Sábado, 23 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > MÍDIA ESPORTIVA

Rede TV! e Corinthians, tudo a ver

Por lgarcia em 22/01/2003 na edição 208

MÍDIA ESPORTIVA

Antonio Carlos Teixeira (*)

A conquista do Campeonato Brasileiro pelo Santos em 2002 reacendeu o debate sobre o comportamento da mídia esportiva do país. Não raro, podemos comprovar que muitos encaram esse setor como o "patinho feio" do jornalismo tupiniquim. Não pela qualidade dos profissionais ali reunidos, muitos de ótimo caráter profissional e de inquestionável competência. O que me perturba como torcedor é o fato de esses profissionais colocarem suas paixões em primeiro plano. Não pretendo recriminá-los nem colocá-los no paredão. Não é isso.

Muitos colegas usaram o valioso espaço cedido pelo Observatório da Imprensa para expor o que pensam sobre a nossa crônica esportiva. As duas partidas entre Santos e Corinthians pelas finais do Brasileiro do ano passado são, a meu ver, o marco dessa discussão. Como bem lembrou um torcedor neste Observatório, o narrador Galvão Bueno, da TV Globo, extrapolou, como sempre faz. Deixou clara sua preferência por uma das equipes. Usou e abusou de adjetivos, que só tinham o fim de inflamar a "massa corintiana". Coisas para elevar a audiência. Confesso que nada disso me incomoda tanto como o comportamento antiprofissional da Rede TV!. A emissora surgiu como opção diferenciada para o telespectador, com vários programas criados, muitos com boa média de audiência.

Ao esporte, a emissora chegou com proposta inovadora, porém frágil. O pedido de demissão feito ao vivo pelo estabanado Jorge Kajuru, âncora do programa do meio-dia, fizeram sucumbir as pretensões do veículo. Apesar de seus arroubos e de se achar mais ético e profissional do que os demais colegas da área, Kajuru fazia um bem danado à Rede TV!, servindo de contraponto ao que a produção dos programas esportivos preparava.

A caçula das TVs apostou sempre na marca Corinthians. Contratou Juca Kfouri, Sócrates e Juarez Soares. Montou, como se viu, uma bancada extremamente forte do ponto de vista de opinião. Mais: apaixonada pelo Corinthians. A emissora errou, a meu ver, ao dar liberdade em demasia aos contratados. Em geral, eles abusavam (e abusam) das tiradas sarcásticas. Irritavam (e irritam) os torcedores de outros times. O programa Bola na Rede, apresentado aos domingos pelo brilhante Juca Kfouri, é todo dedicado ao time do Parque São Jorge. A mesa de convidados é, quase que invariavelmente, formada por corintianos, sejam eles dirigentes, jogadores ou ex-jogadores.

Num dos programas do ano passado, todos os integrantes da mesa tinham alguma relação com o time do Parque São Jorge. Esse fato levou o próprio Juca a se desculpar com o telespectador. Mas o pior faz a produção do TV Esporte, exibido a partir do meio-dia. Metade das matérias do programa é voltada ao Corinthians. Para não escrever bobeira e cometer injustiças, fiz questão de cronometrar o tempo dado aos clubes nas reportagens do TV Esporte. Na semana passada, acompanhei dois programas na íntegra. O resultado não me surpreendeu. O Corinthians teve o dobro do tempo dado às outras equipes paulistas.

Mais profissionalismo

Em dois dias seguidos, o programa não fez qualquer menção ao atual campeão brasileiro, o Santos Futebol Clube. Disseram que era porque o Santos não tinha treinado com bola, como se para cavoucar pautas um repórter dependesse, única e exclusivamente, da "gorduchinha" rolando. O time santista estava em Jarinu, preparando-se para as disputas do Paulistão e da Libertadores. Faltou imaginação e trabalho apurado do pauteiro. Nesse mesmo dia, o Globo Esporte, da TV Globo, fez brilhante matéria sobre a volta aos treinos do volante Narciso, que se recupera de delicada cirurgia. A Rede TV! não se deu ao trabalho de ao menos dar "nota coberta", fato que por si só derruba qualquer argumento da produção.

Diante de tamanho descaso (com o Santos e demais times), liguei para a emissora. Como sempre, o grito do torcedor não foi ouvido. O que se ouve por aquelas bandas é, tão-somente, o brado do diretor, preocupado com o sobe-e-desce dos pontos de audiência. E que se dane o telespectador!

É chegada a hora de o futebol mudar não só fora das quatro linhas, como gostam de propagar os "cronistas esportivos". É chegada a hora de as emissoras de televisão tratarem o futebol com mais profissionalismo, isenção, qualidade.

Não adianta o Juca Kfouri ficar bradando coisas contra os cartolas, a CBF e o Ricardo Teixeira, com os quais trava batalha homérica, se dentro de sua casa o comportamento ético de suas equipes de produção é questionado pelos torcedores. Não custa lembrar que o interesse do telespectador deve se sobrepor ao dos demais. Até código de defesa nós, torcedores, ganhamos. Aliás, bem que se poderia incluir, nesse código, um artigo que nos proteja contra os maus segmentos da mídia esportiva.

Em nome de milhões de torcedores de times como São Paulo, Palmeiras e Santos, faço um apelo à Rede TV!: seja mais profissional. Opte por seus telespectadores como um todo, e não somente pelo que teoricamente agita o ibope.

(*) Jornalista em Brasília

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