Segunda-feira, 23 de Setembro de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1055
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Quanto mais seco melhor

Por lgarcia em 18/04/2001 na edição 117

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CRISE DE ENERGIA

Carlos H. Knapp

Coerente com o seu proverbial otimismo, a Folha de S.Paulo insiste em agravar a crise hidrelétrica. Em 22 de março, sob o título "Reservatório de Furnas bate baixa histórica", vemos ao lado do texto uma grande foto em que há pouquíssima água no fundo de um talude. Entretanto essa foto não é do reservatório e sim do canal após barragem, escoadouro da água que já passou pelas turbinas. Para os leitores apressados que só vêem títulos e imagens (isto é, a maioria) o efeito é dramático, porém enganador.

Em 29 de março o jornal dedica uma página inteira ao mesmo assunto: "Até hidrovia pára com seca em hidrelétrica" é o título da matéria que ocupa a metade de cima da página. Na metade de baixo, lemos "Baixa do lago dá prejuízo de 60% à região de Furnas" e vemos outra grande foto, com a seguinte legenda: "Vista geral do lago de Furnas, que é conhecido como o ?mar? de Minas Gerais e está 12 metros abaixo do nível normal". A imagem contudo não é uma vista geral do reservatório e, sim, do vertedouro seco, após barragem, tendo ao fundo as mesmas águas que já moveram as turbinas. O observador atento distinguirá na foto uma estrada, edificações e torres de transmissão que estariam sempre submersas se aquele fosse o lugar da represa, como a Folha quer fazer crer, e se ela estivesse no seu nível normal. O observador desatento ficará mais alarmado ainda.

Crise maquinada

Em 10 de abril, a Folha volta à carga: "Gros e Tápias rejeitam venda total de Furnas", diz o título da página B 5. Ao lado da matéria, nova foto a jusante da barragem em que vemos os 8 dutos que levam a água às turbinas. Adiante, vemos o canal das águas servidas, isto é, a mesma imagem das duas matérias anteriores, vista de outro ângulo. A legenda é, de novo, mentirosa: "Represa de Furnas, em MG, que está abaixo do nível de segurança para operar nos meses secos".

Por que razão o jornal não publicou nenhuma vez a foto que deveria publicar, uma vista real do reservatório? Um engano nesse orgulhoso jornal não pode se repetir três vezes seguidas. Existirá uma deliberada intenção de impressionar negativamente o leitor? Mais um serviço ao deus Catástrofe? Ou estamos diante de uma campanha ligada, de algum modo misterioso, aos interesses que se opõem à privatização da hidrelétrica de Furnas?

Na edição de 29 de março, sob a rubrica Abastecimento, a Folha aponta o dedo e denuncia: "Sabesp maquina crise no sistema Cantareira", reproduzindo documento em que "a empresa orienta funcionários a ‘minimizarem especulações’ sobre racionamento na Grande SP" e "fugir do ?detalhamento? sobre o que provoca a diminuição do nível dos mananciais".

A contradição é pelo menos engraçada, uma vez que, editorialmente, o jornal pratica exatamente o mesmo de que acusa a Sabesp: maquina crise no sistema Furnas.

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