Quinta-feira, 21 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > TURMA DA MÔNICA

Quadrinhos também é imprensa

Por lgarcia em 29/08/2001 na edição 136

TURMA DA MÔNICA

Cláudio Weber Abramo (*)

Há anos, décadas mesmo, sinto cócegas de escrever o que segue. Creio que ser colunista de media watching me dá o privilégio de fazê-lo.

Era uma vez a Editora Abril. Durante as décadas de 1960 e 1970, a Abril foi a segunda maior editora de produtos Disney do mundo (a primeira era a italiana Fratelli Fabbri, se não me engano). Antigamente, as operações de quadrinhos funcionavam como franquias (creio que algumas ainda funcionam): as histórias não eram importadas e traduzidas, mas produzidas em cada país. Assim a Abril empregava uma equipe alentada de desenhistas. Um dos chefes era Maurício de Souza.

Um belo dia, Souza resolveu que valia a pena lançar uma operação própria. Para isso, bolou um conjunto de personagens a que deu o nome de "Turma da Mônica". Como todos sabem, a "Turma da Mônica" tem sido um grande sucesso. Além de quadrinhos, empresta a marca a lancheiras, dentifrícios, biscoitos e por aí vai. Ao que tudo indica, uma mina de ouro.

Mas o que é a "Turma da Mônica"? Nada mais do que uma versão consideravelmente emburrecida e pouco imaginosa do "Peanuts". O personagem central deste é aquele menino meio desajeitado parA quem nada dá certo. Na "Turma da Mônica", apesar do nome, o personagem pivotal é o garoto que tem problemas com os erres. A Mônica, cuja principal característica é ser insuportável, malcriada, invasiva, desrespeitosa e violenta quando contrariada (nessa exata identificação com o verdadeiro caráter do brasileiro médio residindo provavelmente o motivo de sua aceitação), é "escada" para o garoto dos erres. O extraordinário beagle de "Peanuts" tem sua contrapartida num cachorrinho besta. O garoto sujo da "Turma" vem diretamente do garoto que não toma banho em "Peanuts".

Mas o problema principal da "Turma" não é nem esse, mas a profunda idiotice de suas histórias. Enquanto quadrinhos como "Peanuts", "Calvin and Hobbes (Haroldo, em português)", "Mafalda", do absolutamente genial argentino Quino, empregam a ambientação num mundo infantil para abordar uma imensa variedade de situações humanas, os enredos da "Turma" nada têm a oferecer. O que exprimem é um imenso vazio de idéias, de imaginação, mesmo de bom gosto. (A esta altura o eventual leitor, educado na pseudo-objetividade do relativismo jornalístico, perguntará: "mas quem é você para julgar se algo é de bom gosto ou não é? Deixe que o público decida." Resposta: mais vale a opinião de quem tem convívio com o bom gosto do que todos os mercados do mundo, e estou me lixando para a massa ignara. É possível dizer isso de forma mais delicada, mas não estou a fim.)

O leitor pode fazer por si próprio a aquilatação da mediocridade da tal da "Turma": compre uma dessas revistinhas e tente ler as histórias que contém. Duvido que, após fazer isso, não decrete uma proibição doméstica. (Juro que fiz isso com meus quatro filhos.)

Deixando a "Turma" de lado, e quanto às tiras "modernas" da imprensa tupiniquim? Volto a isso na próxima coluna.

(*) Secretário-geral da ONG Transparência Brasil <http://www.transparencia.org.br>; e-mail <cwabramo@uol.com.br>

    
    
                     

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