Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1024
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Promíscuos e felizes sob a ponte

Por lgarcia em 30/01/2002 na edição 157

BIG BROTHER

Fernando Neto (*)

Realmente curioso esse programa que se dissemina pelo mundo chamado Big brother! Suponho que deva sua origem à imaginação de George Orwell, ao descrever sua “teletela” no livro "1984″.

Mas o que pretende a mídia global, inicialmente holandesa? Aonde quer chegar? Se lembra o filme O show de Truman, não parece contudo muito interessada em fazer uma crítica sensata das invasões de privacidade de que o mundo moderno parece ser capaz, com a revolução científico-tecnológica.

Querem sugerir que o homem seria suscetível de… adaptação a tais situações-limite? Que poderia ser feliz em tal promiscuidade? Que criaria uma família assim, debaixo da ponte? Que seria capaz de amar e rezar assim? Que esse ajuste de coisas não é o sadomasoquismo entre grupos de voyeurs e exibicionistas?

Temo que inicialmente estejam contratando bufões ou personalidades psicóticas, inclinadas à devassidão e às relações passageiras, fúteis e irresponsáveis. Se é um teste, parece-me repugnante!

O sistema social parece acenar com uma estrutura de poder luciferina e invencível, talvez zombeteira e onipotente, enquanto escolhe suas vítimas ? escuto-pan-optizáveis, para lembrar Jeremias Bentham, citado por Foucault e Bobbio. E as premia com um dinheirão!

A diferença entre o clássico "zôo, prisão ou hospício" é que tais ensaios experimentais são de três meses apenas… E os “deuses olímpicos”, em vez de se esconderem numa torre pan-óptica, encobrem-se além de todos os outros. Verticalmente, o mistério de um poder invisível não-eleito pelo povo, portanto jamais uma democracia direta; horizontalmente, um ruir dos compartimentos estanques da civilização, dos quais não pode prescindir ? talvez os primeiros passos de retorno à barbárie, “Oh, brave new world!”

As crianças que dormem muito tempo no quarto dos pais é que têm tais fixações em torno do que os psicanalistas chamavam de “cena primária”, eventualmente uma concepção sádica do coito entre os pais.

Eis um trabalho para o Observatório da Imprensa! Porque, encarando o Big brother talvez com demasiado otimismo, será ele uma denúncia, feita pela mídia, da estrutura social que gera o impacto de uma tecnologia em transição que não é empregada a serviço do povo?

Os holandeses não são empresa privada? A mídia está a experimentar o que, além de maximizar os seus lucros?

(*) Médico

Obras citadas

**1984, George Orwell;

**Oh, brave new world!, Aldous Huxley;

**Vigiar e punir, Michel Foucault;

**Teoria geral da política, Norberto Bobbio;

**Obras Completas de Sigmund Freud.

Outras recomendações

**This perfect day, Ira Levin;

**A máquina do tempo, H.G. Wells.

Filmes

**O ovo da serpente (Hortssonat, 1978), de Ingmar Bergman;

**Invasão de privacidade (Sliver, 1993), de Philip Noyce, com Sharon Stone;

**A rede (The net, 1995), de Irwin Winkler, com Sandra Bullock.

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