Domingo, 24 de Fevereiro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1025
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Propaganda enganosa não deveria enganar a mídia

Por lgarcia em 05/10/1999 na edição 76

A Veja do fim de semana (fechada dois dias depois da proibição) traz uma matéria de capa sobre doenças cardíacas e nenhuma palavra sobre o assunto. E, num daqueles infográficos simplistas, de página dupla, sobre as verdades e mentiras sobre os efeitos da alimentação, no ítem do leite indica que os leites desnatados são mais saudáveis que os semi-desnatados.

Recomenda-se às grandes organizações jornalísticas inscrever seus profissionais no próximo curso de mestrado de jornalismo científico promovido pelo Labjor-Unicamp [clique o botão OfJor/Ciência]. Jornalismo médico não se faz com releases dos anunciantes.

 

Na sua edição de 22 de setembro, Veja revelou que a mulher do senador Roberto Requião (PMDB-PR), o temido Torquemada da CPI dos Precatórios, estava sendo investigada pelo envio ilegal de dólares para o exterior (equivalente a 250 mil reais). O senador teve de assumir que a mulher fez uma grande besteira envolvendo-se com doleiros e laranjas parecidos com que ele denunciara na CPI.

Se Requião tivesse ficado nisso, o assunto teria desaparecido do noticiário – mas não de uma folha corrida bastante enodoada por cassações e processos. Mas Requião, celebrado pelo apelido de “Maria Louca”, não pode ser contestado. E ameaçou: “Se eu não resolver isso pelos meios jurídicos, vou resolver a chicotadas, feito Jesus Cristo com os vendilhões do Templo”.

E da tribuna do Senado denunciou que a Editora Abril havia remetido ao exterior cerca de 260 milhões de dólares nos últimos sete anos. A informação fora enviada para a CPI dos Bancos, estava protegida pelo sigilo bancário e, conforme decisão do STF, só poderia ser revelada em caso de relevante interesse público.

No dia seguinte, na Assembléia Legislativa de Minas onde participava de um seminário, um repórter teve a ousadia de perguntar-lhe pela conta da mulher no exterior. Resposta de Requião: “Sua mulher teria saído com um cidadão, como está este problema?”

Acovardada, a imprensa não se mete com Requião (quem vem acompanhando o episódio, além de Veja, é o Painel do Estadão). Assim foi no verão de 1996, quando ninguém teve a coragem de revelar a vida pregressa do relator da CPI dos Precatórios. E quando a Gazeta Mercantil, três meses depois, relembrou sua biografia e este Observador cobrou aqui a passividade de toda a mídia diante de uma figura tão comprometida, foi ameaçado por um processo que o “darling” das esquerdas mandou instaurar no funesto DOPS e, não na justiça comum. O caso foi arquivado pelo próprio Ministério Público [veja remissões abaixo].

 

Fazer exames periódicos de próstata é rotina para todos os homens com mais de 50 anos. E quando aumenta a taxa do PSA no sangue é imperiosa uma biópsia transretal.

Paulo Maluf e Mário Covas submeteram-se a cirurgias para extrair as respectivas próstatas e não esconderam o caso de ninguém.

Mas Antonio Carlos Magalhães, vice-rei do Brasil, não poderia admitir publicamente que fez uma biópsia transretal. Seria uma afronta à sua virilidade. Assim, quando foi a São Paulo submeter-se à intervenção informou à imprensa que estava fazendo “exames de rotina”.

Mentira: biópsia não é exame de rotina. O presidente do Senado ainda tentou disfarçar mas foi desmascarado pelos médicos. Dias depois, fez blague reconhecendo o desconforto deste tipo de exame.

ACM admite que é candidato à presidência. Mas um candidato à presidência não pode mentir – veja-se a onda que Bush Jr. provocou nos EUA quando confessou suas experiências com cocaína.

O curioso – e preocupante – é que nenhum jornal ou jornalista cobrou de ACM a infração. Com tantos amigos em tantos escalões das empresas jornalísticas, ACM goza de imunidades especiais.

 

As edições de Época e Isto É que circularam no fim de semana de 2 e 3 de outubro ostentaram uma sobrecapa com um anúncio da Ford que encobria totalmente a parte jornalística, exceto o logotipo e a chamada superior. Veja aparentemente recusou porque não saiu com a vexaminosa inserção. Capa não se vende. Jornal que se preza não deveria publicar anúncios na primeira página. É um espaço simbolicamente reservado à função pública exercida pela imprensa.

Época e IstoÉ capitularam diante do valor pago. A Abril soube resistir. Nem tudo está perdido.

 

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