Sábado, 19 de Agosto de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº954

PRIMEIRAS EDIçõES > OMBUDSMAN

Reaprender o óbvio

Por lgarcia em 05/07/1998 na edição 48


Lira Neto, ombudsman de O Povo (*)

 

S

ei que parece óbvio demais, elementar demais. Afinal, não existe regra mais básica em jornalismo: tomar o cuidado de sempre ouvir o outro lado. Checar informações, apurar antes de publicar, ouvir as partes, contrapor versões. Um ritual minucioso, indispensável, obrigatório. Mas o que dizer diante da extrema facilidade com que abortamos esse princípio fundamental da ética jornalística? Movidos pela pressa do furo, pela soberba típica do ofício ou pelo apetite desenfreado por denúncias, nem sempre cuidamos de oferecer a atenção de nossos ouvidos aos acusados.

Em meus comentários internos da semana passada, destaquei a atenção para a freqüência irritante com que o jornal utiliza, por exemplo, ao final das matérias de denúncia, uma fórmula genérica e lacônica, do tipo “O Povo tentou ouvir ontem o senhor fulano de tal, mas ele não foi localizado”. Dizemos isso e ponto final – simplesmente lavamos as mãos, considerando-nos desobrigados da regra básica que nos manda ouvir sempre aquele que está sendo alvo da denúncia. Somos assim adeptos corriqueiros do julgamento sumário, cúmplices do autoritarismo que ignora o direito de defesa, arautos da intransigência e do totalitarismo impresso.

Ao longo da semana, fui colecionando exemplos que encontrava nas páginas do O Povo .Todos muito graves. O prefeito acusado de meter a mão no dinheiro dos aposentados do INSS. O superintendente de um órgão público acusado de irregularidades administrativas. O diretor de um clube de futebol local acusado de prevaricação. O vereador, presidente de uma Câmara Municipal, acusado de organizar um complô para assassinar um prefeito do interior.

Em todos os casos citados acima, publicamos as denúncias sem ouvir os acusados. Nenhum deles. E nem de longe procuramos esgotar todas as possibilidades de fazê-lo. Simplesmente nos contentamos em afirmar, sem maiores detalhes, que dois deles “não foram localizados”, que um “não estava em seu gabinete”, que outro não estava “na Câmara Municipal”. Por vezes, parece que confundimos jornalismo com uma mera brincadeira de pique-esconde. Uma brincadeira perigosa, em que perdemos sempre.

Antídotos contra o denuncismo

O denuncismo é mesmo a doença infantil do jornalismo. Uma doença que deixa seqüelas graves, irreversíveis, nas imagens e reputações alheias. A esse respeito recebi o retorno de nossa editora de Política, Débora Cronemberger. Foi naquela editoria que haviam ocorrido os principais casos pinçados pelo Ombudsman nas edições da semana passada. Num singular e elogiável exercício de autocrítica, Débora Cronemberger reconhecia os erros, assumia a responsabilidade por todos eles e se comprometia a trabalhar para evitá-los dali para frente.

Por sua vez, nosso editor-executivo, Carlos Ely, informou ao ombudsman que será distribuído, nesta semana, um comunicado interno à Redação tratando do assunto. O comunicado deve apenas reforçar o que já está expresso em nosso Guia de Redação e o que determina o próprio Código de Ética dos jornalistas e o da Associação Nacional dos Jornais: é princípio básico do bom jornalismo que nunca se deixe de ouvir a parte acusada em matérias que tenham caráter de denúncia.

No caso de esgotada toda e qualquer possibilidade de ouvir os atingidos, é necessário detalhar por completo o procedimento para tentar localizá-los. Nesses casos, o jornal deve informar, no rodapé da matéria, os locais onde os acusados foram procurados, o número de ligações feitas na tentativa de ouvi-los, o nome das secretárias ou de outras pessoas que porventura recebam os recados telefônicos do jornal, assim como o horário das tentativas de contato.

Mas há situações que, dependendo da gravidade do assunto, nem mesmo o cuidado de detalhar tais procedimentos é suficiente para justificar a publicação da denúncia. Nesses casos, recomenda-se que a matéria seja embargada até que se consiga ouvir todas as partes. Essa é uma regra que existe desde sempre. O problema é que, até aqui, não tínhamos feito muito esforço para que ela fosse rigorosamente cumprida. Teremos agora que reaprender o óbvio.

Jornalismo de gabinete
Sintomaticamente, recebi na semana passada uma correspondência da Associação dos Funcionários do Banco do Estado do Ceará, Afbec. A carta, assinada pelo presidente da entidade, Erotildes Edgar Teixeira, questionava matéria publicada pelo O Povo no último dia 20, que tratava do expurgo de 15 mil contas de pequenos correntistas do BEC. A matéria atribuía o cancelamento das contas à “modernização” do banco e à “adequação da instituição à nova realidade econômica do País”.

Segundo a Afbec, “a referida matéria fere os mais elementares preceitos do bom jornalismo e não se coaduna com a tradição pluralista e democrática desse jornal”. A carta lamenta que O Povo tenha publicado somente uma versão: a do assessor do banco. “Nenhum contraponto, apenas a versão oficial. Lamentável”, definia Erotildes Edgar Teixeira. “É fato notório que o BEC é uma instituição pública, talvez a única que ainda mantenha as portas abertas aos pequenos correntistas. No momento em que o BEC ameaça fechá-las, milhares de pessoas de baixa renda correm o risco de simplesmente serem excluídas do sistema bancário”, afirma a
carta da Afbec ao Ombudsman.

A crítica da Afbec procede. Aquela matéria era mais um exemplo típico de jornalismo declaratório, simples reprodução do discurso de uma fonte oficial, sem qualquer espécie de reflexão por parte do jornal. Mais uma vez, encampamos um dos lados da questão, sem termos nos dado o trabalho de avaliar o episódio em toda a sua complexidade. O pior foi constatar que a matéria, que mais parecia um press-release do banco, acabou na manchete do jornal.

Atropelando a credibilidade
Caderno Veículos, que circulou ontem no O Povo , traz novamente a coluna “Trilhas”, que desta vez destaca os 50 anos da Land Rover. A coluna Trilhas, que se faz passar por material jornalístico, parece ter surgido com o único objetivo de fazer propaganda dos automóveis e da concessionária da Land Rover no Ceará. Na semana passada, o ombudsman já tratava do assunto, afirmando que as barganhas econômicas das empresas de comunicação oferecem um risco fatal à credibilidade delas próprias. É terrível constatar que O Povo insiste nesse tipo de troca de favores. O que nos faz pensar que o jornal parece subestimar a inteligência do leitor. Enquanto isso, no pátio de estacionamento do O Povo , os automóveis da marca Land Rover proliferam.

(Ver a seguir coluna da semana anterior.)

(*) Copyright O Povo, 29/6/98.

 

Lira Neto, ombudsman de O Povo (**)

“O jornalismo é uma das profissões em que se encontram mais pessoas inquietas, insatisfeitas, revoltadas ou cinicamente resignadas” (Pierre Bourdieu, filósofo francês)

Na corrida pela conquista dos leitores do interior cearense, O Povo sofre uma desvantagem histórica em relação à concorrência. Por limitações estruturais no nosso sistema de distribuição, o jornal não consegue chegar nas cidades distantes da Região Metropolitana de Fortaleza. Fazemos um jornal que trafega basicamente na capital, enquanto nosso principal concorrente monopoliza o mercado nos demais
municípios.

Para sair dessa espécie de ponto morto no Interior, O Povo idealizou recentemente uma certa “Rota da Integração”. Todos os dias, veículos da marca Land Rover fazem um verdadeiro rally editorial, cumprindo o percurso entre Fortaleza e o sul do Estado, região onde O Povo agora circula em parceria com o Jornal do Cariri. Ao longo do caminho, a “Rota da Integração” faz rápidas paradas para a distribuição do jornal em outras cidades estratégicas, como Quixadá e Quixeramobim.

Sintomaticamente, desde a criação da tal “Rota da Integração”, O Povo vem trazendo, de carona, uma série de matérias generosas sobre a mesma Land Rover em suas páginas. Difícil a semana em que o caderno Veículos, que circula aos domingos, não sirva de reboque a uma reportagem elogiosa sobre os automóveis daquela marca. Elogia-se o desempenho dos carros da Rover, destaca-se a potência do motor e a força da tração 4X4, alardeia-se o charme rústico de um “espírito aventureiro” sobre rodas.

Na verdade, aquelas “reportagens” do caderno “Veículos”, anúncios disfarçados de notícias, estão na contramão do jornalismo. Temos ali, explicitamente, mais um caso típico de mercantilização da informação, uma das formas mais condenáveis – e, infelizmente, também uma das mais comuns – de manipulação jornalística. Enquanto uma mão lava a outra, o leitor de boa fé é atropelado por matérias de intenções essencialmente comerciais.

Sempre que os interesses políticos e econômicos das empresas de comunicação ocupam o lugar do jornalismo, a credibilidade dos jornais engata a marcha à ré. Em relação ao caso específico da Land Rover, tenho solicitado de modo sistemático, em meus comentários internos, que o jornal se pronuncie a respeito. Até agora não obtive qualquer espécie de retorno.

Em tempo: na edição de ontem, 21 de junho, o caderno Veículos inaugurou uma coluna intitulada Trilhas. A nova coluna não demonstrou qualquer cerimônia ao avançar o sinal vermelho da discrição: nada menos de metade das notas citava elogiosamente a Land Rover.

Domingo não tem mais jornal

A estratégia mercadológica de fazer as edições domingueiras dos jornais circularem já na tarde de sábado continua servindo apenas como incentivo à desinformação. Ontem, por exemplo, os leitores não ficaram sabendo quase nada sobre as convenções nacionais do PSDB, PPB e PFL, realizadas no dia anterior. Em chamada de primeira página, o jornal informava ontem que “até o fechamento desta edição, as convenções não tinham sido encerradas”.

Os leitores também não foram informados ontem sobre o resultado do jogo Holanda x Coréia do Sul, até agora uma das duas maiores goleadas da Copa do Mundo: 5 x 0. O jogo começou às 16 horas de sábado, praticamente no mesmo instante em que a edição de domingo já começava a ser vendida nos principais cruzamentos da cidade.

Esses são apenas mais dois exemplos de que não faz o mínimo sentido colocar o jornal de domingo precocemente nas ruas, ainda no sábado. Na verdade, para sermos sinceros, não temos mais edição de domingo. São, de fato, duas edições no sábado, uma circulando pela manhã e outra no meio da tarde. Pelo visto, nenhum acontecimento parece ser suficientemente forte para alterar essa lógica vesga. Se o mundo acabar no final da tarde de sábado, você só vai ficar sabendo mesmo na segunda-feira de manhã. (….)”

(**) Copyright O Povo, 22/6/98.

 

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