Domingo, 19 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > vs. SABATO

Quando o jornal deforma ou desinforma

Por lgarcia em 08/01/2003 na edição 206

FOLHA vs. SABATO

Ivo Lucchesi (*)

A indicação de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura, sem entrar na querela que rendeu diferentes matérias serviu, pelo menos, para recolocar na pauta da discussão a "cultura". Ou seja, por alguns dias se teve a sensação de que "cultura" também é matéria. Todavia, não é a nomeação do novo ministro que move o tema deste artigo. Na verdade, sua origem tem a ver com a "cultura jornalística" (ou o "jornalismo cultural"), em razão do que a Folha de S. Paulo de 4/1/03 publicou no caderno Ilustrada.

À chamada Livro/Lançamento segue-se o título "O escritor e seus fantasmas ? Reflexões do autor argentino sobre a literatura ganham edição brasileira." A free-lancer Francesca Angiolillo assina a matéria-resenha. Para melhor situarmos o leitor, reproduzimos a íntegra do parágrafo inicial:


"Há muito que Ernesto Sabato já não dá entrevistas. Grande parte do que se poderia perguntar ao autor argentino, porém, está respondido em O escritor e seus fantasmas, que chega às livrarias neste mês."


Tudo estaria ótimo, se o fato anunciado já não houvesse existido há 21 anos. Explicando: a belíssima obra mencionada foi publicada no Brasil em 1982, já com atraso de 19 anos (Sabato a publicou em 1963 ? edição argentina), pela editora Francisco Alves. Qualquer aluno ou profissional de Letras tem conhecimento do fato e, logicamente, da edição. Pelo visto, a free-lancer e o editor do caderno é que ignoram. No caso, fica difícil saber a qual dos dois cabe responsabilidade maior. Que o fato, porém, beira o risível é algo indiscutível. O mínimo de pré-requisito a exigir-se de um resenhista ou de um editor "cultural" é cultura. Tomar por acontecimento iminente o que ocorreu há 21 anos é anular a função do jornalismo. Seguramente, o episódio inexistiria, se entregassem a tarefa de resenhar a quem é do ramo. Igualmente, a correção em tempo dar-se-ia, se na função de editor houvesse alguém com trajetória intelectual sólida. É isto que o presente artigo tenta clarear.

O que efetivamente está em jogo é a credibilidade intelectual dos agentes responsáveis pelas mediações. Cobertura de área cultural requer atributos que obrigatoriamente passam pela filtragem, acuidade crítica, acervo de leituras sofisticadas y otras cositas más… O desconhecimento acerca da primeira edição brasileira atesta que resenhista e editor não tinham sequer a memória do fato. É bom lembrar, pois, que, à época, os principais veículos deram vasto espaço ao lançamento, em face da importância desse livro.

Auxílio ou prudência

Até a memória jornalística foi traída, como subtraída foi a autoria da bela orelha escrita pelo escritor e jornalista Flávio Moreira da Costa. Resenhas em revistas acadêmicas também não são poucas. Curiosamente ? por isso menciono o fato ?, no número 68 da tradicional Revista Tempo Brasileiro (1982), assino uma resenha sobre o livro Morte no paraíso: a tragédia de Stefan Zweig, de Alberto Dines. Páginas à frente, figura uma resenha da ensaísta Gilda Korff Dieguez sobre a edição brasileira de O escritor e seus fantasmas. Estranhos fantasmas rondam o cenário brasileiro…

Qual terá sido a origem do "delito intelectual" da Folha? Estará na raiz de tudo o excesso de "jovenzinhos" que crêem que o mundo começou ontem de manhã? Nada contra a presença atuante de jovens, desde que efetivamente preparados para ocuparem postos, principalmente no campo da cultura. Com ela não se pode negligenciar, sob pena de produzir-se arrastão de demolições. Se porventura o excesso de juventude displicente foi o responsável pela morte da memória, ponha-se em seu auxílio, enquanto é tempo, o suporte necessário, ou que a juventude tenha a prudência de não matar a memória. No mais, louve-se a iniciativa da Companhia das Letras por reinserir no mercado editorial obra de inegável importância, na esperança de que, daqui a 20 anos, não surja alguém para anunciar como novidade aquilo que 20 anos antes já se dera. Vamos torcer…

(*) Ensaísta, doutorando em Teoria Literária pela UFRJ, professor-titular da Facha, co-editor e participante do programa Letras & Mídias (Universidade Estácio de Sá), exibido mensalmente pela UTV/RJ

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