Domingo, 21 de Outubro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1009
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Que país é esse? Que ciência é essa?

Por lgarcia em 20/09/1998 na edição 53

Mônica Macedo

 

Os americanos, ao contrário dos brasileiros, estão constantemente empenhados em saber o que o público pensa da ciência e da tecnologia. Desde 1979, a National Science Foundation (NSF) faz pesquisas regulares de opinião junto à população para aferir o interesse por C&T e o conhecimento de conceitos científicos. No Brasil, dispomos de uma pesquisa feita em 1987, pelo Instituto Gallup, a pedido do CNPq e publicada sob o título “O que o brasileiro pensa da ciência e da tecnologia”. De lá para cá, nada do mesmo porte foi feito.

No país das estatísticas, a mais recente pesquisa da NSF, publicada em julho pela revista Nature e também noticiada pelo jornal Notícias Fapesp, mostra que a porcentagem de americanos que demonstram interesse em ciência e tecnologia cresceu nos últimos anos, de 61%, em 1992, para 70%, este ano. Ciência supera, inclusive, temas dominantes do noticiário cotidiano, como política e economia. Para Jon Miller, um dos coordenadores da pesquisa, isso se deve, em parte, à ampla cobertura jornalística nessa área.

Deduz-se daí que a cultura científica do americano seja grande ou, pelo menos, razoável, pois trata-se de uma população que lê regularmente sobre o tema, certo? Errado. Ao mesmo tempo que a maioria dos americanos mostra interesse pelo noticiário científico, apenas 11% sabem explicar o que é uma molécula, 44% sabem que elétrons são menores que átomos e, pasmem, apenas 45% sabem que a Terra leva um ano para dar a volta em torno do Sol; o restante acredita que ela o faz em um dia.

Se fizéssemos a mesma pesquisa no Brasil, incluindo nossos mais de 16 milhões de analfabetos, certamente o desconhecimento seria maior. Mas o que nos interessa nos resultados da pesquisa da NSF é outra questão. Que tipo de cobertura jornalística é essa que desperta grande interesse público na ciência e na tecnologia, mas mantém os leitores na ignorância de conceitos forjados pela ciência séculos atrás?

A resposta ao problema talvez esteja nas prateleiras do supermercado da imprensa, conforme expressão do jornalista Carlos Tautz, em artigo ao Jornal da Ciência da SBPC (11/9/98). A imprensa explora a “descoberta” e o “inédito” na ciência, oferecendo ao leitor a notícia científica da mesma forma que se oferece um pacote de arroz na prateleira do supermercado, um produto pronto para o consumo. Por outro lado, como bem nota Tautz, os próprios cientistas também colaboram para mediocrizar a ciência, ao perseguirem incondicionalmente o prestígio pessoal e desprezarem outras formas de conhecimento.

Já há algum tempo a ciência vem reconhecendo o equívoco de se ter pretendido um saber todo-poderoso, que seria capaz de dar resposta a todos os problemas da humanidade. Estamos vivendo o momento de superação dessa visão mas, em grande parte, cientistas e jornalistas ainda não nos demos conta disso. Fazer ciência não é descobrir as leis da natureza. Comunicar não é meramente transmitir informações. Nos resta o desafio de criar uma alternativa à divulgação tradicional, discutir o papel da ciência e prestar mais atenção a saberes e sujeitos até agora menosprezados, tanto no processo científico quanto jornalístico. Ou então, não nos surpreenderemos com resultados como os da pesquisa da NSF, que continuarão a se repetir.

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