Sábado, 18 de Novembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº966

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Regina Ribeiro

Por lgarcia em 05/06/2002 na edição 175

O POVO

"Nota de repúdio" copyright O Povo, 1/6/02

"A leitura é por definição rebelde …, Roger Chartier, historiador francês
Estava preparando há mais de uma semana um texto sobre liberdade de imprensa e privacidade tendo como base o seminário ocorrido em Brasília, há cerca de 15 dias, que reuniu membros da Associação Nacional dos Jornais (ANJ) e do judiciário brasileiro. O assunto foi abordado de forma eficiente numa página temática publicada no O Povo, no último dia 28, mas considero o assunto importante para discutir mais uma vez.

No entanto, esta coluna mudou o rumo diante do número de manifestações dos leitores por conta da opinião expressa pelo jornalista Themístocles de Castro e Silva (TCS) sobre o ex-presidente de honra do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), João Amazonas, morto no último dia 27. Ao todo recebi 14 reclamações sobre a fala do jornalista. Foram seis telefonemas e oito e-mails recebidos até sexta-feira. Pode parecer pouco diante do número de pessoas que lêem O Povo, mas foi um recorde de reclamações que recebi sobre um mesmo tema. Outros leitores enviaram cartas à Redação. Na edição do dia 29, a seção de cartas do O Povo foi totalmente ocupada por manifestações contrárias às opiniões do Themístocles. Segundo o jornalista, João Amazonas foi o ?idealizador da guerrilha do Araguaia?, movimento armado de esquerda que tinha como alvo acabar com a ditadura militar que se impôs no País a partir de 1964. Acrescenta, no entanto, que o líder comunista ?em vez de tomar a frente do movimento, convenceu alguns estudantes, no que resultou na morte de 40 a 50 deles?. Diz que ainda que a guerrilha foi desmantelada em 48 horas.

Todos os leitores (11) e leitoras (3) deixaram claro dois pontos principais da crítica: 1?. O Themístocles pode discordar à vontade das idéias do João Amazonas, mas consideraram desrespeitosa a forma como ele se pronunciou contra um personagem histórico que acabara de morrer. 2?. Há respeito pela pluralidade editorial do O Povo, mas os leitores afirmaram que o jornal escolheu mal o entrevistado para falar a respeito do ex-líder do PCdoB.

O que elas disseram

Considero importante detalhar esse sentimento dos leitores que se manifestaram. A primeira leitora disse o seguinte: ?Não entendo como um jornal conceituado como O Povo dá voz a um homem como o Themístocles. Estou revoltada com a forma como ele falou do João Amazonas. O jornal precisa se retratar pela ofensa que publicou?. Outra leitora chegou a dizer que estava ?atônita com a posição do O Povo em colocar o TCS para julgar o João Amazonas?. E acrescentou: ?Qual a atividade dele ? Themístocles ? em nome da liberdade e da democracia? Foi uma decisão muito infeliz essa do O Povo. A terceira leitora era uma dona de casa que fez questão de dizer que não era comunista antes de fazer a crítica. ?Vocês não sabem quem foi o João Amazonas?, perguntou a moça num inconfundível tom de irritação. ?Se sabem, como é que colocam esse homem para dizer o que ele está dizendo?.

Fiz questão de reunir a fala as leitoras por uma razão especial: apesar das mulheres representarem 49% dos leitores de jornal, segundo a ANJ, dificilmente uma mulher liga ou mandar um e-mail para a ombudsman para fazer críticas ao conteúdo das edições.

Pluralidade e respeito

Um dos leitores, professor universitário, fez a seguinte identificação do jornal: ?O Povo (…) é visto por grande parte da comunidade cearense como um jornal mais aberto, crítico e pluralista?. No entanto, o leitor defende que ?a posição democrática e pluralista professada pelo jornal em seus editoriais e documentos internos não se coaduna com a complacência do O Povo para com a conduta deplorável do senhor Themístocles de Castro e Silva?. Num texto consideravelmente forte e denso, o professor tece sua crítica embasando-a nos conceitos da própria democracia. ?A democracia não pode, nem deve ser compreendida como um regime formal, distante do inexorável compromisso com os valores éticos, muito menos quando tais atos violam o maior de todos os princípios: o da dignidade da pessoa humana?, escreveu o leitor, afirmando em seguida que foi de forma ?torpe e covarde que ? o jornalista em questão ? atacou João Amazonas?. E conclui: ?Mais espantoso ainda é constatar como o jornal permite tal despropósito?.

Em ofício enviado ao O Povo, por e-mail, um leitor registra o seu ?descontentamento? com a opinião do TCS e faz uma avaliação do conteúdo de outro jornal de circulação nacional: ?Ao analisarmos o jornal Folha de S.Paulo do mesmo dia (28), observamos como é diferenciada em conteúdo a notícia reportada ao mesmo acontecimento. A forma é similar. Ao lado da reportagem foi colocado um quadro com diversos depoimentos de autoridades e intelectuais sobre João Amazonas?, afirmou o leitor.

Não apenas a Folha, mas praticamente todos os jornais de circulação nacional ? entre eles O Globo e o Jornal do Brasil ? ouviram depoimentos sobre o ex-presidente de honra do PCdoB e ouviram também pessoas que não concordam com as idéias defendidas ? em mais de 60 anos ? por Amazonas.

Um outro leitor do O Povo confirma que ?qualquer adversário político seria capaz de reconhecer a firmeza e qualidade deste importante líder político, ao qual todos respeitavam, discordando ou não da sua política?. Por último, a opinião de mais um leitor: ?Acho que o jornal não teve o cuidado devido, pois independente das posições ideológicas do noticiado, sua trajetória não merecia tamanho desrespeito. Além dos mais não se tratava de construir um contraponto a qualquer preço. O rancor do articulista prejudicou a notícia?, avaliou.

Reforço

Concordo com a opinião dos leitores. E a minha concordância não está ligada à censura prévia à fala de quem quer que seja. Preciso admitir, no entanto, que faltou ao Themístocles um mínimo de elegância ao se referir ao João Amazonas. Mas essa carência do jornalista se estende a qualquer outro adversário no campo das idéias políticas e tem sido uma constante reclamação de vários leitores. Não é preciso ser hipócrita, ter dupla opinião, ou ser incoerente para discordar do pensamento de qualquer pessoa. É possível fazê-lo sem cair em grosseria ou ataques pessoais.

Ao jornal também faltou delicadeza. Para fazer jornalismo crítico não há necessidade de privilegiar discursos que não contribuem para elevar o nível do debate. E, nesse caso específico, foi o jornal que escolheu e entrevistou o jornalista dada a sua notória postura política. Acontece que o TCS não é o único homem que defende postulados políticos que se convencionou chamar de direita, mas é um dos únicos a agir com ferocidade verbal, onde caberia uma discordância cortês e elegante mesmo que fosse feita com firmeza."

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