Segunda-feira, 20 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

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Reforma ministerial e as bestas do Apocalipse

Por lgarcia em 05/05/1999 na edição 66

Eduardo Viveiros (*)

 

O

jornalismo político brasileiro é rico em analistas, articulistas, comentaristas e colunistas liberais, conservadores, progressistas (ao centro-esquerda e à esquerda) e independentes. Podemos intuir se professam este ou aquele credo político quando publicam suas idéias e análises em jornais ou os apresentam em comentários em emissoras de rádio e TV e, agora, via Internet.

De acordo com manuais ou estratégias das empresas para as quais trabalham, muitos procuram mostrar-se politicamente indefinidos. Na função de analistas, como atores que improvisam e criam novas falas ou cenas, fugindo aos papéis previamente definidos por seus “diretores”, ora aparentam estar à esquerda, ora à direita, quando não pairam ameaçadoramente sobre as atormentadas almas dos políticos brasileiros. A imparcialidade e a objetividade devem marcar suas intervenções. O que, verdade seja dita, nem sempre é possível garantir, devido à matéria com que lidam diariamente: a rotina do poder num país como o Brasil.

Em muitos casos, vestem coloridos trajes de arautos do clamor popular ou lúgubres túnicas de oráculos que prevêem crises e trovoadas. Isso se as crises não se anteciparem às previsões. Os mais divertidos, por certo, são os que, no papel de bufões, acertam em cheio no centro do poder com suas demolidoras frases ou piadas.

Há também os que arriscam reputações em assessorias de gabinetes parlamentares, ministeriais e presidenciais, tomando corpo – e voz, depois de despir suas asas analíticas. Como o ex-anjo Daniel, personagem interpretado pelo ator Bruno Ganz, nos filmes Asas do desejo (1987) e Tão longe, tão perto (1993), do diretor alemão Wim Wenders, saltam do metafórico muro, onde estavam instalados como observadores da cena política, para a dura realidade das lides políticas. Nem sempre, porém, os benefícios superam largamente os riscos de tal empresa. Ao contrário do destino de Daniel, no segundo filme, nem tudo acaba em pizza. Ossos do ofício…

Quando atuam como conselheiros informais, no entanto, esses jornalistas desempenham os mais interessantes papéis. Um exemplo é José Nêumanne Pinto, articulista do Jornal da Tarde e comentarista da rádio Jovem Pan, cujo estilo lembra o de um personagem da cena jornalística do século passado, França Júnior, de quem tratamos a seguir.

Sete pecados

Em seu artigo “Só 12 pares sob FHC” (Jornal da Tarde, 9/3/99, pág. 2A), José Nêumanne, resgatando a Nova República e os governos dos dois Fernandos (Collor de Mello e o Henrique Cardoso), fixou em 12 o número ideal de ministérios para o segundo governo Fernando Henrique. E o fez acompanhando a sugestão do senador Jorge Bornhausen (SC), insígne presidente do PFL, eixo principal da estrutura de apoio político do governo.

O autor tacha de exagero chegar-se aos 40 ministérios, secretarias e outros órgãos no primeiro governo de FHC, a quem não teriam faltado nobres causas para tanto, pois era preciso, digamos, motivar a profana aliança para fazer o Congresso aprovar as reformas constitucionais. Invoca a instalação de uma (metafórica) guilhotina na Esplanada dos Ministérios, para instar o FHC do segundo mandato (FH-2) a entrar para a história cortando cabeças com vontade e “peito”. Como ensina Roseana Sarney, no Maranhão.

Acrescenta, ainda, o exemplo de ACM, “vice-rei do PFL no Norte e Nordeste”, em conflito com parte do Poder Judiciário brasileiro, depois de “prescrever” cirurgias na Justiça do Trabalho, na Justiça Militar e nos tribunais de contas da União, dos Estados e municípios. A produção de instrumentos cortantes do senhor José Nêumanne não tem fim!

O jornalista conclui seu artigo, ainda afiado, com uma observação interessante: ou FH-2 (a “bola da vez”?) “extirpa todos esses apêndices inúteis ou seu segundo governo vai ficar com essa triste cara de fim de festa, do primeiro ao último dia”. Bem, já se passaram mais de 100 dias…

Por que não, então, instigar a sanha guilhotinesca do “terror” tucano-pefelista e cortar o número de ministérios até chegarmos, inicialmente, aos 7 do Império – por exemplo, os do gabinete liberal do conselheiro Zacarias de Góes e Vasconcelos (1866-1868)? Simplificando para ministérios da Guerra, da Marinha, da Justiça, dos Estrangeiros, do Império, da Fazenda e Agricultura, Comércio e Obras Públicas, estaríamos livres de “abcessos” como Trabalho, Educação, Ciência e Tecnologia…

Para tanto, é preciso trazer à cena a crítica corrosiva de França Júnior (Joaquim José de França Júnior, 1838-1890), jornalista panfletário conservador, comediógrafo (autor de Caiu o Ministério! e Como se fazia um deputado) e homem de governo que, em folhetins publicados no Correio Mercantil, entre 1867 e 1868, contribuiu para a queda do gabinete Zacarias, levando os conservadores de volta ao poder depois de um jejum de 4 anos.

Nos seus folhetins, França Júnior foi um dos precursores do jornalismo político do país ao colocar, lado a lado, crítica de costumes políticos e análise dos hábitos e tendências da pequena burguesia carioca do século passado, usando de fina ironia e abusando de metáforas para ilustrar suas críticas. Por exemplo, associando cada ministério a uma peça de mobília e, com 7 peças, compondo a decoração de um gabinete onde “reina a extravagância, o disparate e o contraste nas mais pequenas coisas; é a cadeira antiga de jacarandá ao lado do fofo divã de damasco, a secretária de mogno junto a um móvel do século XVIII, a pintura chinesa a fazer caretas a uma cópia de Rafael etc. etc.” (17/5/1867). E pensar que FHC, pelo menos no primeiro mandato, trocava os quadros de seu gabinete todos os meses!

Inspirando, quem sabe por que “corte” intelectual, seus colegas jornalistas do futuro, França Júnior ameaçava (metaforicamente) um Andrada histórico (Martim Francisco Ribeiro de Andrada, ministro dos Estrangeiros, depois da Justiça, no gabinete Zacarias de Góes) com a mesma sorte do senhor Guillotin (que literalmente perdeu a cabeça no instrumento que inventou). O Andrada citado seria o suposto autor de Januário Garcia, o Sete Orelhas, drama em 3 atos, e cinco quadros, que serviria de mote para França Júnior, no folhetim de 26 de maio de 1867, “apresentar aos leitores as sete orelhas do país”. Novamente o número 7, invocado em 26 de abril do mesmo ano, quando o autor falava em “sete pedaços do país (…) que valem o estudo de uma grande biblioteca, sete homens de princípios, sete pecados mortais ou sete casacas”.

Como toda época tem o cronista que lhe cabe, na literatura ou nas artes cênicas, é no teatro que buscamos os termos de mais uma comparação com a cena política atual e uma sugestão sobre o número de ministérios para o último(?) governo FHC. Significativamente, a Companhia Teatro da Vertigem prepara a estréia, para o final deste semestre, de uma versão do Apocalipse, escrita por Fernando Bonassi.

Chegamos, assim, ao limite dos “cortes”. Inspirados no Apocalipse (do teatro), sugerimos a redução a quatro do número de ministérios para o governo FH-2. A cada “pasta”, para facilitar a identificação, será dado o nome de uma das quatro bestas do Apocalipse: branco (o poder), vermelho (a guerra), preto (a fome) e amarelo (a morte). Quem se aventura a prever os nomes dos futuros ministros-cavaleiros?

(*) Pesquisador do Neamp – Núcleo de Estudos em Arte, Mídia e Política da PUC/SP.

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