Quinta-feira, 17 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Quanto vale uma manchete

Por Repercussão em 13/06/2001 na edição 125

PICADEIRO

Luiz Egypto

A chamada não poderia ser mais estrepitosa: "Itamar anuncia boicote ao tarifaço", bradou, em corpo 48, a manchete principal da Folha de S.Paulo de quinta-feira, 7/6, no alto da capa. Abaixo, a informação: "O governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB-MG), anunciou que o Estado não vai cumprir as determinações impostas pelo governo federal de sobretaxar e cortar a luz de quem não atingir a meta de redução de energia elétrica".

Mais uma vez Minas se levanta contra o governo central autoritário. Mais uma vez a imprensa vocaliza bravatas do governador Itamar Augusto Cautieiro Franco.

No miolo, depois da leitura do texto da matéria ("Itamar anuncia boicote a racionamento e desafia FHC", pág. A 4), fica-se sabendo que a decisão do governador baseou-se em parecer da Procuradora Geral do Estado, Carmen Lúcia Rocha, que qualificou de "inconstitucionais", "ilegais" e "imorais" as normas baixadas pela Câmara de Gestão da Crise de Energia, o chamado "ministério do apagão" comandado pelo "príncipe das trevas", Pedro Parente. O texto informa também que "apesar da rebeldia, o governador disse que aceita cumprir a conta de redução estabelecida pelo governo". Ah, é? De acordo com a Folha, Itamar dissera: "Atendendo ao clamor da sociedade, na qualidade de seu representante, assumo o compromisso de reivindicar a descentralização política das atividades necessárias à implementação das medidas relativas ao racionamento". Quem conhece um pouco de mineirice e de mineiridade há de convir que o governador, nascido na Bahia, aprendeu muito bem na cartilha das Geraes.

Mas onde estava a "sociedade", da qual viera o "clamor" ouvido pelo governador? Somente no último quarto da reportagem tem-se a informação de que o cenário para o discurso do timoneiro das massas mineiras foi a sede da estatal Cia. Energética de Minas Gerais (Cemig), controlada pelo governo estadual. Segundo a Folha, "foram seis horas entre palestras, exposições e discursos políticos, muito aplaudidos", num evento que "reuniu todo o seu secretariado e apoiadores, além de industriais, para contestar as medidas e propor alternativas". Em suma: um tremendo palanque. Contudo, a matéria não informa se por ali estavam representados alguma associação de donas de casa, uma ou outra entidade de consumidores, clube comunitário ou sindicato de trabalhadores. Nada. Apenas "secretariado e apoiadores, além de industriais".

Como sói acontecer nessas circunstâncias, a Folha logo tratou de buscar a opinião de juristas (sempre os mesmos, sempre os amigos da casa) sobre o fato ? declarações publicadas na mesma data e página sob o título "Advogados dizem que atitude é jogo político". Bidu! O próprio jornal, na mesmíssima página já dava conta disso. À esquerda, as duas primeiras notas da coluna "Painel" informavam:

Casamento forçado

Ao negociar a reforma ministerial, FHC pressiona a cúpula do PMDB a comprometer-se desde já com uma candidatura tucana em 2002. O presidente avalia que, se não impedir o crescimento de Itamar na sigla, terá dificuldades até para colocar alguém no segundo turno.

Um pé em cada canoa

Com a crise energética e a queda da popularidade de FHC, a cúpula do PMDB não quer assumir nenhum compromisso para 2002. Fica na base do governo, mas deixa uma porta bem aberta para Itamar Franco (MG).

Estava mais que evidente a esperteza do governador de Minas em criar o fato, na sede da Cemig, e marcar posição no arranca-rabo interno do PMDB (partido ao qual recentemente filiou-se) na disputa por legenda na eleições presidenciais do ano que vem. Estava evidente, só faltou alguém que amarrasse as pontas. A Folha não o fez e caiu feito um patinho no jogo do governador.

No dia seguinte (sexta, 8/6, pág. A 7), o jornal traz um título de página "Itamar ameniza confronto com Planalto". A matéria informa que o governador "disse que apenas procurou divulgar que o Estado cumpre determinação judicial, já que há liminares que impedem provisoriamente a sobretaxa e o corte de energia". Ah, bom. E continua o texto: "Itamar ? que é pré-candidato a presidente e um dos principais desafetos de Fernando Henrique Cardoso ? disse que ?o Estado de Direito prevalece em Minas? e que as decisões do Executivo não podem se sobrepor às do Judiciário". Lembram-se do conselheiro Acácio?

Na mesma página A 7, registre-se, aparecem as retrancas "Ministro critica governador e diz que é candidato", "Tasso e Garotinho condenam gesto do governador mineiro" e "Cartas da Cemig acatam racionamento".

No sábado (9/6), escondidinha no pé da página A 13, a Folha traz nota de 13 centímetros sobre o assunto ("José Jorge diz que Aneel pode punir a Cemig"). Ali, o ministro das Minas e Energia já apontava o que de fato ocorreria na segunda-feira seguinte: o governo entrou no Supremo Tribunal Federal com um pedido de constitucionalidade para as medidas que instituiram o racionamento de energia. De acordo com a Folha, o ministro José Jorge atribuiu o gesto de Itamar a uma "forma de um possível candidato a presidente da República fazer política".

No domingo (10/6), o assunto morreu. Na segunda-feira, foi enterrado. Na terça, sob o título "MG poupa mais de 20%, diz Cemig", ressuscitou no caderno "Dinheiro", da Folha, na forma de um release requentado com o seguinte tempero:

Na semana passada, o governador de Minas, Itamar Franco, afirmou que não iria cobrar sobretaxa nem cortar luz dos consumidores que não conseguissem atingir a meta de redução, medidas suspensas no Estado por liminares judiciais. Itamar, que acusa o governo federal de ser o culpado pela crise, disse que só cumpriria as medidas caso o Supremo Tribunal Federal se posicionasse por sua constitucionalidade.

Apesar disso, o governador fez apelos públicos para que os mineiros continuassem a reduzir o consumo e disse que a Cemig cumpriria a meta de redução.

Quanto vale uma manchete? Para o leitor, neste caso, apenas um barulho ? entre tantos. Para Itamar Franco, um belo palanque a ser utilizado na campanha de 2002, chancelado pela credibilidade da Folha de S.Paulo.

    
    
                     

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