Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº1046
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Rebelião na redação é lição para a mídia

Por lgarcia em 20/11/1999 na edição 79

 

Luiz Egypto

Veja e$$a. A Carta ao Leitor da maior revista semanal brasileira de informação comemora sem maiores peias o atingimento de “dois recordes”: o primeiro, por conta das 131 páginas editoriais “preenchidas por 10.000 linhas de texto”; o segundo pelo número de anúncios, que ocupam “125 páginas, marca que consolida a preferência dos anunciantes pela mais lida e influente revista brasileira”, afirma, sem modéstia.

A carta aos leitores de Veja nº 1.624 não se agüenta de tanto contentamento. Permite-se até uma manjada metáfora – subterfúgio carne-de-vaca para desviar a atenção sobre o inexorável avanço do comercial sobre o espaço editorial: “Se as bobinas de papel usadas para imprimir este número de Veja fossem desenroladas, elas produziriam uma fita contínua de 5.000 quilômetros, superando a distância em linha reta entre o Oiapoque e o Chuí, de um extremo a outro do país”, encerra-se a carta. É de emocionar.

Na terça-feira (16/11/99), a Gerência de Relações com a Imprensa da Editora Abril distribuiu comunicado pela internet, também vazado em tons laudatórios, sobre o feito de Veja, o carro-chefe da empresa. Duas linhas burocráticas no corpo da mensagem convidavam o destinatário a abrir arquivo anexado. Lá se escreve, sob arte e título “Veja desta semana bate recorde histórico”:

“Na semana passada, Veja (edição de 10 de novembro) saiu com 110 páginas de publicidade e 122 editoriais, totalizando 232 de estrutura, o que foi motivo de comemoração da equipe. Uma semana depois, esses números já foram ultrapassados: a edição de 17 de novembro [a que se refere a mencionada Carta do Leitor] contabilizou 125 páginas de publicidade e 131 editoriais, resultando na Veja mais ‘gordinha’ de que se tem notícia: 256 páginas.”

Duzentas e cinq

üenta e seis páginas poderiam ser mais festejadas. “Fita contínua de 5.000 quilômetros” de papel, revista “mais ‘gordinha’”… é triste, mas a vida é assim. É provável, por isso, que a “comemoração da equipe” tenha sido mesmo efusiva. No brinde ao primeiro recorde, 12 páginas constituíam a diferença entre espaço editorial e comercial, com vantagem para a redação. Na edição seguinte, com aquela marca superada, a diferença caiu para meras 6 páginas – agora com evidente vantagem relativa para a competente rapaziada do departamento comercial. Uma revista semanal de informação… publicitária.

É certo que a performance foi atingida pela feliz negociação havida com dois clientes muito especiais: uma montadora francesa, que comprou 8 páginas, e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que comprou outras 16. Dezesseis páginas?! Um luxo a indicar que anda muito bem das pernas essa importante agência reguladora.

Por tudo isso, a localização da comemorativa Carta ao Leitor (edição de 17/11/99) pode significar o prenúncio de um novo modo de fazer revistas: descolada do índice, texto espremido entre um frigorífico e um champanhe, acima de um relógio e atrás de um eletrodoméstico… respira… com… dificuldade.

 

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