Terça-feira, 17 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > FÉ NAS ESTATÍSTICAS

Qualidade e vida na imprensa

Por lgarcia em 20/01/2001 na edição 105

FÉ NAS ESTATÍSTICAS

José Carlos Marão

Amizade, camaradagem, bom humor, solidariedade não aparecem nas estatísticas. Mas poderiam aparecer nas muitas matérias que a mídia tem publicado sobre Águas de São Pedro, a cidade tida como a primeira em qualidade de vida no Brasil.

Os colegas que aparecem por aqui têm ficado nas fontes oficiais (talvez um vício adquirido durante a ditadura): falam com o prefeito e pronto. Também é possível que, acostumados a São Paulo ou Rio, fiquem tão maravilhados com o verde, com a limpeza e com o sossego, que esquecem algumas tarefas rotineiras da profissão. Se falassem com as pessoas que desfrutam dessa tão falada qualidade, porém, fariam uma descoberta interessante: a vida aqui é muito melhor do que se pode concluir pelas estatísticas, pela rede de esgotos, pelas áreas verdes ou pela água encanada. Águas de São Pedro, como muitos outros lugares do interior, ainda conserva valores que, nas grandes cidades, já estão diluídos no ruído e na poluição.

O curioso é que esses valores estão, de alguma forma, contidos em definições de qualidade de vida. E não me lembro de ter visto nenhuma definição em nenhuma publicação. Se os nossos colegas que fizeram matérias sobre a vida em Águas tivessem o tempo ou o hábito (que existia no meu tempo) de se preparar para fazer uma matéria, tentariam descobrir o que é que se considera boa qualidade de vida. Não teriam perdido mais que 15 minutos na internet para descobrir pelo menos uma definição, a da Organização Mundial de Saúde: qualidade de vida é "a percepção do indivíduo de sua posição na vida no contexto da cultura e sistema de valores nos quais ele vive e em relação aos seus objetivos, expectativas, padrões e preocupações“. Ambiente físico, cuidados sociais ou transporte são apenas alguns de uma lista de 23 itens (muitos deles de caráter subjetivo, psicológico ou cultural), considerados no estudo que chegou a essa definição. Ou também poderiam consultar os sites da ONU sobre índices de desenvolvimento humano. É o www.unpd.org. Ou, ainda, dar uma olhada nos Indicadores Sociais Mínimos, do IBGE.

E, mesmo que ficassem apenas nas estatísticas, poderiam comparar alguns números. A cidade tem, segundo o censo de 2000, 1.845 habitantes. Nas eleições de outubro, votaram 1.600 pessoas, de um eleitorado de 1660. Então, quantas são as crianças, com menos de 6 anos, pesquisadas pela Unicef e recentemente badaladas pela mídia? Qual a significação nacional desse número? Justiça seja feita, a Veja desprezou as cidades pequenas e falou de São Caetano do Sul, onde há muitas crianças e onde é mais difícil cuidar delas.

Se os editores, pauteiros, chefes de reportagem ou lá que título tenham hoje em dia tivessem sido mais exigentes, também teriam feito outras descobertas interessantes. Parece que a turma esqueceu de uma perguntinha importante: por que? E também nem sempre leva a sério aquela outra perguntinha: como? Apenas aceitam, docilmente, estatísticas e palavras oficiais.

Se neste Brasil de tanta pobreza há uma cidade como Águas de São Pedro, por que e como isso aconteceu? Quase sempre as matérias, por omissão, deixam subentendido algum milagre de administração municipal. Mas nada a ver: a cidade é assim desde que existe.

Águas de São Pedro é um loteamento com os requintes dos condomínios de hoje em dia: saneamento, plano urbanístico e tudo. Em 1948, no governo Adhemar de Barros, o loteamento de 3,6 km2 foi transformado em município. É uma ilhazinha dentro do município de São Pedro, que tem 618 km2.

Então, já viu: com tão poucos terrenos, a prefeitura alega que precisa cobrar um IPTU muito alto para cumprir seus orçamentos. O terreno mais barato custa coisa de 20 mil reais. O resultado é que a população de Águas de São Pedro é composta por gente de classe média-média e classe média-alta, salpicada aqui e ali por alguns milionários. A mão-de-obra da cidade (garçons, cozinheiros, alguns comerciantes, pedreiros, jardineiros, domésticas, carpinteiros, mecânicos) mora em São Pedro ou Piracicaba e não desfruta da tão falada qualidade de vida. As exceções são orgulhosamente contadas nos dedos: menos de 20 famílias carentes. Com área minúscula, servida de infra-estrutura e com uma população pequena, bem informada e com uma certa renda, a qualidade de vida é quase natural.

Imagine se alguma publicação resolvesse isolar uma área como Alphaville ou Tamboré, ou um condomínio em Angra, para medir ali os índices de desenvolvimento humano ou de qualidade de vida? Os números seriam fantásticos, mas logo alguém diria: ei, esse condomínio aí não é uma amostragem da população brasileira. Bem, Águas de São Pedro também não é.

Mas a qualidade de vida, do ponto de vista "dos objetivos e das expectativas", como diriam na OMS, é indiscutível e enriquecida pelo charme, pela camaradagem, pela simpatia que sempre existe nas pequenas cidades.

Ainda assim, há alguns pontos polêmicos. O IBGE diz que há um hospital na cidade, a oposição diz que só há um posto de saúde mal equipado e a situação, durante a campanha, de certa forma reconhecia isso, dizendo que já tinha verba para o hospital. De minha parte, sempre fui muito bem atendido.

As disputas políticas são resolvidas com costelas e dentes quebrados e processos que dão em nada, porque fica tudo em família e a amizade é a mesma. É parte do charme.

O trânsito é um sossego, nos dias de semana. No fim de semana, porém, as ruazinhas estreitas do centro não dão conta do tráfego, embora o plano urbanístico tenha sido feito pelo mesmo arquiteto que planejou Maringá e Cianorte, cidades modernas, onde, com ruas largas, ele previu a "invasão" do automóvel. Na avenida central, é permitido o estacionamento nos dois lados de cada sentido. No meio, se esgueiram carros, caminhões e os trenzinhos de turistas, levando com eles retrovisores dos carros estacionados. É charme.

Como convém à maioria das cidades brasileiras, o prefeito responde por muitos processos, está com os bens indisponíveis, mas, óbvio, se declara inocente e espera uma sentença justa. Como convém ao Brasil, ele foi reeleito. O ponto básico de sua campanha é a segurança, que de fato funciona e agrada aos marajás aposentados que escolheram Águas para morar.

Como convém a uma cidade de primeiro mundo, ela é cortada ao meio por uma rodovia, a SP 304, com intenso e pesado tráfego caminhões, que precisam levar a produção (inclusive os inflamáveis da refinaria de Paulínia) para os estados do Sul.

Como convém às estatísticas, se não há alunos aqui, vamos encher nossas escolas com jovens da vizinhança. Um velho ônibus faz quatro viagens grátis por dia e as esquinas das calçadas foram rebaixadas às pressas, caso alguém da ONU apareça por aqui, já que deficientes em cadeiras de rodas são poucos.

Como convém a uma cidade de alto nível de vida, Águas de São Pedro é contornada por um lindo riacho, o Araquá, que poderia ser ponto de encontro, ponto de pesca, passeios, lazer e cartão de visita da estância, se suas margens fossem ajardinadas e tratadas. Mas não ia adiantar: é lá que a Sabesp joga o esgoto da cidade.

Como convém à verdade oficial, nada disso está na mídia.

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