, outros grupos embarcarão na iniciativa, norteando uma massificação do produto "notícia". O consumidor ? público-alvo ? visitará diferentes sites, e aquele que lhe trouxer coisas novas, de seu maior interesse, ganhará um novo cliente/leitor/navegante. O consumidor, a princípio, possui um perfil mais exigente e seletivo, visto que já se habituou com a geração de notícias descartáveis.

Democratização do conhecimento

A geração zapping habitou-se ao baixo nível de nossa programação televisiva e cresceu mudando de canal, criando uma cumplicidade com o controle remoto, recheada de frustração, expectativas e angústias na caça à melhor atração daquele momento, que, às vezes, nem as santas TVs a cabo conseguem resolver.

O banal, o esdrúxulo, o sexual, o bizarro, o ridículo, a vida privada de pessoas famosas ganham destaque e caem no esquecimento. Aprofundar-se em algo para quê? A learning curve vai se distanciando. Pensar dá trabalho para produzir e consumir.

Se por um lado um grande grupo democratiza a informação, ao permitir acesso a qualquer mortal que se aventure pelos mares da rede virtual, muitos ainda não têm computador, tampouco linha telefônica ou qualquer outra maneira de se conectar.

Também não podemos nos esquecer de que essas megafusões são uma forma de resguardar imagem, produtos, serviços e armações desses grupos. A revelação ao público do que interessa. O xenofobismo imbecilizante que sempre mostrará apenas a visão dos vencidos. A notícia do Brasil eternamente com a capital Buenos Aires, índios ainda dominando o estereótipo estrangeiro de que a maior invenção do brasileiro foi o seu jeito cunning de enganar os outros e largar o trabalho para pular o Carnaval e dançar samba.

Precisamos urgentemente promover fusões que democratizem o acesso à educação. Democratizar o conhecimento, fundir a Time Warner com as escolas públicas.

(*) Jornalista, professor e âncora do programa Educa, Brasil, em Brasília

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