Quinta-feira, 14 de Novembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1063
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Procura-se jornalista seqüestrado

Por lgarcia em 06/02/2002 na edição 158

DANIEL PEARL

Antônio Brasil (*)

Jornalismo de verdade é trabalho perigoso e envolve risco. Na quarta-feira, 23/1, o repórter Daniel Pearl, do Wall Street Journal, foi seqüestrado e possivelmente morto durante o último final de semana. Ele é mais uma vítima da nossa profissão. Bombardeado pelos militares e seqüestrado pelos terroristas, os jornalistas estão na linha de tiro e são, cada vez mais, visados como verdadeiros alvos militares [veja remissão abaixo].

Mas apesar dos riscos, contra tudo e contra todos, ainda há colegas que decidiram investir na contramão de uma tendência e tentam fazer o mais difícil. Ao invés de se contentar em fazer jornalismo de efeito ? aparecer muito na TV, de preferência somente nas ruas de Londres ou de Nova York, longe dos conflitos, ganhar muito dinheiro e ficar famoso ?, Daniel Pearl resolveu investigar solitariamente as origens do terrorismo com o risco de ser considerado agente do Mossad ou da CIA. Aqui mesmo no Brasil, algum tempo atrás, jornalista que investigava denúncias contra a ditadura era sempre tachado de "comunista" e pronto. Prende e arrebenta!

Ao contrário dos militares americanos, Pearl estava tentando colher informações para entender o que estava realmente acontecendo. Não parecia se contentar em buscar o primeiro alvo sem correr risco. E se acreditarmos nas últimas notícias distribuídas pelas agências internacionais, o chefe do bureau no sul da Ásia do prestigioso Wall Street Journal decidiu fazer o que poucos querem, ou podem, mas que todos os jornalistas deveríamos ao menos tentar: buscar as notícias onde elas estão.

Daniel Pearl foi seqüestrado fazendo algo realmente perigoso. Corria atrás de uma entrevista com líderes religiosos muçulmanos que possuem ligações com grupos terroristas. Não deu outra. Caiu na rede do terror e virou moeda de troca numa guerra de mídia e de imagens.

Ao mostrar as condições humilhantes dos prisioneiros da guerra do Afeganistão em Guantánamo, Cuba, os jornalistas se superaram e em mais um furo de reportagem: exibiram ao mundo imagens impressionantes de homens presos, acorrentados como animais raivosos sob a mira dos fuzileiros americanos. Houve uma indignação mundial, inclusive entre os aliados mais leais dos Estados Unidos, como a Inglaterra. As imagens eram fortes e a reação imediata foi proporcional. Em vez de os terroristas investirem contra os militares americanos, numa verdadeira guerra de indefinições e dúvidas, o alvo escolhido foi, mais uma vez, um jornalista.

Tempos difíceis

A indignação internacional agora ficou por conta de outras imagens que chocam a todos. Elas mostram um jornalista amedrontado, algemado, com uma arma apontada para a cabeça e sendo tratado, segundo declarações de seus próprios captores, "da mesma forma desumana que nossos companheiros em Cuba". É uma guerra ao jornalismo com as melhores armas da nossa profissão: imagens chocantes e manchetes idem. No melhor estilo "sensacionalista" os jornais alardeiam: "Mistério sobre morte de jornalista" (O Globo, 2/2/02, pág.26), "E-mail anuncia execução de refém" (Jornal do Brasil, 2/2/02, pág.7), "Jornalista seqüestrado pode estar morto" (Folha de S.Paulo, 2/2/02, pág. A9), "Jornalista pode ainda estar vivo" (Último Segundo <www.ig.com.br>, 2/2/02).

As exigências dos seqüestradores do grupo que se autodenomina Movimento Nacional pela Reconstrução da Soberania no Paquistão são tão estranhas quanto o seu nome. E num sinal evidente dos novos tempos, eles também exigem que todos os jornalistas americanos deixem imediatamente o Paquistão.

Está aberta a temporada de caça aos jornalistas. São tempos difíceis para a prática da profissão. Até mesmo o editor-geral do Wall Street Journal resolveu se envolver e, num apelo dramático pela vida do seu repórter, propôs conceder espaço em seu jornal para que os seqüestradores divulguem suas idéias. E ainda declarou, num raro momento de humildade, que "por definição os jornalistas são meros mensageiros e, em liberdade, Daniel Pearl poderia explicar as causas e as crenças de muitas pessoas".

Fica a dúvida sobre o tipo de jornalismo que o WSJ anda praticando. Num meio em que os editores costumam ser muito arrogantes é difícil acreditar nas suas boas intenções ? embora admita-se que, no momento, vale tudo para salvar a vida de mais um colega em perigo. Mas prefiro mesmo o argumento, a mensagem e a sinceridade de uma outra jornalista, Mariane Pearl, casada com a vítima e grávida de 6 meses. Em entrevista à CNN, ela pedia pela vida do marido simplesmente porque ele era uma "boa pessoa" e mandava um recado dizendo que "o amava muito". Nada mais a declarar.

(*) Jornalista, coordenador do Laboratório de TV e professor de Telejornalismo da Uerj, doutorando em Ciência da Informação do Ibict/UFRJ


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