Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > DIPLOMA

Quem tem medo do provão?

Por lgarcia em 20/01/2001 na edição 105

DIRETÓRIO ACADÊMICO

DIPLOMA

Luís Edgar de Andrade

Os jornais dão cada vez menos notícias. Noutras palavras, os fatos concretos estão perdendo espaço na imprensa. Um estudo sobre os jornais americanos, nos últimos 20 anos, feito pela Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, em Nova York, mostra que os jornalistas, no final do século, se interessavam mais por curiosidades do que por notícias factuais. Os pesquisadores classificaram 3.760 notícias publicadas nos três principais veículos em março de 1977, março de 1987 e março de 1997. O número de notícias sobre fatos concretos baixou de 52,3% em 1977 para 31,5% em 1997.

Não sei se os novos jornalistas têm idéia do que é uma notícia propriamente dita. Quando estudava Direito no Ceará e fazia uma coluna sobre o movimento estudantil no diário O Nordeste de Fortaleza, conheci por acaso, em Salvador, num congresso da UNE, o jornalista Luiz Ernesto Machado Kawall, que se formou, em São Paulo, na primeira turma da Escola de Jornalismo Casper Libero. Devo a Luiz Ernesto as primeiras noções de técnica de jornal. Ele me enviava de São Paulo, todos os meses, o jornalzinho A Imprensa, publicado pelos alunos da Casper Libero. Outro dia, consultando meu arquivo, li num velho exemplar da Imprensa esta notinha que, na época, foi para mim uma revelação:

"Notícia é tudo aquilo que foge ao rotinismo da vida diária.

Para se escrever uma notícia – dizem os americanos – é preciso observar a regra dos cinco W e um H:

WHO (quem)

WHAT (que)

WHEN (quando)

WHERE (onde)

WHY (por que)

HOW (como)

Essa regra eles foram buscar numa célebre quadra de Kipling, que traduzimos do castelhano:

Sei de seis homens honestos

Que me ensinam o que eu sei,

Chamam-se: Que, Onde, Quando,

Como, Quem e Por que.

Deve-se escrever a notícia, dizendo quem, que, quando, onde, por que e como se deu o acontecimento. O resto é enfeite, literatura."

Lembrei-me da Casper Libero, com saudade, ao ser informado de que ela se classificou entre as cinco piores do país no último provão, o exame nacional de cursos promovido pelo Ministério da Educação. Quem te viu e quem te vê. A Casper Libero é a mais velha escola de Jornalismo do Brasil. Foi fundada, em 16 de maio de 1947, por disposição testamentária do jornalista Casper Libero, diretor do jornal A Gazeta, que morreu junto com o arcebispo de São Paulo, dom José Gaspar Afonseca, num desastre de avião que abalou o país. Só dois anos depois, no início de 1948, começou a funcionar o Curso de Jornalismo do Rio de Janeiro, por iniciativa conjunta do então ministro da Educação, Clemente Mariani, do presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Herbert Moses, e do diretor da Faculdade de Filosofia, Antônio Carneiro Leão. Esse curso foi o embrião da Escola de Comunicação Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que por sinal também tirou zero no provão, quer dizer, nota E.

No Rio os estudantes de Jornalismo da UFRJ e da Universidade Federal Fluminense (estes últimos apoiados pela direção da escola) anunciaram o boicote ao provão, mas não tiveram coragem de faltar ao exame. Assim é mole. Compareceram à prova e entregaram as questões em branco. Azar deles. Toda vez que exibirem o currículo para conseguir emprego, numa redação, constará como estigma que se formaram em 2000, o ano do zero. É uma safra sob suspeita, como o Bordeaux 1991. Os conhecedores de vinho sabem o que significa o labéu.

Diploma não basta. Quem se forma em Direito no Brasil, por melhor que seja a escola, pode fazer concurso para juiz, promotor ou procurador, só não pode advogar. Para advogar, precisa submeter-se ao exame da Ordem dos Advogados. Até hoje nenhum bacharel chiou, quero ver chiar. Está aí uma idéia: criar o exame da ordem dos jornalistas, sob os auspícios de jornais, rádios e televisões, para separar na multidão dos diplomados quem está apto a ser aceito no mercado de trabalho. O resto é enfeite, literatura.

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