Sexta-feira, 22 de Setembro de 2017
ISSN 1519-7670 - Ano 19 - nº958

PRIMEIRAS EDIçõES > O POVO

Regina Ribeiro

Por lgarcia em 26/06/2002 na edição 178

O POVO

"Coluna social ", copyright O Povo, 22/6/02

"?Será que uma verdadeira sociedade precisa mesmo de cronista social?? Mário Quintana, poeta

Antes de tratarmos do assunto central desta coluna, vou me deter numa história que há tempos ando pensando como uma ilustração ? de grosso modo, é claro ? da situação que será tema desta nossa conversa de hoje.

Em 1995 o senado italiano presidido por Carlo Scognamiglio, atual ministro da Defesa de Roma, foi o responsável pela organização de uma série de seminários para discutir a imprensa italiana. O escritor Umberto Eco foi o principal conferencista do encontro dada a crítica que ele já fazia aos jornais italianos, principalmente quanto ao conteúdo político. Na ocasião ele traçou uma avaliação dos momentos de transição da história recente da imprensa daquele país, principalmente quando os principais veículos deixaram para trás os erros cometidos, segundo Eco, com suas escandalosas manchetes policiais, para se concentrar na vida política da Nação. Embora, ainda de acordo com o escritor, os erros continuassem acontecendo, mesmo que fossem em menor quantidade. Naquele momento, a Itália ainda estava vivendo sob o efeito da chamada ?operação mãos limpas? que desbaratou várias organizações da máfia italiana e suas ligações perigosas com o poder judiciário e político.

Mas, o que chamou a minha atenção nesse relato transcrito e publicado no Brasil em 1999, foi uma constatação de Eco depois de avaliar a imprensa e a disposição dos jornais de publicarem críticas a eles próprios desde as décadas de 60 e 70. O autor constata que essa autocrítica, algumas vezes, pode não render efeitos que levem a uma reflexão, uma discussão, e por fim, uma mudança de postura. Diz o escritor italiano:

?Porém, muitas vezes, fazê-lo (a autocrítica) não é suficiente; fazê-lo, aliás, pode constituir um álibi sólido, ou ainda usando de severidade, um caso que Marcuse (Herbert Marcuse era filósofo alemão, considerado o pai da nova esquerda, nos anos 60, fez uma crítica à teoria marxista ortodoxa ao criticar a revolução marxista russa) chamava de ?tolerância repressiva?, uma vez demonstrada a própria autoflagelante ausência de preconceitos, a imprensa não se mostra mais interessada em sua própria reforma?.

Risco e problema

Sou consciente do risco de tomar posse do discurso alheio para forçar a defesa de uma idéia, sem o devido reconhecimento do processo histórico vivido pelo autor. No entanto, depois de contextualizar ? pelo menos minimamente ? o pensamento do autor, quero dizer que às vezes é mais ou menos essa a leitura que eu, particularmente, faço do comportamento do O Povo diante das críticas feitas por ex-ombudsman à Coluna Social diária do jornalista Lúcio Brasileiro.

O conteúdo da crítica não alterou um til nesses últimos anos. Mas vamos relembrá-las: o colunista entra de férias, viaja, e a Coluna continua sendo editada com se ele estivesse escrevendo diariamente. Tudo bem, desde que isso fosse devidamente informado ao leitor. O pior, segundo os leitores que reclamam ? que também parece ser os mesmos ? está no conteúdo. A Coluna Social, nessas ocasiões, passa a ser Coluna pessoal, quando o colunista se transforma em personagem autobiográfico de fatos sociais de tempos idos. Quando não, oferece dicas de etiquetas e conceitos sociais de comportamento num formato que tem um cheiro de desuso inconfundível.

No dia-a-dia no entanto, as críticas ? idênticas ? são outras. O colunista, com uma freqüência religiosa, mistura o espaço do jornal, destinado a informação social, em espaço privado para divulgar seus empreendimentos pessoais, como o restaurante de sua propriedade e uma tal bíblia da sociedade cearense, ?alva e com letras douradas?, segundo o próprio colunista.

Sem novidade e informação

A crítica dos leitores não é nova, como não é novo o procedimento do colunista. A crítica interna também não é novidade e a externa vem se repetindo em ciclo, ou círculo, como queira o leitor. E, pela prática do O Povo, parece que a empresa se dá por satisfeita que a crítica seja feita.

No entanto, devo dizer que esse tipo de colunismo engendrado pelo jornalista Lúcio Brasileiro não acompanha os processos vividos pelo O Povo. O jornal ? de 74 anos ? tem tido um cuidado constante com a sua modernização gráfica e editorial, inovado e proposto novas formas de comunicação com a sociedade. Foi o primeiro jornal do Nordeste a criar e manter um ombudsman, foi o primeiro veículo brasileiro a criar um Conselho de Leitores que se reúne mensalmente para analisar o conteúdo do jornal; tem adotado uma postura de vanguarda ao defender causas sociais importantes e é considerado o único veículo plural do Ceará.

Por outro lado, tem ainda outra questão: a prática do Lúcio Brasileiro é um atentado às normas vigentes nesta empresa e isso todos os leitores podem constatar pelo Guia de Redação e Estilo do O Povo publicado recentemente.

No verbete ?Colunas? (na página 293) está dito: ?As colunas do O Povo se caracterizam por conter informações de bastidores, notícias curtas ou análises e opiniões dos colunistas. As opiniões são de responsabilidade dos colunistas, porém o jornal exerce vigilância sobre o conteúdo de suas colunas. Cabe ao colunista não utilizar o espaço das colunas para promoção e interesses particulares. Também dever ficar atento à utilização excessiva de alguns personagens. Nos dois casos, cabe à direção da Redação alertar o colunista e adotar punição para casos reincidentes?. Não havendo distinção entre colunas sociais e as demais, a norma sugere uma prática unânime.

Ou seja, não vou sequer tratar da questão ética que o colunista deveria ter em não divulgar informações do seu interesse particular. O que é existe é uma norma da empresa, que norteia todos os colunistas. Se o jornal deve exercer vigilância sobre o conteúdo das colunas e se o jornal sabe das regras firmadas pela prática, e depois de discussão interna, tornadas pública por meio do seu manual de Redação, pode-se afirmar que, no mínimo, existe negligência de avaliação dessa coluna.

Muitos leitores já criticaram o que chamam inclusive, de excesso, de colunas sociais no O Povo. Tem duas colunas diárias e um caderno inteiro aos domingos. A crítica é pertinente, mas acredito que o conteúdo dessas colunas são o mais importante. As colunas sociais são um retrato de um tempo, com seus personagens, e quando bem feitas podem se tornar fontes interessantes de pesquisa no futuro, e no presente, podem demonstrar tendências e comportamentos.

Além do conteúdo, devo frisar que nada melhor que informação escrita em ordem direta, sem uso de estrangeirismos desnecessários, usos ? e abusos ? de códigos só decifráveis para iniciados e além de tudo, correção nas informações publicadas."

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