Sexta-feira, 20 de Outubro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº962

PRIMEIRAS EDIçõES > ASSESSORIAS DE IMPRENSA

Que tipo de jornalista é mais jornalista?

Por lgarcia em 30/12/2003 na edição 257

ASSESSORIAS DE IMPRENSA

Flavio de Mattos (*)

É mais médico o médico que trabalha para o governo em um hospital público do que o médico que trabalha para um empresário em uma clínica particular? É mais ? ou menos ? médico o que atende somente em seu consultório privado? O que trabalha para um clube de futebol? Ou o que está as 24 horas do dia à disposição do presidente da República? Creio que ninguém discorda de que são todos, igualmente, médicos. Por que haveriam de ser diferentes os jornalistas que trabalham para jornais dos que trabalham para assessorias?

Jornalista é o profissional que está habilitado a transmitir informações sob a forma de notícia, por meio de qualquer veículo de comunicação. No Brasil, hoje, a lei determina que esse profissional seja formado em uma universidade. Se lhe deve ser exigido um diploma específico para exercer essa função, é um debate do qual me furto neste momento. Adianto apenas que acredito que sim. No entanto, o mais importante é que detenha as habilidades
necessárias para a construção de um texto jornalístico. É isso que faz o profissional. Que seus serviços sejam contratados por uma empresa jornalística privada, por um órgão de governo, por uma empresa multinacional de veículos, por um sindicato de trabalhadores, por um partido político não me parece tornar esse profissional em mais jornalista ou menos jornalista.

Costumamos ter uma visão um pouco romântica de nossa profissão e gostamos de acreditar que somos sempre o centro e motor dessa grande engrenagem que gera notícias. Somos uma peça, algumas vezes das mais descartáveis, de uma máquina ou talvez de um aparelho ? como chamou Louis Althusser ? dos aparelhos ideológicos do Estado. A idéia de que a imprensa está a serviço da ideologia dominante, detentora dos meios de produção, inclusive de informações.

Esta é uma realidade que nós, jornalistas, temos muita dificuldade de aceitar. Nos grandes veículos de comunicação somos a voz do dono. É a pessoa, ou o grupo econômico, que detém o capital do veículo quem determina sua linha editorial. Conhecemos a história dos grandes meios de comunicação no Brasil e sabemos que para muitos deles o jornalismo é uma atividade secundária, comparada com seus outros interesses econômicos, que podem estar no mercado de frangos, de café ou de capitais. E já vimos jornalistas serem demitidos, não por incompetência, mas, sim, por não atentarem para esses interesses nos veículos em que trabalhavam.

Secos e molhados

Na chamada grande imprensa, o jornalismo só pode ser "livre, crítico e, se necessário, impiedoso", como propôs Ricardo Noblat, com os inimigos do patrão porque com seus amigos, aliados políticos ou anunciantes, não o será. Em seu artigo "Assim é, se lhe parece" [remissão abaixo], Noblat afirma que "em última instância, quem paga o salário do jornalista é o público que consome o que ele apura e divulga". Sabemos que a venda em bancas e as assinaturas representam uma parcela muito pequena na receita de um veículo de
comunicação. As empresas jornalísticas se mantêm, principalmente, com as verbas de publicidade. E o maior volume de anúncios vem dos governos, federal, estadual e municipal. Qualquer um de nós pode se lembrar de mais de um caso em que esses anúncios foram utilizados como moeda de troca, visando a publicação, ou não, de alguma notícia. Quantas cabeças de jornalistas já rolaram a pedido, quase ordem, dos donos dessas verbas…

Como falar em jornalismo livre e independente dentro de um quadro como o descrito? O jornalista deve tentar ser livre e independente e, como disse o próprio Noblat, atuar de acordo com sua consciência, mas não pode esquecer-se que é a voz do dono. Alguns de nós já deixaram um veículo de comunicação por discordar de sua linha editorial ou por não concordar em manipular uma informação para atender aos interesses do dono ou do editor. Mas outros já tiveram que engolir em seco e fazer o que mandavam para não perder o emprego.

O jornalismo só é livre e independente enquanto não vai contra os interesses dos donos das nossas vozes. E isso só é possível quando o próprio jornalista é o dono do veículo. Millôr Fernandes, citado por Noblat, participou do experimento mais importante que o Brasil conheceu nesse sentido, que foi o semanário Pasquim. A imprensa alternativa, sim, pode ser livre e independente. O resto é, mesmo, armazém de secos e molhados. Um negócio, quase como qualquer outro, com a agravante que ademais de vender anúncios, "vende" idéias.

Verdade dos fatos

A objetividade é um mito que nem os próprios manuais de jornalismo que a defendem crêem existir. Em um dos mais tradicionais, o do velho jornalista americano Carl Warren ? que cito a partir da versão espanhola de 1975, com título Géneros periodísticos informativos ? diz:


"A primeira obrigação do jornalista consiste em transmitir as notícias com exatidão e honradez, sem preconceitos nem opiniões pessoais. Porém, se o veículo tem uma linha política definida, ou se engaja em uma campanha determinada, é provável que sua colaboração seja solicitada. Nesse caso, a posição que adotará será a do editor, que, talvez, não coincida com a sua. A política editorial é um fato na vida jornalística que as pessoas que escrevem e confeccionam os periódicos devem reconhecer e aceitar.

"Afirmamos antes que todo repórter deve ser objetivo, veraz e, especialmente, respeitoso com a norma de não editorializar. Isto significa, manter sua opinião pessoal à margem da notícia, evitando palavras ou expressões que possam lançar uma luz favorável ou desfavorável sobre os acontecimentos. Aqui devemos estabelecer uma distinção significativa entre o hábito de editorializar e a política editorial. O primeiro consiste em colorir a informação de maneira a aproximá-la do ponto de vista do redator, e isso está proibido, quando a sua opinião não coincide com a da publicação. O segundo consiste em orientar as notícias segundo o ponto de vista do diretor, e todos os periódicos o aprovam, em maior ou menor grau".


As palavras são textuais do livro de Warren (pág. 352). O que ele explica é que o jornalista deve ser objetivo; o jornal, não necessariamente. A chamada "política editorial" justifica que o noticiário seja distorcido intencionalmente. Vemos isso acontecer todos os dias com a ditadura da pauta. Se o fato não coincide com a pauta, mude-se o fato, não a pauta. Nesses casos, é "solicitada" a "colaboração" do jornalista para expressar uma posição que, talvez, não seja a sua. Esta, só poderá ser expressa se coincidir com a da publicação, se não, está proibida.

Transmitir notícias com exatidão e honradez é a obrigação do jornalista em qualquer que seja o veículo. E é isso que iguala o profissional de imprensa ao profissional de assessoria. A todos é exigido o mesmo: a verdade dos fatos. Para evitar, igualmente uma discussão sobre a relatividade da verdade, talvez fosse mais adequado dizer: a todos é proibido mentir. É com verdades que se faz uma boa assessoria de imprensa. A credibilidade é o mais fundamental de todos os requisitos para esse trabalho.

Responsabilidade social

É claro, como foi visto, que a notícia tem interesses. Na assessoria de imprensa, o interesse é explícito: apresentar o ponto de vista do assessorado. Não há engano: quem recebe um press release sabe quem é a fonte e que crédito tem. Já na grande imprensa, sujeita aos mais diversos tipos de pressão, os interesses estão escamoteados do leitor. Este recebe, muitas vezes, como verdade um ponto de vista que busca influenciar sua opinião, em vez de dar-lhe, simplesmente, elementos para formá-la.

Enquanto assistimos a esses "templos da objetividade", segundo a visão de alguns colegas, distorcendo e manipulando informações, podemos ver assessorias de imprensa atuando com extrema dignidade na transmissão de suas informações. Um exemplo de respeito ao cidadão e de prestação de serviço público é a estrutura de comunicação social do Senado Federal. A Rádio Senado e a TV Senado transmitem ao vivo as sessões plenárias e os trabalhos das comissões. Qualquer pessoa pode acompanhar as atividades do parlamento, sem que ninguém faça juízos de valor sobre o que acontece. O Jornal do Senado publica tudo o que se discute e se vota naquela Casa e a Agência Senado veicula por internet, em tempo real, essas atividades. É a informação em sua forma bruta, que permite aos espectadores ou leitores realizarem seus julgamentos.

Esse trabalho é realizado por jornalistas, grande parte deles originários das grandes redações e que colocam sua experiência a favor da realização de um jornalismo preciso e honrado. O que se faz ali é dar transparência ao trabalho da instituição, do Senado e dos senadores, sem orientar a opinião do espectador ou leitor a favor ou contra qualquer um deles. Atendendo, neste caso, sim, uma exigência do patrão, o contribuinte, pois é seu imposto que paga os salários desses jornalistas.

Transformar em matéria, inteligível por qualquer pessoa, as decisões que são ali discutidas e votadas é uma das missões mais importantes desses veículos. Isso garante que o cidadão comum possa tomar conhecimento do que significa em sua vida cada uma dessas medidas. E lhe permite atuar a favor ou contra elas.

Não é um jornalismo crítico, e muito menos impiedoso. Não é o seu papel. É, porém, um tipo de jornalismo com enorme responsabilidade social. Maior que muito do que se faz na chamada grande imprensa. Mas seria isso razão para que o jornalista de um desses veículos fosse considerado mais jornalistas que o de outros? Creio que não. Creio que em imprensa ou em assessoria somos todos, igualmente, jornalistas. Com mais problemas em alguns veículos que em outros, mas com a mesma missão: informar bem.

(*) Mestre em Comunicação Social pela Universidade de Brasília, doutorando em Jornalismo pela Universidade Pompeu Fabra, em Barcelona, Espanha; foi diretor do Jornal do Senado e da Agência Senado

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