Quinta-feira, 19 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Preparo vai fazer a diferença

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

FORMAÇÃO PROFISSIONAL

Pedro Celso Campos (*)

Enquanto se discute se a internet vai ou não vai tomar o lugar do jornal impresso como meio de informação rápida e eficiente, a maioria dos especialistas aconselha os jornalistas a se tornarem "multimídia", isto é, profissionais habilitados a escrever bem e rápido sobre qualquer assunto e para qualquer público, seja do impresso, do rádio, da TV, da internet. Também se espera que o novo jornalista saiba não apenas lidar com as novas tecnologias à sua disposição, mas que saiba "pensar visualmente", valorizando a imagem numa época em que os recursos digitais transformaram o próprio texto em imagem. O bom repórter discute a pauta com o pauteiro, a foto com o fotógrafo, o infográfico com o Departamento de Arte e a diagramação com o programador visual.

Sem dúvida esse preparo do novo profissional passa pela adequação do ensino universitário às necessidades com as quais o jovem recém-formado vai se deparar no mercado. Talvez por isso ? apesar da reflexão crítica que nos leva a considerar o espaço universitário como o lugar da experimentação e das novas propostas ? os estudantes de Jornalismo sempre pedem ao professor, todo semestre, algum tipo de contato com profissionais do mercado capazes de explicar o que está acontecendo, "hoje", na prática profissional.

O receio é que a formação meramente teórica afaste o jovem do mercado, em vez de inseri-lo nesse mundo em permanente estado de transformação sem deixar de levar em conta a formação teórica e o aprendizado ético e moral, próprios da academia.

Trazer profissionais bem-sucedidos para a sala de aula é algo muito complicado, por diversos fatores. São pessoas sempre muito ocupadas, e a escola pública nunca tem verba para arcar com as despesas de viagens, cachês etc., já que a maioria milita no eixo Rio-São Paulo-Brasília. Quando muito consegue-se recurso extra para trazer algum profissional por ocasião dos eventos acadêmicos, para uma palestra apenas, ou uma mesa-redonda.

No entanto, os alunos querem um contato mais direto, mais intenso. Querem mais tempo para aprender coisas novas com o visitante, para atualizar o "saber-fazer".

Por isto, neste primeiro semestre de 2003, na impossibilidade de trazer até a Unesp de Bauru o jornalista Ricardo Noblat, editor do Correio Braziliense, de Brasília, optamos por repassar aos alunos da disciplina Técnicas de Reportagem, Entrevista e Pesquisa Jornalística os principais ensinamentos do mais recente livro desse conceituado profissional: A arte de fazer um jornal diário (Editora Contexto, São Paulo, 2002). É preciso lembrar que o pernambucano Ricardo Noblat, com 35 anos de experiência profissional, já ocupou os mais destacados postos da mídia brasileira, com numerosas reportagens no exterior, tendo sido, também, responsável pela reforma gráfica e visual do Correio Braziliense em 2000. Regularmente dá palestras em universidades brasileiras.

Crítica ao "jornal-espetáculo"

"O que interessa ao público nem sempre é de interesse público", observa Noblat. E explica: "(…) Estimular os baixos instintos do ser humano, por exemplo, interessa a uma expressiva fatia do público. Aumenta as vendas de um jornal. Amplia a audiência de uma emissora de TV. Mas proceder assim é condenável porque, em vez de contribuir para a elevação dos padrões morais da sociedade, o jornalismo os rebaixa."

Com isso o autor condena a euforia do furo pelo furo, quando o repórter conclui que tem o direito de apelar para quaisquer recursos na hora de sair na frente com sua notícia, usando câmeras ocultas, mentindo sobre sua condição de jornalista, roubando documentos, invadindo a privacidade alheia, traindo a confiança de fontes que se revelam em off etc.

Um profissional que representa a sociedade na hora de fiscalizar e combater os corruptos não tem o direito de mentir e trair para se destacar no mercado de trabalho. Deve, isso sim, agir com ética e transparência. Noblat ilustra o ensinamento com o caso da TV comercial, que normalmente destaca matérias sem importância apenas porque rendem belas imagens, e muitas vezes ignora notícias que não comportam imagens tão relevantes, mas que são de grande importância para o público.

Tanto os jornais quanto a TV noticiam com grande destaque a fase policial dos processos, quando as pessoas são apresentadas à sociedade como suspeitas de algum crime, porém ignoram a fase judicial quando, muitas vezes, são inocentadas. E tudo o que sai na imprensa são poucas linhas num pé de página.

Em suma: transformar a notícia em espetáculo "interessa ao público", mas não é "de interesse público". O autor critica a arrogância dos jornalistas em geral ? principalmente dos que apelam para meios fraudulentos na hora de apurar a matéria. Faz até uma pilhéria: "Médico pensa que é Deus, jornalista tem certeza."

Portanto, é bom lembrar: a competência profissional não dispensa uma boa dose de humildade.

Jornal de ontem

Quando abrimos o jornal do dia só vamos ler notícias que já vimos ontem na TV e na internet, ou que ouvimos no rádio. Que graça tem ler matéria velha? Será que não poderíamos desenvolver a criatividade para produzir o "jornalismo histórico", com as muitas ferramentas que hoje temos em mãos, como a internet, recorrendo a pesquisas documentais, entrevistas etc., transformando fatos históricos em saborosos textos jornalísticos? O autor vai mais além, ao indagar se não poderíamos ser mais criativos ainda a ponto de produzirmos o "jornal de amanhã". Segundo Noblat isto já existe. Lembra que a CNN noticiou a Guerra do Golfo antes que ela se iniciasse de fato, porque contava com grande equipe de profissionais especializados em análise. Em contrapartida, os jornalistas políticos do Brasil só noticiaram que a governadora do Maranhão, Roseana Sarney, estava fora da sucessão presidencial de 2002 quando ela convocou a imprensa para anunciar essa notícia óbvia, após o escândalo das notas de R$ 50 encontradas na Empresa Lumus, de seu marido, Jorge Murad.

Talvez não se invista nesse tipo de jornalismo porque as empresas estão sempre em contenção de custos, e não querem investir em profissionais competentes na análise da perspectiva dos fatos ? pois não se trata de fazer futurologia, mas de mostrar ao leitor a tendência dos acontecimentos, como fazem, por exemplo, os consultores de economia.

Outro ponto que Ricardo Noblat aborda é a própria definição de notícia. "O que é notícia?", indaga. E responde: "Notícia é tudo que os jornalistas escolhem para oferecer ao público." Muitas vezes os jornalistas valorizam mais as notícias negativas ? como forma de obter mais audiência para seu veículo ?, e então o mundo parece pior do que verdadeiramente é, segundo o autor.

Trata-se de uma verdade que deve ser objeto de reflexão, se lembrarmos que existe muito mais "liberdade de empresa" que "liberdade de imprensa" em todo o mundo. Dá para imaginar o poder e a responsabilidade das pessoas que "agendam o mundo", isto é, que decidem o que deve ser noticiado no mundo a partir de meia dúzia de agências internacionais. No caso do Brasil não é muito maior o número de famílias que controlam a imprensa, portanto, o pensamento nacional.

O valor do detalhe

Ensina Ricardo Noblat que os jovens profissionais não devem desprezar jamais a riqueza dos detalhes ? por menores que sejam ?, porque neles pode estar a chave de uma grande matéria. Mas só repara em detalhes quem desenvolve um excepcional poder de percepção, um padrão elevado de sensibilidade. Em algumas escolas de Jornalismo dos EUA (como em Berkeley), os estudantes são levados a recitar obras de Shakespeare e a ouvir música clássica, como forma de treinar a sensibilidade.

Segundo o autor, é melhor o repórter pecar por excesso de informação (a ponto de ter que jogar algumas no lixo se o espaço que lhe couber for insuficiente) do que por falta de detalhes na apuração de uma matéria. Para destacar a importância do detalhe, lembra que a quantidade de álcool que os jovens de classe média usaram para atear fogo ao índio Galdino, em Brasília ? um litro ? foi determinante em sua condenação. Imaginem se a imprensa não tivesse registrado essa quantidade corretamente, por preguiça de apuração?

"A importância de um fato é que determina a extensão de uma notícia. Mas, mesmo uma notícia de umas 30 linhas ganhará mais credibilidade se o repórter contá-la em detalhes", ensina Ricardo Noblat.

É preciso ficar claro que registrar detalhes numa apuração dá muito trabalho. Mas é o que faz a diferença num universo em que os jornais são todos iguais, de norte a sul do país, porque assinam as mesmas agências e publicam as mesmas manchetes e até a mesma foto. Quando o "detalhe" é gente, então o repórter precisa ficar ainda mais esperto. Afinal, "gente" não é detalhe, é sujeito da história. O autor cita o exemplo hipotético de uma mulher (Maria José da Conceição) barrada num show de Gilberto Gil, no Canecão, porque chegou atrasada devido ao trânsito. Ensina que personagem de matéria não pode limitar-se a um nome. Quantos anos tem Maria José? O que ela faz na vida? É casada ou solteira? Tem filhos? É gorda e baixinha ou alta e magrinha? Onde mora? Como estava vestida? Falava em voz alta ou em voz baixa?

Respostas a tais detalhes dão vida a um personagem e permitem que os leitores se identifiquem com ele. Afinal, gente gosta de ler histórias sobre gente, diz Noblat.

Apurar detalhadamente tem a ver com a explicação dos fatos ao leitor. É o que o Novo Jornalismo dos anos 60 chama de "interpretação". O bom profissional foge do "denuncismo", isto é, das denúncias sem provas. Não basta o truque de "ouvir os dois lados" e depois lavar as mãos. O leitor quer muito mais, quer as origens, as causas do fato, as conseqüências, os resultados dele. Tudo isso significa apurar com responsabilidade.

Para chegar ao fundo da questão, o repórter deve duvidar da primeira informação que recebe. Deve pesquisar melhor, confirmar com outras fontes, checar a informação, ler documentos e publicações de nível a respeito, buscar a verdade ? sempre por mecanismos legais e lícitos, e sempre lembrando que "nada é como parece", pois não existe verdade absoluta. É preciso ser cético.

Na hora da entrevista, segundo Noblat, nem sempre o gravador ajuda. Muitas vezes ele inibe o entrevistado e desliga o entrevistador, que passa a se preocupar apenas com o funcionamento do aparelho, sem prestar atenção ao andamento da entrevista. Também aconselha que se mude de assunto quando o entrevistado ficar nervoso com uma pergunta, reformulando-a mais à frente. O melhor é fazer antes as perguntas que ele gostaria de responder.

Ao confirmar notícias oficiais, o repórter deve tomar cuidado, porque "todo governo mente". Afinal, informação é poder. O bom profissional deve desconfiar de toda e qualquer informação de fontes oficiais, checando-a à exaustão. Sobre as informações em off, Noblat reconhece que o jornalismo não pode passar sem elas. Mas acha que toda informação em off só deve ser publicada depois de checada com outra fonte. Mesmo que a confirmação também seja em off.

De qualquer forma, o bom profissional jamais quebrará o acordo feito com a fonte, mesmo quando isso o levar a perder o emprego ou até a ir para a cadeia. O respeito à fonte é questão de ética. Boas fontes de informação são o capital mais valioso de um profissional da imprensa. Entretanto, Noblat admite que o editor do jornal tem o direito de saber quem é a fonte para avaliar o peso da declaração. Afinal, se o repórter não puder confiar no chefe dele como o chefe confiará no repórter?

Nem sempre é o repórter mais inteligente que consegue mais detalhes para produzir uma boa matéria. Noblat cita o jornalista Elio Gaspari, seu colega de Veja, para lembrar que "repórter bom é repórter burro", isto é, aquele que não tem vergonha de perguntar. Ele pergunta, pergunta, pergunta e volta para a redação com todas as dúvidas esclarecidas.

Para escrever bem

Jornalista que não gosta de ler escolheu a profissão errada. Ler muito é essencial para aprender a escrever bem. Não é na redação do jornal diário que o repórter aprenderá a escrever. A pressa não dá espaço a esse tipo de aprendizado. Saber escrever não é uma questão de receita. Não existe receita. O que existe é imaginação, concisão, clareza, objetividade. Uma boa técnica é ler o texto em voz alta para perceber as falhas.

Os parágrafos, segundo Noblat, devem ser como as caixas de lenço de papel: quando se puxa um o outro já fica na posição de sair. Quer dizer, um parágrafo deve se ligar ao outro para que o texto flua com serenidade, sem saltos, sem sustos. É isso que dá sentido e coerência ao texto.

Noblat também aconselha o jovem jornalista a não misturar informação com opinião. A opinião deve ser sempre assinada, e não pode ser confundida com interpretação.

Sobre a técnica do lead, Noblat acha que ela já está superada. Vem da Guerra da Secessão, nos EUA (final do século 19), quando os operadores de telégrafo só permitiam que cada correspondente passasse apenas o parágrafo mais importante da matéria para seus jornais, já que as ligações eram precárias e costumavam cair durante a transmissão. O melhor é usar a criatividade na abertura da matéria. Fica mais interessante.

Entretanto, quando se trata de redigir notas curtas, o lead é indispensável para o bom entendimento da matéria. Alguns recém-formados têm extrema dificuldade de escrever matérias curtas, porque não conseguem controlar a "verborragia". Alguns profissionais acham perigoso que os professores de Jornalismo abandonem as técnicas do lead, porque sair catando Quem, Que, Quando, Onde, Como e Porque pelo texto afora na hora do fechamento é uma perda de tempo enorme para a editoria. No que se refere à reportagem, então sim, a abertura criativa e a condução coerente do texto levam a uma leitura fluente, agradável, prazerosa, sem as amarras do lead.

Nenhum estudante de Jornalismo deveria deixar de ler, em 2003, o novo livro de Ricardo Noblat, que é mais uma contribuição para a melhoria da qualidade da imprensa brasileira. Afinal, quanto mais se dispensa o diploma mais o mercado precisará de profissionais preparados para fazer a diferença. Isto significa que os bons cursos vão sobreviver, os demais vão desaparecer. Vale o mesmo para os profissionais.

(*) Ex-redator do Correio Braziliense e ex-editor de cidade do Jornal de Brasília, professor do Departamento de Comunicação Social da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação da Unesp-Bauru

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