Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº970

PRIMEIRAS EDIçõES > CRÍTICA DE MÚSICA

Racionais MCs e o tiroteio de cego da mídia

Por lgarcia em 31/07/2002 na edição 183

CRÍTICA DE MÚSICA

Isabel Rebelo Roque (*)

Poucos fenômenos culturais no Brasil já fizeram a crítica pular tão miudinho quanto o grupo de rap Racionais MCs. Apresentados à grande mídia em 1997 com o álbum, hoje histórico e esgotado, Sobrevivendo no inferno, os Racionais mantiveram-se na "estrita trilha" de não trair seu compromisso com a comunidade de onde vieram.

Tornei-me uma apreciadora retardatária dos Racionais: só os conheci no ano passado, de tanto ouvir duas colegas do trabalho falarem deles como de antenas de um novo tempo. Um dia resolvi comprar o CD e ouvir. O resultado foi que, por muitos meses, não conseguia ouvir outra coisa. Ia dormir e acordava com suas músicas na cabeça. Ainda que eu desse um tempo e tentasse ouvir outras coisas, suas letras me voltavam como sonhos ? ou pesadelos ? recorrentes. Algumas delas decorei de cabo a rabo. Não assimilei o CD só pelos ouvidos, mas por todos os poros. E, pronto, lá estava eu, aguardando ansiosamente o próximo trabalho do grupo.

Neste mês, após cinco anos de impaciente espera de todos os lados, eles lançaram na surdina um novo álbum ? desta vez, duplo. E aí recomeçou o tiroteio às escuras dos jornalões.

Os primeiros a noticiarem a chegada às lojas do novo CD foram o Estado de S.Paulo e a Folha de S.Paulo. Dias depois, saíram matérias no Jornal do Brasil e na Veja, além de nova crítica na Folha. Tão interessante quanto deixar o CD rolar é acompanhar os comentários a respeito dele.

O crítico Jotabê Medeiros, em sua matéria de 15 de julho no Estadão, adverte: "O resenhista apressado que não ouvir o disco vai pensar que é só palavrório. Vai repetir frases de efeito, vai enganar meio mundo, mas não é nada disso". O problema é que, lendo a matéria, tive exatamente essa impressão: eis mais um resenhista apressado. Primeiro porque, logo de cara, ele faz questão de colocar um rótulo em cada um dos dois CDs: o primeiro (Chora agora) é classificado como "lírico"; o segundo (Ri depois) é "manifesto atrás de manifesto". Tudo muito bom, tudo muito bem, se não fosse por um detalhe: a música mais forte do álbum ? e que, ao que parece, passou ao largo dos ouvidos de Medeiros ? é Negro drama, que está no disco 1 e não tem nada de lírica. Trata-se de uma sonora e grossa cusparada de Mano Brown, o integrante mais carismático do grupo, na cara dos burgueses (leia-se brancos e bem-sucedidos): "Seu filho quer ser preto/Ah, que ironia!"; "Na época dos barraco de pau lá na Pedreira, onde cês tavam?/Que que cês fizeram por mim?/Agora tá de olho no dinheiro que eu ganho?/ Agora tá de olho no carro que eu dirijo?/Demorô. Eu quero é mais. Eu quero até sua alma." E essa não é a única música de temática mais forte no disco 1, bem diferente do que se entende por "lírico". A pressa em rotular poderia ter sido evitada.

O texto de Jotabê Medeiros é pródigo em elogios aos aspectos musicais do disco. Já ao falar do discurso político do grupo ele vai fundo na puxada de orelha: "Esquizofrênicos, falam de coisas que não conhecem, disparam a torto e à direita, são sexistas em algumas canções e fascistas em outras. Alternam pieguice com pregação da violência e muita confusão ideológica."

Essas, aliás, são críticas recorrentes sempre que o assunto são os Racionais: apologia da violência e sexismo. Mas o que mais chama a atenção na afirmação de Jotabê é o "falam de coisas que não conhecem". Gostaria de saber a que exatamente ele se referiu, uma vez que suas músicas poderiam até ser acusadas de baterem sempre na mesma tecla: violência, racismo, exclusão, desigualdade social. Todos temas nos quais os quatro são catedráticos.

Quanto à "pieguice", não consigo deixar de lembrar algumas coisas que já ouvi sobre eles: que sua poesia é pobre, cheia de chavões, que eles não são como Chico, Gil e Caetano (!?). Fico pensando na dificuldade ? ou má vontade ? que as pessoas têm de fazer um exercício saudabilíssimo: o de se colocar no lugar do outro, de tentar considerar o tipo de formação que ele teve e o contexto em que se desenvolveu, e que o explicam. Chego a pensar, até, que se trata menos de dificuldade e mais de conveniência mesmo. Não exercitando isso, esse outro não existe no meu universo; ele permanece do outro lado da ponte, encerrado no seu barraco de "madeirite", de frente para o "esgoto a céu aberto".

A pressa do trocadilho

Passo os olhos agora pela matéria do JB, assinada por Silvio Essinger. Foi publicada dois dias depois da do Estadão. O resenhista teve, portanto, mais tempo para ouvir o disco. Isso, de qualquer modo, não isenta Jotabê Medeiros: em boca fechada não entra mosquito, já diziam nossas avós. O fato é que a análise de Essinger é bem mais precisa e ? o que é importante ? isenta. Em lugar de "pieguice", ele se refere a "poesia" (notem que o termo não encerra em si nenhum juízo de valor). Em lugar de "sexismo", ele fala em "ótica crítica", no recado do grupo a certo tipo de garota: "Vocês consagraram o estilo cachorro." Trata-se de uma resenha que dá gosto de ser lida: em vez de se apressar em colar rótulos (e acabar por grudar os dedos com o excesso de cola), Essinger simplesmente se deixou transportar pelas ondas da "Rádio Êxodos", fio condutor do álbum. Entendeu a idéia, passou isso ao leitor e, de quebra, não tentou doutrinar ninguém.

Na Folha, a crítica de 15 de julho é assinada por Israel do Vale. Uma semana depois, na edição de 22 de julho, saiu outra, assinada por Álvaro Pereira Júnior, colunista do Folhateen que assinou várias matérias sobre os Racionais em 1998, época do Sobrevivendo. O segundo é um confesso admirador do grupo.

Israel do Vale analisa: "Mano Brown (…) é paternalista, vê-se. Dá dura se preciso. (…) Não se trata de ser doutrinário, embora a questão política, suprapartidária, esteja presente. (…) Um disco que se oferece para ser digerido aos poucos, cheio de sutilezas, de pequenas sofisticações, em camadas. De quanto em quanto tempo dorme-se com um tema da letra na cabeça, em lugar de um refrão?" Bingo.

Álvaro Pereira Júnior, antes vivendo nos Estados Unidos, voltou há relativamente pouco tempo ao Brasil e tem vivido uma relação algo turbulenta com seu público leitor devido a posturas antipáticas e pretensamente polêmicas. Ele começa falando na "armadilha" em que o grupo caiu ao decidir lançar um álbum duplo, dizendo que "a vida não perdoa, contam-se nos dedos os álbuns duplos que deixaram marca". Fico pensando se isso tem algum fundamento ou se não passa de esoterismo envolvendo o número 2.

Logo adiante, ele é novamente taxativo: "A poesia do grupo liderado por Mano Brown não é só a melhor do rap nacional: é a melhor sendo feita, hoje, em qualquer ramo da música popular brasileira, e ponto." É claro que tanta veemência não impediu que o crítico encerrasse a matéria referindo-se ao "discurso violentamente ofensivo às mulheres". De quebra, ele ainda teve uma preocupação inusitada: contar o número de ocorrências das palavras "mar" e "Sol" nas letras (!?) para comprovar sua afirmação de que as referências do grupo são "desavergonhadamente paulistanas". Não me dediquei a esse tipo de estatística, mas há uma ocorrência bastante sintomática da palavra "mar": numa comparação ao sabor da lágrima ("O que é o que é clara e salgada, cabe em um olho e pesa uma tonelada, tem sabor de mar"). Mas a palavra "céu" está bastante presente, não só no universo dos Racionais, mas de qualquer paulistano, por razões óbvias: é o que nos resta olhar. Lembro-me, então, da afirmação de Jotabê Medeiros, de que eles falam do que não conhecem.

A Veja… ah, a Veja, ora veja. Com a sutileza que lhe é peculiar, atira logo no título da matéria: "Irracionais MCs? Parece que a principal banda de rap do Brasil está descambando para a apologia da violência." Pausa para estupefação. Por que o ponto de interrogação? Por que o`"parece"? Afinal, parece que o veredicto já está dado. O curioso é que ao lermos a matéria não conseguimos encontrar a mesma "virulência" do título.

O autor do texto, Sergio Martins, afirma que o grupo "parece" estar seguindo o caminho da apologia da violência e do sexismo. Mas não apresenta evidências. Afirma que algumas músicas são narradas como roteiros de filmes de ação ? até aí nada demais ?, outras são "ambíguas". Afirma ainda que "nem sempre é possível dizer se os músicos, quando cantam, simplesmente constatam como as coisas ocorrem entre os bandidos ou se apóiam o modo de vida marginal". Se o crítico detectou tantas ambigüidades, por que a pressa em fazer o trocadilho com o nome do grupo, tachando-os de "Irracionais MCs" e ainda tentando não se comprometer usando um ponto de interrogação?

É a Miséria S.A., que acabou de chegar

Após ler tudo isso, fico pensando se o papel da crítica é um mal necessário ou um bem desnecessário. É claro que há críticos e críticos; resenhistas e resenhistas, e espero que aqui isso tenha também ficado claro. Mas considero preocupante a facilidade com que muitos deles batem o martelo para dizer: "É fascista!", "é sexista!", ou, indo para o outro extremo, "é o melhor que existe no momento".

No caso específico dos Racionais MCs, é evidente o estrago que a mídia pode fazer: se do ponto de vista musical os Racionais são absolutamente incensados pela crítica, ideologicamente são vistos ? ou é essa a idéia que convém passar ao leitor? ? como um perigo iminente, uma bomba-relógio social. E a idéia acaba por ser comprada por muita gente, que prefere não se dar ao trabalho de conferir. Gostar deles equivale a apoiar a luta armada, a criminalidade e o tráfico de drogas.

Bastaria que as pessoas fechassem os olhos aos rótulos e experimentassem abrir os ouvidos e ficar em silêncio para ouvir o que eles têm a dizer. Perceberiam, então, que se trata exatamente do contrário. Entenderiam que tirar de seu campo de visão o universo de marginalidade, desespero e crime descrito na crônica dos Racionais ? entre outros ? não faz com que esse universo desapareça. Não somos mais crianças, para quem a realidade deixava de existir num simples tapar de olhos.

A bomba-relógio social não são os Racionais e sua música, mas sim a omissão criminosa de governantes, de economistas e da mídia diante do estado de coisas a que não só o Brasil, mas o mundo todo chegou. Termino citando outro grupo de rap, O Rappa, que, por ser carioca, fala muito mais de Sol e de mar em suas músicas: "É a Miséria S/A que acabou de chegar".

(*) Editora de livros didáticos

Todos os comentários

x

Indique a um amigo

Este é um espaço para você indicar conteúdo do site aos seus amigos.

O Campos com * são obrigatórios.

Seus dados

Dados do amigo (1)

Dados do amigo (2)

Mensagem