Sexta-feira, 21 de Setembro de 2018
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1005
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PRIMEIRAS EDIçõES > ASPAS

Quem não ama a cor morena?

Por lgarcia em 20/02/2000 na edição 84

“Lição de ignorância”, copyright Folha de S.Paulo, 12/2/00

A coleção ‘Formadores do Brasil’ é resultado de um grande investimento para cobrir uma lacuna no Brasil: a publicação de documentos históricos originais. Estão sendo produzidos dez volumes desta coleção. Foram lançados dois: ‘Diogo Antonio Feijó’, organizado por mim, e ‘Bernardo Pereira de Vasconcelos’, por José Murilo de Carvalho. Este ano devem ser lançados mais seis volumes, trazendo a obra de brasileiros como José Bonifácio, Visconde de Cairu, Hipólito da Costa e Pimenta Bueno. Digo ‘devem’ porque cada um desses volumes exige um gigantesco trabalho de pesquisa, sujeito a muitas incertezas.

Os originais estão dispersos em arquivos de todo o país, muitos em estado precário – o que exige um longo trabalho de garimpagem. Por si só, esta situação revela a importância do projeto. Para enfrentar a tarefa de encontrar o material (inclusive iconográfico) e restaurar os textos para o leitor contemporâneo, atualizando ortografia e pontuação com rigor, produzindo notas, juntando as indicações de pesquisa e fortuna crítica, foi preciso reunir o que há de melhor na historiografia brasileira. O conselho editorial que supervisiona a tarefa reúne os maiores historiadores do país: Fernando Novais, Boris Fausto, Evaldo Cabral de Mello, José Murilo de Carvalho e Sergio Goes de Paula. Graças à excelência deste conselho, foi possível reunir uma equipe de pesquisadores com alta competência acadêmica e dar um padrão elevado a cada livro.

Esta introdução se faz necessária porque num agregado de palavras apresentado neste Jornal de Resenhas (8/1/2000, ‘Uma Personagem Polêmica’, de Miriam Dolhnikoff), quando se comenta a coleção, informa-se apenas que ela seria cópia de uma outra, que reapresenta obras isoladas de autores do século passado e, portanto, não tem nenhuma característica em comum com ‘Formadores do Brasil’. Não é exatamente fácil produzir um equívoco informativo desse porte – e nem é este o único evento dessa natureza na peça, o que obriga a uma outra exposição.

O volume ‘Diogo Antonio Feijó’ é a mais completa reunião de textos já publicada deste líder fundamental na formação do país. É o primeiro volume organizado a partir de toda a sua obra, encontrada após um duro trabalho de pesquisa em mais de uma dezena de arquivos – material completo este que estará proximamente à disposição de todos os brasileiros na Internet. Há nada menos que 88 anos os textos de Feijó não eram publicados.

Não existe naquela resenha qualquer informação sobre esta dimensão de novidade do livro. Pior: as informações sobre o coração do volume, os textos de Feijó, se resumem a apenas duas breves referências, perdidas em meio à confusão. A primeira afirma que ‘todos os textos importantes de Feijó podem ser encontrados no livro’. Pena que essa frase seja tudo que se encontra sobre o subconjunto destes ‘textos importantes’, o que impede o leitor de saber quais seriam.

A segunda asserção lamenta que haja também ‘textos supérfluos’ – ou, em outras palavras, estranhamente lamenta que tenha chegado ao leitor mais do que o necessário. Esta segunda asserção, ao contrário da primeira, é qualificada por um comentário, aliás errado: o de que os textos retirados das atas do Conselho de Província estariam no livro apenas por conter a assinatura de Feijó. Na verdade são os projetos apresentados por Feijó e aprovados pelo Conselho.

Menos grave esse erro que um outro. Na apresentação aos textos, digo que houve pouca pressão sobre os eleitores na escolha de Feijó para regente, em 1835, porque não havia candidatos conservadores viáveis. Por causa disso, sou apresentado como ignorante em história. O texto afirma que ‘os conservadores não só participaram, como um de seus mais importantes líderes, Holanda Cavalcanti, perdeu de Feijó por cerca de 600 votos’. O Holanda Cavalcanti aí referido vem a ser Antonio Francisco de Paula e Holanda Cavalcanti de Albuquerque, deputado entre 1826 e 1838, senador daí até 1863, três vezes ministro da Fazenda, membro do Conselho de Estado – que sempre foi um político liberal. Tão liberal e tão próximo às posições de Feijó que Joaquim Nabuco resumiu suas posições políticas com a seguinte frase: ‘Era um Feijó-Cavalcanti, nascido e criado nos engenhos do norte’.

Falhas dessa gravidade têm sua função: ajudam a entender por que o espaço para a exposição do trabalho coletivo necessário para se fazer o livro, bem como seu conteúdo, se resume a três referências, enquanto os ataques ao organizador são tão fartos: há 28 referências negativas à minha pessoa no texto. Essas referências se contrapõem a 12 referências positivas indiretas, auto-atribuídas ao narrador. Em outras palavras, o centro do texto não é uma análise do livro, mas uma discussão de autoridade entre resenhista e organizador, fora do contexto da obra. O primeiro, que pretensamente conhece mais, alerta ao leitor não sobre o livro (praticamente ignorado), mas sobre a suposta baixa qualidade do organizador. Neste contexto, o erro grotesco – erro de fato, erro sobre o repertório de conhecimento, não apenas erro de avaliação – sobre Holanda Cavalcanti se transforma em ponto central para um juízo sobre a autoridade. Mostra com toda clareza que quem afirma muito sua superioridade, conhece pouco do assunto. Uma verdadeira aula de ignorância. [Jorge Caldeira é doutor em ciência política pela USP e organizador de ‘Diogo Antonio Feijó’ (Editora 34)]”

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