Domingo, 24 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

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Quantos lados tem o balcão?

Por Luciano Martins Costa em 30/12/2003 na edição 257

ALÉM DAS REDAÇÕES
Quantos lados tem o balcão?

Luciano Martins Costa (*)

O encontro com correspondentes estrangeiros, realizado semana passada em São Paulo, fez emergir uma série de questões antigas e ainda mal resolvidas do jornalismo praticado no Brasil. Uma delas, resíduo de tempos mais românticos que se destaca nesta época de crise e parcas oportunidades: de que lado do balcão você está? Por trás dela, rosnava a polêmica que divide profissionais empregados em empresas jornalísticas e seus colegas que trabalham para empresas de relações públicas e assessoria de comunicação.

Como pano de fundo da querela, que na verdade tem sido utilizada como biombo para as muitas frustrações que afetam nestes dias o profissional de mídia, revela-se o atraso com que ainda encaramos nossa profissão, e que de muitas formas faz a crise parecer muito maior do que realmente é. Uma visão restrita da mídia, nascida e sobrevivente dos tempos da lauda, e que teima em não evoluir com as novas tecnologias e novos formatos de negócios, parece impedir que os jornalistas percebam oportunidades que poderiam minimizar as atuais dificuldades do exercício da profissão.

É antiga a aversão dos jornalistas, tomados genericamente, por questões relacionadas aos resultados da imprensa como negócio. Nos anos 1990, quando os grandes jornais brasileiros começaram a buscar recursos mais modernos de gestão, a grande maioria dos profissionais adotou uma posição de distanciamento, quando não de oposição aberta, aos programas de treinamento e campanhas de qualidade. A omissão dos jornalistas deixou à vontade gestores pouco afeitos a sutilezas do jornalismo, abrindo o caminho para a valorização de consultorias também inabilitadas para o trabalho específico com empresas de comunicação. Ausentes dos processos de mudança, os jornalistas foram aos poucos sendo alijados das decisões de investimentos e dos cortes de custos, que passaram invariavelmente a atingir a própria redação.

Pontos de restrição

Muitos equívocos depois, quando o excessivo endividamento das empresas de mídia, combinado com dificuldades de mercado, produz a maior crise da história da imprensa nacional, um grande número de profissionais ainda revela premissas conservadoras que dificultam a percepção de oportunidades fora do circuito pauta-fechamento. À parte o louvável cuidado em preservar uma distância segura entre o espaço do "sistema ideológico" no qual se tomam as decisões editoriais e o espaço do "sistema de processos", no qual se garantem os recursos do negócio, ainda assoma por trás dessa ojeriza pelo balanço da empresa uma má compreensão dos tempos inexoráveis a que somos trazidos pelas novas tecnologias e pela configuração das relações globalizadas.

Atentos aos riscos da contaminação de sua profissão por interesses genericamente batizados de "comerciais", e premidos pelas circunstâncias da crise, os jornalistas parecem ignorar, em sua maioria, que a época pode ser mais de oportunidade do que de crise. Para isso, porém, é preciso que estendam sua visão, atualmente restrita ao ambiente da redação, para a amplitude da própria sociedade.

Não fosse apenas o fato de vivermos numa sociedade hipermediada, na qual o papel da mídia escapa do ambiente restrito das empresas de mídia e passa a ser partilhado por empresas de serviços em geral ? veja-se, como exemplo, o noticiário econômico-financeiro produzido por bancos, corretoras, consultorias e companhias de seguros ?, é preciso observar que os processos de fazer comunicação estão se diluindo por todo o ambiente social, criando novas referências e novas fontes de difusão de informação e conhecimento.

Para não estender muito a reflexão, observemos, por exemplo, os ambientes corporativos sob esse prisma da oportunidade. Desde 1999, quando as empresas em geral começaram a acreditar num novo mundo construído à base de bits e bytes ? o que, afinal, conduziu a uma ilusão de perspectiva e à explosão da "bolha digital" ?, está muito claro, para muitos analistas, que falta na maioria das companhias a mais primária capacitação para comunicação. Trocando em miúdos, pode-se afirmar que as deficiências de comunicação, que são um problema histórico na maior parte das empresas, transformaram-se em fonte de crises com a aceleração das relações de negócios e com o giro cada vez mais veloz dos processos de mudanças.

A maioria das empresas se vê na difícil contingência de ter de inovar constantemente, com base em times de gestores e executivos cujos modelos mentais não são favoráveis à inovação. Times conservadores, inabilitados para uma comunicação ágil e precisa, tornam-se pontos de restrição em processos essenciais ao negócio.

Metáfora de boteco

O jornalista purista estaria se perguntando: que diabos tenho eu com isso? ? e mais uma oportunidade escorreria de seus dedos. O jornalista tem tanto ou mais a ver com isso do que os psicólogos que ocupam cargos nos departamentos de recursos humanos ou do que os engenheiros e administradores que ocupam as diretorias de assuntos corporativos das empresas. Esse papel ? de educar o ambiente corporativo, renovar premissas e criar modelos mentais mais abertos ? cabe direitinho no perfil profissional dos jornalistas. Não é por outra razão que o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo tenta há meses formar um grupo de trabalho para discutir novas frentes de atuação para a categoria. Elas existem, são uma necessidade evidente do ambiente corporativo, mas é preciso mais do que romantismo para que sejam concretizadas.

O profissional de perfil humanista ? que se crê um modelo típico de jornalista ?, mais afeito ao debate político do que à análise de balanços, haveria de torcer o nariz para a possibilidade de vir a encarar uma carreira nova dentro de uma indústria ou de um banco. Mas convém observar que as relações sociais e políticas se dão hoje basicamente no ambiente corporativo, para se constatar que a velha e boa luta por direitos de cidadania e por uma sociedade melhor passa mais intensamente pelo local de trabalho do que pela praça pública.

Até mesmo as razões "ideológicas" ? para usar o restrito e antiquado sentido ao qual nos habituamos ? indicam que há hoje muito mais a fazer em termos de um jornalismo socialmente engajado do que há vinte anos. Educar gestores e executivos para que adquiram uma percepção de mundo mais humana, socialmente responsável e comprometida com um modelo de desenvolvimento humanista e sustentável seria tarefa gratificante para qualquer profissional.

A insegurança dos negócios globalizados, a busca de transparência na governança corporativa e a necessidade crescente de reconhecimento do valor social dos empreendimentos formam o cenário que revela a necessidade de profissionais com um perfil muito especial nas gerências de recursos humanos e nas diretorias corporativas de todos os tipos de empresas: jornalistas bem preparados, atentos aos resultados e capazes de atuar como educadores se encaixam perfeitamente nesse perfil.

Olhar para além das redações e das assessorias de imprensa seria a atitude inicial para a constatação dessa oportunidade. Os passos seguintes são buscar as qualificações necessárias para a atuação no ambiente corporativo, desenvolver habilidades de empreendedor e entender que o papel do profissional de comunicação deve ser desempenhado onde for mais necessário. E deixemos essa metáfora de boteco, esse negócio de um lado ou outro do balcão. Mesmo porque, o balcão não existe mais. O bom jornalista cumpre seu papel social em qualquer circunstância profissional.

(*) Jornalista

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