Segunda-feira, 21 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

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Quem paga a fatura e quem fatura a pesquisite

Por lgarcia em 05/07/1998 na edição 48

Alberto Dines

 

É legítimo que as empresas especializadas em sondagens de opinião faturem alto na temporada alta, pré-eleitoral. Afinal, este é o seu negócio, vivem de acertar prognósticos para conquistar novos clientes.

O que ainda não sabíamos é que há gente ganhando muito dinheiro com os surtos de pesquisite estimulados através da mídia. São os grandes investidores do mercado financeiro ou cambial que encomendam levantamentos e, com base nos resultados, fazem as suas posições. Depois, vazam os primeiros resultados para os colunistas ávidos por badalações. O mercado se agita, a mídia magnifica repercussão fazendo subir ainda mais a temperatura do compra-vende e os investidores realizam o lucro.

Não se trata de maquinação conspiratória inventada num botequim. Isto está minuciosamente contado na primeira página da Gazeta Mercantil (26/6/98): “Mercado joga com impacto de pesquisa eleitoral – sondagens ajudam bancos a ganhar dinheiro”. Na continuação (p. B-1): “Mercado antecipa efeito de pesquisa eleitoral – sondagens próprias ou adquiridas de institutos especializados ajudam bancos a ganhar dinheiro”.

O Ibope tem dois clientes na área financeira para os quais faz levantamentos regulares. As pesquisas que contam no setor financeiro são do mesmo Ibope, Vox Populi e Datafolha. “Sabê-las com antecedência eqüivale a dispor de uma informação que pode ser determinante para a formação de expectativas”, diz o repórter Rodrigo Mesquita, da sucursal do Rio, que assina a matéria.

Revela também que, de acordo com a legislação eleitoral, os institutos só têm que registrar no TSE as pesquisas divulgadas pelos meios de comunicação. Uma pesquisa realizada para um investidor e que depois infiltra-se pelos meandros da mídia fica fora de controle judicial. “Ganha-se, realmente, dinheiro com isso”, diz Paulo Ferraz, presidente do Banco Bozano Simonsen. (Ver abaixo remissão para Entre aspas).

Na mesma Gazeta, terça seguinte (30/6/98), outro exemplo da pesquisite a serviço de altos negócios. Com chamada de primeira página: os cenários pré-eleitorais de bancos de investimentos e consultorias desenham a perspectiva de um segundo turno.

Agora, duas aberrações produzidas pelo “jornalismo pesquisóide” (ambas da Folha, o jornal que mais se fascina com as sondagens):

* A manchete da primeira página do domingo (sempre !), 21/6/98, dizia que 51% dos paulistanos se opõem à privatização da Telebrás. Mas, apesar disso, 46% acham que o serviço vai melhorar depois da privatização.

A Folha não errou, o Datafolha não errou. Quem erra são os jornalistas que se prostram diante do culto da estatística, esquecidos de que uma amostragem quantitativa com perguntas fechadas sobre uma questão técnica pode gerar este tipo de distorção.

A manchete da primeira página do domingo (sempre !), 27/6/98, revela que, finalmente, o jornal entrará nas pesquisas qualitativas (onde grupos de entrevistados opinam de forma abrangente sobre o teor das questões em pauta). Seria ótimo indício não fosse a conclusão óbvia e ululante da amostragem inaugural: o eleitor quer que o próximo presidente seja uma combinação das qualidades de FHC com as de Lula.

Se o confronto está polarizado entre os dois candidatos (e certamente estava ainda mais embolado na época das entrevistas) a conclusão não poderia ser diferente. E, para culminar este festival de evidências, a indefectível fotomontagem de um rosto em que se combinam os traços de FHC (em maioria) com os de Lula (minoria).

Brincadeira para um domingo tranqüilo, depois das emoções do Brasil, 4 X Chile, 1.

 

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Rodrigo Mesquita, Entre aspas

Da arte de interpretar pesquisas

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