Quinta-feira, 23 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº967

PRIMEIRAS EDIçõES > BUSH & MÍDIA

Quatro anos de controvérsias

Por lgarcia em 20/01/2004 na edição 260

Edição: Beatriz Singer (com Dennis Barbosa)

BUSH & MÍDIA

Se há algo com que o presidente George W. Bush não se preocupou durante todo o seu mandato, foi a imprensa. Desde o momento em que foi eleito, em 2000, tentou ignorar a resistência de diversos meios de comunicação em aceitar sua vitória, por causa de um erro na leitura das cédulas na Flórida. Dias antes de Bush assumir o cargo a imprensa americana continuava a acompanhar a empreitada democrata de recontar os votos nas urnas problemáticas por meio de um consórcio que incluiu veículos como The New York Times, The Washington Post, The Los Angeles Times e CNN.

Em setembro de 2003, Bush assumiu publicamente que não lê jornal, apenas passa os olhos nas manchetes, preferindo confiar na objetividade de seus assessores, estes sim leitores assíduos de jornais.

A Casa Branca chegou ao ponto de preferir dar coletivas sobre a guerra no Iraque à mídia regional, abandonando a grande imprensa, pelo uso indevido de "filtros" tendenciosos. Ou de criar uma transmissora própria via satélite no Iraque para abastecer a mídia americana de cenas e fatos "reais". Os exemplos são numerosos. O atual governo americano não confia na imprensa. O fato é que a maioria dos repórteres que está hoje na Casa Branca não votou em Bush. O desconforto, de ambas as partes, é inevitável. Quem já teve a oportunidade de ver uma entrevista televisionada com Bush ? recentemente o canal a cabo A&E Mundo reproduziu no Brasil uma entrevista da ABC ? nota claramente a tensão dos diálogos. O ano de 2004 é de eleição, e é possível que a postura dos republicanos mude ao longo dos meses.

Pecado capital

Por enquanto, Bush e a Casa Branca continuam hostis. No ano passado, o presidente disse a um repórter: "Vocês fazem uma gigantesca suposição, a de que representam o que o público pensa". Noutra ocasião, disse que a imprensa é "elitista", um monte de gente tentando "montar uma manchete ou uma reportagem que faça com que o público preste atenção a sua revista, a seu jornal ou a sua emissora". O chefe da Casa Civil, Andrew Card, disse achar também que os jornalistas "representam o público tanto quanto qualquer outro grupo".

Os comentários acima, inéditos, foram reproduzidos pelo analista de mídia Howard Kurtz [The Washington Post, 12/1] a partir de artigo do colunista Ken Auletta, da New Yorker impressa, que abordou a relação de Bush com a imprensa americana. Auletta voltou ao tema em entrevista ao repórter Daniel Cappello, da New Yorker Online Only [13/1/04]. O veterano Kurtz considerou impressionante a natureza de tais comentários, "até desonrosa". O conselheiro de Bush para assuntos de mídia, Mark McKinnon, disse "que o papel e a importância do quadro de repórteres da Casa Branca diminuiu hoje talvez significativamente".

Na entrevista a Cappello, Auletta diz que há duas diferenças de comportamento, em relação à imprensa, entre Bush e os presidentes anteriores. A equipe de Bush é mais disciplinada e forma uma unidade coesa, leal ao presidente. Além disso, "rejeita a idéia apresentada pela maioria dos repórteres de que são neutros e representam o interesse público". Dessa forma, a Casa Branca trata a imprensa como apenas mais um grupo de interesse, disse Auletta. A segunda diferença decorre da primeira: as declarações em off são um pecado capital para os funcionários do governo.

Com desprezo

Auletta afirmou que o governo Bush tem certa razão ao reclamar do pendor liberal da imprensa. Os próprios repórteres da Casa Branca reconhecem, particularmente, que são "mais liberais do que a maioria dos eleitores americanos", disse Auletta. "Um deles nota freqüente tendenciosidade quando se fala de aborto, assunto em que os conservadores são vistos como fanáticos, e os favoráveis à escolha [como são chamados nos EUA os pró-aborto] são considerados defensores dos direitos humanos". Auletta acredita, porém, que a maioria dos repórteres tenta ser justa, mas acaba inconscientemente parcial. "Eles descrevem a imprensa como crítica de todos os presidentes, não apenas dos conservadores".

Ao discorrer sobre o compromisso do presidente de facilitar o acesso da imprensa, Auletta acha que o atual governo não tem cumprido a função plenamente. "Bush deu apenas 11 entrevistas coletivas, menos do que qualquer outro presidente moderno", afirmou. "Seu pai concedeu 71, e Bill Clinton, 38".

Do outro lado da moeda, os jornalistas também se queixaram a Auletta. "Freqüentemente nos tratam com desprezo", disse Elisabeth Bumiller, repórter do New York Times. Para Auletta, a imprensa só começou a prestar atenção em Bush após o 11 de setembro de 2001, quando ele se tornou um "presidente em tempo de guerra". Embora vista como adversária pela Casa Branca, e até mesmo de se considerar como tal, a imprensa americana, para Auletta, falhou em "analisar as declarações sobre a presença de armas de destruição em massa [no Iraque] da maneira como deveria". Uma parte da mídia, principalmente a Fox News, "tratou dissidentes como antiamericanos". "A imprensa só ficou mais crítica quando Bush declarou ?missão cumprida?, no dia 1o/5/03, a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln".

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